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pensar em que perfume vai usar amanh. 

 

 

 

 

 

- Pssego. Provavelmente. 

Ele afastou para trs os cabelos que cobriam parte do rosto dela, e baixou o rosto tocando-
lhe o pescoo com a ponta do nariz. - Eu gosto de pssego... acho que tanto quanto eu gosto 
de chocolate e amndoa. Voc me deixa com fome. 

Maddie conhecia aquela sensao. - Talvez deva se apressar para ir para a casa da sua irm 
e comer ervilhas de caarola. Ela sentiu o sorriso dele encostando na sua pele, e em seguida 
ele beijou suavemente seu pescoo perfumado. Um arrepio percorreu toda a espinha de 
Maddie e sua cabea pendeu para um lado. Ela tinha de interromper aquilo... Mas no 
agora. Daqui a um minuto... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 1 

 

O non branco e intenso sobre o Bar Mort's pulsava, vibrava e atraa a aglomerao de 
gente sedenta de Truly, Idaho, como uma luz hipntica. Mas o Mort's era mais que uma 
forte atrao por cerveja. Mais que meramente um lugar para beber uma cerveja gelada e 
entrar numa briga em noites de sexta-feira. O Mort's tinha significado histrico. Enquanto 
outros estabelecimentos instalaram-se e se foram na pequena cidade, o Mort's permaneceu 
sempre o mesmo. 

At cerca de um ano atrs, quando o novo dono havia arrumado o lugar com gales de 
desinfetante e tinta, e institudo uma estrita poltica de proibio de arremesso de calcinhas. 
Antes disso, arremessar roupa ntima para cima, como no jogo de arremesso de aros, para 
acertar a srie de chifres que ficavam sobre o balco do bar foi encorajado como um tipo de 
evento esportivo indoor. Agora, com o novo dono, se uma mulher tivesse o impulso de 
arremessar suas roupas ntimas levava um chute no traseiro, ainda que estivesse nu. 

Ah, os bons velhos tempos... 

Parada na calada em frente ao Mort's, Maddie Jones olhou para cima, para o luminoso, 
mas era completamente imune a atrao subliminar emitida pela luz que atravessava a 
escurido que se impunha pouco a pouco. Um rumor indefinido de vozes e de msica 
alastrava-se pelas rachaduras do velho prdio encaixado entre uma loja de informtica e um 
restaurante. 

Um casal usando jeans e camiseta namorava na calada. Algum abriu a porta. O som de 
vozes e a msica country transbordou para a rua Main. A porta fechou-se e Maddie 
permaneceu parada do lado de fora. Poucos segundos depois, ela ajustou a ala da bolsa no 
ombro e puxou o zper do seu volumoso suter azul. Havia morado em Truly vinte e nove 
anos atrs, e se lembrou de como a noite era fresca ali. Mesmo em julho, pleno vero. 

Sua mo ergueu-se na direo da velha porta, depois a soltou. Uma surpreendente sensao 
de apreenso lhe ouriou os cabelos da nuca. Ela havia feito isso dzias de vezes. Ento, 
por que a apreenso? Por que agora?, perguntava a si mesma, embora soubesse bem qual 
era a resposta. Porque desta vez era pessoal. Depois que abrisse aquela porta e desse o 
primeiro passo no haveria a possibilidade de voltar. 

Se suas amigas pudessem v-la ali, parada como se os ps tivessem sido enterrados em 
concreto fresco, que depois de seco os deixou imobilizados, ficariam chocadas. Maddie 
entrevistara assassinos em srie - assassinos a sangue frio, mas conversar dissimuladamente 
com malucos que tm perturbaes em sua personalidade anti-social era fcil em 
comparao com o que a esperava no Mort's. A sua frente um aviso dizia: PROIBIDA A 
ENTRADA DE MENORES DE 21 ANOS. Seu passado a esperava e, como aprendera 
recentemente, investigar o passado de outra pessoa era muito mais fcil que investigar o 
prprio passado. 

Respirou fundo e se preparou para finalmente empurrar a porta. Estava aborrecida consigo 
mesma por se sentir to insegura, mas acabou com sua inquietao graas a uma inflexvel 
fora de vontade. No aconteceria nada que ela no quisesse. Tudo estava sob controle. 
Como sempre. 

A batida pesada da jukebox e o cheiro de lpulo e tabaco a atingiram assim que entrou. A 
porta se fechou e Maddie parou e esperou que seus olhos se acostumassem com a pouca luz 
que havia ali dentro. O Mort's era apenas um bar. Como milhares de outros que ela havia 
visto pelo pas. Nada de especial. Nem mesmo a coleo de chifres pendurados ao longo do 
balco de mogno era algo fora do comum. 


Maddie no gostava de bares. Especialmente bares de cowboys. A fumaa, a msica e o 
incessante consumo de cerveja a incomodavam. Tambm no se importava com cowboys 
particularmente. Um jeans apertado no traseiro de um cowboy no compensava o desgosto 
causado pela viso das botas, fivelas e dos rolos de fumo de mascar. Ela apreciava homens 
de terno e sapatos de couro italiano. No entanto no tivera nem mesmo um simples 
encontro nos ltimos quatro anos. 

Avanou tortuosamente na direo do longo balco de carvalho do bar onde localizara um 
nico banco vazio, e enquanto caminhava estudava os freqentadores do lugar. Seu olhar 
fixou-se nos chapus dos cowboys e nos bons dos caminhoneiros. Notou rabos-de-cavalo, 
cabelos na altura dos ombros, alguns dos piores permanentes que j vira as franjas 
irreverentes que foram invariavelmente recuperadas dos anos oitenta. Mas no viu a pessoa 
pela qual procurarava, embora no esperasse realmente v-lo sentado em uma das mesas ou 
perambulando pelo salo. 

Abriu caminho para o banco vazio que se encontrava posicionado entre um homem com 
uma camiseta azul e uma mulher com cabelo superproduzido. Atrs da caixa registradora e 
das garrafas de lcool, um espelho acompanhava todo o comprimento do balco, onde dois 
barmen serviam cervejas e drinques. Nenhum dos dois era o proprietrio do seleto 
estabelecimento. 

Um dos barmen ps um guardanapo na frente de Maddie e perguntou o que queria beber. 
Ele parecia ter uns dezenove anos, mas ela sups que deveria ter no mnimo vinte e um, 
idade suficiente para servir bebida alcolica no meio de toda aquela fumaa de cigarro. 

- Um martni safira. Extra seco, trs azeitonas - disse, imaginando quantos carboidratos 
teriam as azeitonas. Puxou a bolsa para o colo e observou o barman se virar e pegar gim e 
vermute de boa qualidade. 

Utilizando o espelho, examinou atentamente o bar procurando pelo proprietrio, ainda que 
no imaginasse v-lo sentado num dos bancos, muito menos aboletado em uma mesa. 
Quando procurara por ele  tarde, ligando para o outro bar que ele tinha na cidade, disseram 
que ele estaria no Mort's  noite, e Maddie imaginou que era provvel que ele estivesse no 
escritrio examinando seus livros ou, se fosse como o pai, a parte de dentro da coxa de uma 
das garonetes. 

- Eu pago tudo! 

A mulher que estava do outro lado de Maddie lastimava-se para sua amiga. 

- At comprei meu prprio carto de aniversrio e pedi para J.W assin-lo, imaginando que 
ele iria se sentir mal e entender o recado. 

Maddie sentiu uma curiosidade incontrolvel de olhar para a mulher pelo espelho. Em meio 
s garrafas de vodca, visualizou os longos cabelos louros caindo sobre um par de ombros 
rechonchudos e peitos que se revelavam inconvenientemente 

de dentro de uma camiseta regata vermelha com pedras brilhantes incrustadas. 

- Ele nem se sentiu mal! S reclamou que no gostava de cartes piegas como o que eu 
havia comprado. - A moa do carto de aniversrio estava tomando um drinque que vinha 
com um guarda-chuva espetado. - E agora ele quer que eu v  casa dele quando a me for 
viajar, no prximo final de semana, para fazer - lhe o jantar. Depois de dizer isso enxugou 
as lgrimas e fungou: - Estou pensando em dizer a ele que no vou. 

- Voc est brincando! - As palavras escaparam de sua boca antes que ela pudesse pensar. 

- Desculpe-me, no entendi - o barman falou enquanto colocava o drinque na frente dela. 


Maddie chacoalhou a cabea negativamente, enfiou a mo na bolsa e pagou o drinque. O 
som de uma msica barulhenta, que falava das curvas traseiras de uma danarina de cabar, 
saa da jukebox de non incandescente e se juntava ao persistente zunido de conversa. 

Maddie puxou a manga do suter e pegou seu martni. Enquanto levava o copo  boca 
olhou para o relgio: nove horas. O proprietrio seria obrigado a mostrar a cara mais cedo 
ou mais tarde. Se no hoje, sempre haveria o amanh. Tomou um gole e sentiu a bebida 
aquecer seu corpo. 

Maddie na realidade, esperava que o proprietrio aparecesse logo. Antes que ela tomasse 
tantos martnis que a fizessem esquecer porqu estava sentada num banco de bar 
bisbilhotando a vida de mulheres carentes com comportamento passivo-agressivo e de 
homens equivocados. 

Ela recolocou o copo sobre o balco. Bisbilhotar no era sua atividade preferida. Preferia 
uma aproximao mais honesta, desencavar as vidas das pessoas e sondar seus segredinhos 
mais sujos sem perturbao. Algumas pessoas entregavam seus segredos sem reclamar, 
ansiosos para contar tudo. Outros a foravam a ir mais fundo, estimul-los por muito tempo 
ou extrair de forma um pouco mais hostil e arrancando-lhes at as razes. s vezes seu 
trabalho era sujo, sempre exigia coragem, e ela adorava escrever sobre assassinos em srie 
e psicopatas comuns de todo dia. 

De fato, uma garota como ela tinha que se destacar em alguma coisa. E Maddie, que 
publicava com o nome de Madeline Dupree, era uma das melhores escritoras no gnero dos 
crimes que realmente aconteceram. Ela escrevia sobre a ndole e o derramamento de 
sangue. Sobre o doente e o perturbado, e havia quem pensasse, inclusive suas amigas, que o 
que escrevia deformava sua personalidade. Ela acabou gostando de pensar que isso se 
somava ao seu charme. 

A verdade estava escondida em algum lugar, no cerne. De fato, as coisas que viu e sobre as 
quais escreveu a afetaram. Apesar da barreira que estabelecia entre sua prpria sanidade e a 
das pessoas que investigava e entrevistava, a doena deles s vezes exsudava e se 
espalhava, deixando atrs de si certa pelcula de impureza muito difcil limpar 
completamente. 

O trabalho a fez ver o mundo de forma um pouco diferente das pessoas que nunca se 
sentaram de frente para um assassino em srie, e no o viram tentando se esquivar de 
recontar as coisas sobre sua - atividade. Mas essas mesmas coisas tambm a tornaram uma 
mulher forte e que no prejudicava ningum. Pouqussimas coisas a intimidavam. Maddie 
no tinha qualquer iluso sobre a humanidade. No fundo, sabia que a maior parte das 
pessoas  decente. E que em funo disso, essas pessoas faziam o que  certo. Mas sabia 
tambm sobre os outros. Os quinze por cento que estavam interessados apenas no prprio 
egosmo e na satisfao do prprio prazer deformado. Desses quinze por cento, apenas 
cerca de dois por cento eram, de fato, assassinos em srie. Os outros desvios sociais eram 
apenas os costumeiros estupradores, assassinos, malfeitores e executivos corporativos que 
saqueiam secretamente o seguro social de seus empregados. 

E se havia uma coisa que podia dizer que sabia com certeza que sabia era que todo mundo 
tinha segredos. Ela mesma possua os dela. S que os guardava mais escondidos que a 
maioria das pessoas. 

Levantou novamente o copo em direo aos lbios e seu olhar foi atrado para a o fundo do 
bar. Uma porta se abriu e um homem entrou para o salo escuro. 

Maddie o reconheceu. O reconheceu antes mesmo que a escurido lhe deslizasse por cima 
do peito largo e dos ombros, por sobre a camiseta preta. O reconheceu antes que a luz 


revelasse seu queixo e seu nariz, e fizesse brilhar os cabelos negros. Negros como a noite 
da qual ele viera. 

Ele logo foi para trs do balco e enrolou um velho avental em torno dos quadris, 
amarrando as tiras logo acima do zper da cala. Ela nunca o encontrara. Mas sabia que ele 
tinha trinta e cinco anos, era um ano mais velho que ela. Sabia que ele media um metro e 
noventa, e pesava oitenta e seis quilos e duzentos gramas. Serviu o exrcito por doze anos, 
onde pilotou helicpteros e descarregou msseis. Herdou o nome do pai, Lochlyn Michael 
Hennessy, mas era chamado de Mick. Como o pai, era um homem despudoradamente 
bonito. O tipo de beleza que virava a cabea, parava coraes e levava as mulheres a nutrir 
maus pensamentos. 

Pensamentos que envolviam bocas, mos quentes e roupas emaranhadas, a respirao 
quente junto ao pescoo de uma mulher e amassos no banco de trs de um carro. 

No que Maddie fosse suscetvel a tais pensamentos. 

Mick tinha uma irm mais velha, Meg, e dois bares na cidade, o Mort's e o Hennessy's. O 
ltimo havia estado na famlia por tempo maior do que ele tinha de vida. Hennessy's, bar 
onde a me de Maddie trabalhou. Onde encontrou Loch Hennessy. Onde morreu. 

Como se tivesse sentido o olhar dela, ele deu uma olha dela por cima das tiras do avental. 
Parou a poucos passos de Maddie e os olhos de ambos se encontraram. Ela engasgou com o 
gim. De acordo com a carteira de motorista dele, seus olhos eram azuis, mas assim, 
pessoalmente, mais pareciam de um turquesa profundo. Da cor do mar do Caribe, os olhos 
dele a encararam de volta, o que foi um choque, que a fez baixar o copo e levar uma das 
mos  boca. 

Os ltimos acordes da msica de cabar morriam, enquanto ele terminava de amarrar as 
tiras do avental, e vinha mais para perto at ficar a poucos centmetros do mogno entre eles. 

- Voc vai sobreviver? - A voz profunda atravessou o barulho entre eles. 

Maddie engoliu e tossiu uma ltima vez. 

- Acho que sim. 

- Ol, Mick - a loira do banco ao lado chamou. 

- Ol, Darla. Como vo as coisas? 

- Poderiam estar melhores. 

-  sempre assim, no ? - disse enquanto olhava para a moa. - E ento, vai se comportar 
hoje? 

Darla riu e respondeu: 

- Voc me conhece. Sempre quero me comportar. Mas claro que sempre posso ser 
convencida a fazer alguma besteira. 

- Ento hoje voc vai continuar com as roupas de baixo. Certo? Mick perguntou encarando-
a e levantando uma das sobrancelhas escuras. 

- Quando se trata de mim, nunca se pode dizer o que vai acontecer. - Ela se inclinou para 
frente. - Nunca se sabe o que eu posso fazer. s vezes sou louca. 

S s vezes? Comprar para si mesma um carto de aniversrio para seu namorado assinar 
sugere desordem passivo-agressiva que beira a loucura absoluta. 

- Apenas fique de calcinha para que eu no tenha que te jogar de novo para fora com o 
traseiro desprotegido. 

De novo? Quer dizer que isso j aconteceu? Maddie tomou um gole e deslizou seu olhar 
sobre o traseiro considervel de Darla apertado na cala jeans. 

- Eu aposto que todos adorariam ver isso! - disse Daria com uma mexida nos cabelos. 


Pela segunda vez naquela noite, Maddie engasgou com a bebida. Uma profunda gargalhada 
de Mick chamou a ateno de Maddie para o brilho divertido nos surpreendentes olhos 
azuis. 

- Hei, docinho, est precisando de gua? - ele perguntou. 

Maddie balanou a cabea e limpou a garganta. 

- Esse drinque est muito forte para voc? 

- No, tudo bem. - Ela tossiu uma ltima vez e recolocou o copo no balco. - S acabei de 
ter uma viso do inferno. 

Os cantos da boca de Mick viraram para cima e se transformaram num sorriso de 
cumplicidade, confirmando que ele havia compreendido o significado de - viso do inferno, 
e formando duas covinhas nas bochechas bronzeadas. 

- Eu nunca a vi por aqui antes. Est de passagem? 

Maddie esforou-se para tirar a imagem do grande traseiro nu de Daria da cabea e trazer 
novamente a mente para a razo, pois estava no Mort's. Achava que iria antipatizar com 
Mick Hennessy assim que o visse. Mas no foi o que aconteceu. 

- No. Comprei uma casa na estrada Red Squirrel. 

- A rea  boa! No lago? 

- Isso mesmo. - Ela pensou que, alm da fisionomia, Mick havia herdado tambm o charme 
do pai. At onde Maddie sabia, Lock Hennessy havia seduzido mulheres s de olhar na 
direo delas. Ele certamente seduzira sua me. 

- Ento voc vai passar o vero? 

- Pretendo. 

Ele inclinou a cabea para um lado e estudou o rosto delicado. Olhou fixamente para os 
olhos, a boca e se demorou pelo tempo de vrias batidas cardacas antes de olhar 
novamente para os olhos. 

- Qual  o seu nome, olhos castanhos? 

- Maddie - respondeu, segurando em seguida a respirao como se esperasse que ele a 
conectasse com o passado. O passado dele. 

- S Maddie? 

- Dupree - respondeu, usando o pseudnimo. 

Algum no fundo do bar chamou-o e ele olhou por um instante antes de voltar novamente 
sua ateno para Maddie. Sorriu docemente. Um sorriso que fez surgir novamente as 
covinhas que amenizavam a face to mscula. Ele no a reconheceu. 

- Eu sou Mick Hennessy. - A msica comeou novamente e ele disse: 

- Bem-vinda a Truly. Quem sabe a gente se v por a! 

Ela observou-o se afastar sem lhe contar a razo pela qual estava na cidade, e porque ela 
estava sentada no Mort's. No era o melhor momento nem o melhor lugar. Mas no havia - 
talvez, era certo que se veriam novamente. Ele ainda no sabia, mas a veria ainda muitas 
vezes. E da prxima vez certamente no seria to gentil com ela. 

Os sons e cheiros do bar ficaram opressivos. Maddie pendurou a bolsa no ombro e em 
seguida deslizou do banco e abriu caminho em meio  multido na penumbra. Na porta, 
olhou para trs na direo do balco e de Mick. Ele inclinava a cabea um pouco para trs e 
sorria, iluminado pelas luzes do teto. Ela parou e apertou a maaneta quando ele se virou de 
costas para pegar uma cerveja. 

Durante o tempo em que ficou parada ali, a juke tocava uma msica que falava em usque 
para homens e cerveja para cavalos, e seu olhar convergiu para os cabelos negros, a nuca e 
os ombros largos sob a camiseta preta. Mick se virou e colocou um copo sobre o balco. 


Enquanto o observava, ele ria de alguma coisa, e at aquele momento Maddie no sabia o 
que esperava de Mick Hennessy antes de encontr-lo, mas independentemente do que fosse, 
certamente no esperava esse homem vivaz, espontneo, cheio de sorrisos. De repente o 
olhar fixo dele atravessou o bar, escuro e infestado de fumaa, e pousou nela. Maddie quase 
pde sentir aquele olhar estender-se pelo salo e a tocar, apesar de saber que era pura 
iluso. Estava na entrada escura e imaginara que fosse quase impossvel para ele distingui-
la na multido. Abriu a porta e saiu para o ar fresco da noite. Enquanto estivera no Mort's, a 
noite havia baixado em Truly como uma cortina negra e pesada, e o nico contraste eram 
umas poucas placas luminosas acesas e as luzes ocasionais da rua. Seu carro, preto, estava 
estacionado do outro lado da rua, em frente a uma loja de roupa ntima masculina e uma 
galeria de arte. Esperou que um carro amarelo passasse antes de deixar o meio-fio sob a 
incandescente placa de non do Mort's. 

Um transmissor em sua bolsa destravou a porta do carro do lado do motorista quando ela se 
aproximou. Ela abriu a porta e escorregou para dentro do interior fresco de couro. Em geral 
no era materialista. No se importava com roupas ou sapatos. Tambm no se importava 
se o suti combinava com a calcinha desde que ningum a visse de lingerie em dias 
normais, e no tinha jias caras. H dois meses havia comprado o novo carro com 
acessrios mais sofisticados. Mas antes disso Maddie andara num carro velho que rodou 
mais de trezentos e vinte mil quilmetros, at que chegou a um ponto em que precisou 
abandon-lo e procurar um novo. Tarefa inslita. Tentou vrias opes, fez muitos test 
drives, e esteve a ponto de desistir. Um dia se virou e bateu os olhos no sedan preto. As 
luzes do showroom brilhavam sobre o carro como um sinal de Deus, e ela podia jurar que 
ouvia anjos cantando aleluias como o Coro do Tabernculo Mrmon. Quem era ela para 
ignorar uma mensagem do Senhor? Poucas horas depois de entrar na concessionria, levava 
o carro do showroom para a garagem da sua casa em Boise. 

Maddie apertou o boto de partida e acendeu as luzes. O CD preencheu o carro com 
Excitable Boy, do Warren Zevon. Afastou o -carro do meio-fio e fez um movimento em - U 
no meio da rua Main. Havia algo de brilhante e perturbador nas letras de Warren Zevon. 
Era um pouco como olhar dentro da mente de algum que estava no limite entre a loucura e 
a sanidade, e que de vez em quando se punha  prova. Brincando com o limite, testando-o, 
e depois recuando, logo antes de ser sugado para dentro da terra dos malucos. Na linha de 
trabalho de Maddie, no havia muitos que conseguiam recuar em tempo. 

Os faris dianteiros do carro atravessaram a noite negra. Ela virou  esquerda no nico farol 
de trfego da cidade. O primeiro carro que teve foi de segunda-mo, to danificado que os 
bancos s ficavam inteiros graas a uma fita adesiva especial. Ela percorreu um longo 
caminho desde aquela poca. Um longo caminho desde o Parque Roundup, nome do 
estacionamento do trailer onde havia vivido com sua me, at a casinha apertada em Boise, 
onde foi criada pela tia-av Martha. 

At o dia da aposentadoria, Martha trabalhou como principal contadora em uma drogaria, e 
elas viviam do pequeno salrio e dos cheques do seguro social de Maddie. O dinheiro 
sempre foi apertado, mas Martha sempre mantinha meia dzia de gatos. A casa cheirava o 
tempo todo a comida de gato e a caixas de fezes. Motivo da averso de Maddie por gatos. 
Bem, talvez no o gato da amiga Lucy, o sr. Snookums. O Snookie era legal. Para um gato. 
Dirigiu cerca de um quilmetro e meio pelo lado leste do lago antes de virar na estrada 
ladeada por pinheiros robustos e altos, e parar em frente  casa que ela havia comprado 
poucos meses atrs. No sabia quanto tempo ficaria com a casa. Um ano. Trs. Cinco. 


Havia comprado em vez de alugar pelo investimento. As propriedades em torno de Truly 
eram bem valorizadas, e quando, ou se, ela vendesse o lugar, esperava ter um bom lucro. 

Maddie apagou as luzes do carro e a escurido a afligiu. Ignorou a apreenso que sentia no 
peito quando saiu do carro, subiu os degraus e pisou na varanda cercada e iluminada com 
vrias lmpadas de sessenta watts. No tinha medo de nada. Certamente tambm no teria 
medo do escuro, mas sabia que coisas ruins haviam acontecido a mulheres no to atentas e 
cuidadosas quanto Maddie. Mulheres que no tinham um pequeno arsenal de equipamentos 
de segurana em suas mochilas. Coisas como arma de eletrochoque, gs lacrimogneo, 
alarme pessoal e soco ingls, s para citar alguns itens. Qualquer mulher  suficientemente 
cuidadosa, especialmente numa cidade onde  noite  difcil ver um palmo adiante do nariz. 
Em uma cidade situada exatamente no meio de uma densa floresta, onde a vida selvagem 
era preservada, rvores farfalhavam e a vegetao rasteira escondia vrias espcies de 
animais venenosos. Onde roedores com olhinhos brilhantes esperavam que essa mulher 
fosse para a cama para saquear a despensa. Maddie nunca teve que usar nenhum de seus 
equipamentos de defesa pessoal, mas ultimamente vinha se perguntando se tinha uma mira 
boa o suficiente para derrubar um camundongo saqueador com a arma de eletrochoque. 

Luzes ardiam dentro da casa quando Maddie destrancou a porta verde, entrou e a trancou. 
Ningum saiu correndo dos cantos quando ela jogou a bolsa sobre a cadeira de veludo 
vermelho que estava prxima  porta. Uma ampla lareira dominava o meio da grande sala 
de estar e a dividia no que deveria ser a sala de jantar, mas que Maddie usava como 
escritrio. 

Sobre uma mesa de centro em frente ao sof de veludo estavam os arquivos da pesquisa de 
Maddie e uma velha fotografia cinco por sete numa moldura de prata. Esforou-se para 
alcanar a foto e olhou para o rosto de me, que tinha cabelos louros, olhos azuis e um 
grande sorriso. Havia sido tirada poucos meses antes de Alice Jones morrer. Na foto via-se 
uma mulher de vinte e quatro anos feliz, extremamente vibrante e linda. Como na foto 
amarelada encaixada na valiosa moldura de prata, muitas das memrias de Maddie tambm 
haviam desbotado. Recordava-se de bocados de algumas coisas e fragmentos de outras. 

Tinha uma memria tnue de contemplar a me enquanto se maquiava e escovava os 
cabelos antes de ir para o trabalho. Lembrava-se da velha mala azul e de se mudar de um 
lugar para outro. A partir do plido prisma desses vinte e nove anos, tinha uma memria 
muito tnue da ltima vez que sua me havia carregado o velho Maverick e da viagem de 
duas horas para o norte at Truly. Instalaram-se no trailer onde havia um desgrenhado 
tapete alaranjado. 

A memria mais ntida que Maddie tinha da me era o perfume de sua pele. Ela cheirava a 
loo de amndoa. Mas se lembrava principalmente da manh em que sua tia-av chegou 
no Parque Roundup para lhe contar que sua me havia morrido. 

Maddie colocou a foto de volta sobre a mesa e caminhou sobre o cho de madeira na 
direo da cozinha. Tirou um refrigerante diet do refrigerador e o abriu. Martha sempre 
disse que Alice era distrada. Voando como uma borboleta de um lugar a outro, de um 
homem para outro, procurando algum lugar onde se instalar, e procurando amor. Achando 
um e outro por algum tempo, antes de se mudar para um outro lugar ou para um novo 
homem. 

Maddie bebeu da garrafa, depois recolocou a tampa. No era nem um pouco parecida com a 
me. Sabia qual era seu lugar no mundo. Sentia-se confortvel com a pessoa em que se 
tornara, e certamente no precisava de um homem que a amasse. De fato, nunca estivera 
apaixonada. No daquele jeito romntico sobre o qual a boa amiga Clare escrevia para 


ganhar a vida. E no do jeito absurdo, do tipo - louca por homem, jeito este que havia 
governado sua me e, finalmente, tirado sua vida. 

No, Maddie no tinha interesse no amor de um homem. O corpo era outra coisa, e ela 
queria um namorado ocasional. Um homem para vir vrias vezes por semana para fazer 
sexo. Ele no precisava ter um papo brilhante. Na verdade, ele nem precisava lev-la para 
jantar. Para ela, o homem ideal s precisava lev-la para a cama, depois ir embora. Mas 
havia dois problemas em encontrar o homem ideal. Em primeiro lugar, qualquer homem 
que quisesse apenas sexo de uma mulher era muito provavelmente um babaca. Em segundo 
lugar, era difcil encontrar um homem disponvel que fosse bom na cama em vez daquele 
tipo que apenas pensava ser bom. A tarefa de escolher entre os homens e encontrar o que 
ela queria se tornara uma tarefa rdua da qual ela desistira quatro anos atrs. 

Enganchou a ponta da garrafa de refrigerante entre dois dedos e saiu da cozinha. Seus 
chinelos de borracha batiam na sola dos ps enquanto atravessava a sala de estar e passava 
pela lareira na direo do escritrio. O laptop estava sobre a escrivaninha em - L que por 
sua vez estava encostada na parede. Acendeu a luminria presa  escrivaninha. Duas 
lmpadas de sessenta watts iluminaram uma pilha de dirios, o laptop e as anotaes 
intrincadas chamadas - Nomes descobertos e atitudes necessrias. Ao todo havia dez dirios 
de vrias formas e cores. Vermelho. Azul. Cor-de-rosa. Dois dos dirios tinham fechadura, 
enquanto um dos outros no era nada alm de um caderno de notas espiral amarelo com a 
palavra - Dirio escrita com marcador preto. Todos eles pertenceram a sua me. 

Maddie batia levemente a garrafa de refrigerante diet contra a coxa enquanto olhava 
fixamente para o livro branco no topo da pilha. Ela no sabia da existncia deles at a morte 
da tia -av Martha, alguns meses atrs. No acreditava que Martha havia mantido os dirios 
escondidos propositadamente. O mais provvel era que quisesse entreg-los a Maddie 
algum dia, mas se esquecera completamente. Alice no foi a nica mulher distrada na 
rvore genealgica da famlia Jones. 

Como nica parenta viva de Martha, foi encargo de Maddie encomendar o funeral, arrumar 
as coisas e esvaziar a casa onde a tia-av morara. Ela foi atrs de lares para os gatos da tia e 
planejou doar a maior parte das coisas para a caridade. Em uma das ltimas caixas que 
separou, deparou-se com sapatos velhos, bolsas antigas e uma velha caixa de sapatos. Ela 
quase jogou fora a velha caixa sem sequer abrir. E na verdade uma parte sua quase desejava 
no t-la aberto. Desejava poupar a si mesma da dor de olhar dentro daquela caixa e sentir o 
corao lhe subir pela garganta. Como uma criana, ansiara por uma conexo com a me. 
Alguma coisinha que pudesse ter e manter. Sonhara ter alguma coisa que a ligasse  mulher 
que havia lhe dado a vida, e que pudesse revisitar de tempos em tempos. Perdera sua 
infncia ansiando por alguma coisa... Alguma coisa que estivera o tempo todo um pouco 
escondida no fundo de um armrio. Esperando por ela em uma caixa de sapatos. 

A caixa continha os dirios, o obiturio da me e artigos de jornal sobre sua morte. 
Tambm tinha um saco de cetim com jias. Em sua maioria coisas sem valor. Um colar 
foxy lady, vrios anis de turquesa, um par de brincos de argola de prata e uma pequenina 
faixa cor-de-rosa do Hospital de St. Luke, onde estavam inscritas as palavras - Beb Jones. 

Naquele dia, em p no seu antigo quarto, quase sem flego, pois seu peito arfava, sentiu-se 
de novo como uma criana. Amedrontada e solitria. Com medo de alcanar o que queria e 
fazer a conexo, mas ao mesmo tempo estimulada por finalmente ter algo de tangvel que 
pertencera a sua me, de quem se lembrava com dificuldade. 

Maddie colocou o refrigerante sobre a escrivaninha e puxou a cadeira de trabalho. Naquele 
dia, ela levou a caixa de sapatos para casa e colocou o saco de cetim dentro de sua caixa de 


jias. Os dirios haviam se iniciado no aniversrio de doze anos da me. Alguns deles eram 
maiores e tomaram mais tempo da me para serem preenchidos. Foi por intermdio deles 
que conseguiu conhecer Alice Jones. 

Conseguiu conhec-la como uma criana de doze anos que desejava crescer e ser uma atriz 
como Anne Francis. Uma adolescente que ansiava encontrar um amor verdadeiro num 
daqueles programas de televiso que prometiam aos participantes encontrar o par perfeito, e 
uma mulher que procurava amor sempre, em todos os lugares errados. 

Maddie havia encontrado alguma coisa para se conectar  me, mas quanto mais lia, mais 
sentia que faltavam detalhes. Realizara seu desejo de infncia e, no entanto, nunca se 
sentira to s. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 2 

 

Mick Hennessy passou um elstico em torno de uma pilha de dinheiro e a colocou ao lado 
dos recibos de cartes de crdito e dbito. O som do separador de moedas sobre a mesa 
enchia o pequeno escritrio nos fundos do Mort's. Todos haviam ido para casa para dormir, 
e ele estava acabando de fazer o balano das gavetas das registradoras antes de ir descansar 
como os outros. Estava no sangue de Mick ser proprietrio de bares e administr-los. 
Durante a Lei Seca, seu bisav fazia e vendia lcool de cereais a preo baixo, e abriu o 
Hennessy's dois meses depois que a Dcima Oitava Emenda foi revogada e as torneiras dos 
Estados Unidos tornaram a jorrar novamente. O bar estava na famlia desde aquela poca. 

Mick no gostava particularmente dos bbados briguentos, mas gostava da flexibilidade das 
horas do seu dia, por ser seu prprio patro. No precisava obedecer a ordens ou responder 
a ningum, e quando estava em um de seus bares tinha uma sensao de posse que nunca 
sentira com qualquer outra coisa na vida. Seus bares eram barulhentos, perturbavam a paz 
pblica, e eram caticos, mas tratava-se de um caos que ele controlava. 

O separador de moedas parou e Mick arrastou os montes de moedas para dentro de 
envelopes de papel. Veio a sua cabea a imagem de uma mulher de cabelos escuros e de 
lbios vermelhos. No estava surpreso por ter notado Maddie Dupree poucos segundos 
depois de pisar no bar. Ficaria surpreso se no a tivesse notado. Com a pele macia e os 
sedutores olhos castanhos, ela era exatamente o tipo de mulher que chamava sua ateno. 
Aquele pequeno sinal no canto dos lbios abundantes o lembrara de que h muito tempo ele 
no beijava uma boca como aquela. 

Desde que voltara a Truly, dois anos atrs, sua vida sexual havia perdido em qualidade. 
Truly era uma cidade pequena, na qual as pessoas iam  igreja aos domingos e se casavam 
cedo. A regra era que permanecessem casadas, mas se isso no acontecia, procuravam o 
mais rpido possvel casar novamente. Mick nunca se meteu com mulheres casadas ou que 
quisessem casamento. E nunca pensou duas vezes sobre esse assunto. 

No que no existissem muitas mulheres solteiras em Truly. Por ter dois bares na cidade, 
ele tinha contato com muitas mulheres disponveis. Uma boa parte delas deixou claro que 
no estava interessada apenas em fazer parte do seu grupo de amigas. Ele conhecia a vida 
inteira de algumas delas. E elas sabiam das histrias e fofocas, e por isso acreditavam que 
tambm o conheciam. Mas no, ou saberiam que ele preferia passar seu tempo com 
mulheres que no o conheciam nem ao seu passado. E que no conheciam os detalhes 
srdidos da vida de seus pais. 

Mick empurrou o dinheiro e os recibos para dentro das bolsas de depsito e as fechou. 
Sobre uma lustrosa escrivaninha de carvalho estava a ltima fotografia de escola do Travis; 
algumas poucas sardas marrons espalhavam -se pelas bochechas e pelo nariz do menino. O 
sobrinho de Mick tinha sete anos, e por sorte tinha muitas caractersticas dos Hennessy 
dentro de si. O sorriso inocente no enganava Mick nem um pouco. Travis tinha os cabelos 
escuros e os olhos azuis de seus antepassados, alm de costumes um tanto selvagens. Se 
deixado sem controle, herdaria a inclinao destes para brigas, bebedeiras e mulheres. 
Qualquer dessas caractersticas no era necessariamente ruim, desde que com moderao, 
mas as geraes de Hennessy nunca se importaram minimamente com moderao, e 
algumas vezes essa combinao mostrara-se fatal. 

Atravessou o escritrio e colocou o dinheiro na prateleira mais alta do cofre, prximo  
folha impressa com as transaes daquela noite. Fechou a pesada porta, empurrou para 


baixo a maaneta de ao, e girou o dispositivo de combinao. O clique da fechadura 
encheu o silncio do pequeno escritrio nos fundos do Mort's. 

Travis vinha fazendo com que Meg passasse maus pedaos, isso  verdade, e a irm de 
Mick pouco entendia os meninos. Ela simplesmente no conseguia entender porque os 
meninos jogavam pedras, faziam armas com tudo o que encontravam pela frente, e 
socavam uns aos outros sem razo aparente. Ficava a cargo de Mick a orientao de Travis 
e ajudar Meg a cri-lo. Proporcionar ao garoto algum com quem conversar e ensin-lo 
como ser um bom homem. No que Mick fosse um especialista nisso, mas tinha 
conhecimento intuitivo e alguma experincia nas coisas que tornam um homem idiota. 

Ele agarrou um molho de chaves que estava sobre a escrivaninha e saiu do escritrio. As 
solas de suas botas faziam barulho a cada passo sobre o cho de madeira, que soava 
exageradamente alto no bar vazio. 

Quando criana, no havia ningum por perto para conversar ou ensin-lo como ser um 
homem. Ele foi criado pela av e pela irm, e teve que aprender por si prprio. Em geral 
aprendeu da maneira mais difcil, e no queria a mesma coisa para Travis. 

Mick tocou nos interruptores apagando a luz e se dirigiu para a porta dos fundos. O ar 
fresco da madrugada roou sua face e seu pescoo enquanto ele colocava a chave na 
fechadura e trancava a porta. Logo que terminou o ensino secundrio, foi para a capital do 
Estado, Boise. Mas depois de trs anos sem propsito ou atitude, alistou-se no exrcito. 
Naquela poca, ver o mundo de dentro de um tanque de guerra soara como um plano 
realmente engenhoso. 

Uma caminhonete vermelha estava estacionada em frente a loja de aluguel de carros, Mick 
a abriu e entrou rapidamente. Certamente havia visto o mundo todo. s vezes mais do que 
gostava de lembrar, mas no de dentro de um tanque. Em vez disso o vira a milhares de 
metros de altura da cabine de helicpteros Apache. Ele transportava tropas para o governo 
dos EUA antes de se exonerar e retomar para Truly. O exrcito lhe deu mais que uma 
carreira impressionante e uma chance de viver uma boa vida. Ensinou como ser um homem 
de uma maneira diferente, que sua vida numa casa s de mulheres no lhe havia ensinado. 
Quando agentar e quando parar. Quando lutar e quando ir embora. O que era importante e 
o que era perda de tempo. 

Mick deu partida na caminhonete e esperou um momento para que o veculo esquentasse. 
Por ter os dois bares, achava muito bom ter aprendido a lidar com bbados briguentos e 
com todo tipo de pessoas insensatas sem que fosse necessrio usar a fora e quebrar 
cabeas. De outra maneira, ele teria conseguido fazer pouca coisa. Entraria em uma briga 
aps a outra, e andaria por a com hematomas nos olhos e lbios inchados. Tempos atrs ele 
no sabia lidar com os insensatos do mundo. Tempos atrs ele foi forado a viver com o 
escndalo que seus pais haviam criado. Teve que viver com cochichos quando entrava em 
algum lugar, olhares maliciosos na igreja ou no mercado, gozaes das outras crianas na 
escola ou, pior, festas de aniversrio para as quais ele e Meg no eram convidados. Tempos 
atrs, teve que lidar com todo esse desrespeito usando a fora. E Meg se escondia 
intimidada. 

Mick acendeu os faris e engatou a r. As lanternas traseiras iluminavam a rua quando ele 
olhou para trs para manobrar o carro e tir-lo da vaga. Em uma cidade maior, as vidas 
indecentes de Loch e Rose Hennessy teriam sido esquecidas em poucas semanas. Teriam 
sido notcia de primeira pgina por um ou dois dias, e depois teriam sido eclipsadas por 
algum acontecimento mais chocante. Alguma coisa mais importante sobre o que falar 
durante o caf da manh. Mas numa cidade do tamanho de Truly, onde o escndalo mais 


picante geralmente envolvia atos abominveis tais como o roubo de uma bicicleta ou as 
caadas fora de temporada de Sid Grimes, a sordidez de Loch e Rose Hennessy manteve-se 
como boato da cidade por vrios anos. Especular e repetir cada detalhe trgico da histria 
tornou-se o passatempo favorito dos moradores do lugar. Essa situao foi corrigida muitos 
anos mais tarde com sua participao em paradas comemorativas, concursos de escultura de 
sorvete, e pela conquista de fundos para as vrias causas municipais. Mas diferente de 
decorar palcos e instituir programas de combate s drogas depois das aulas, uma coisa que 
todos pareciam esquecer, ou com a qual talvez ningum se preocupasse, era que dentro dos 
destroos criados por Rose e Loch, havia duas crianas inocentes que tentavam viver na 
cidade. 

Acelerou forte, a caminhonete saiu da rua e entrou em outra rua pouco iluminada. Muitas 
de suas memrias de infncia estavam velhas, desbotadas e, ainda bem, esquecidas. Outras 
eram to cristalinas que ele podia se lembrar de cada detalhe. Como a noite em que ele e 
Meg foram acordados pelo xerife do condado, que lhes pediu para pegar umas poucas 
coisas, e os levou para a casa de sua av Loraine. Ele se lembrou de ter se sentado no banco 
de trs carro de polcia com sua camiseta, suas roupas de baixo, seu par de tnis, segurando 
seu caminho de bombeiro, enquanto Meg, sentada ao seu lado, chorava como se seu 
mundo houvesse acabado. E havia. Ele se lembrava dos gritos agudos e das vozes nervosas 
no rdio da polcia, e se lembrava de algo sobre algum cuidando de uma outra garotinha. 

Deixando as poucas luzes da cidade para trs, Mick dirigiu no breu por um quilmetro e 
meio antes de entrar na rua de terra em que morava. Passou pela casa onde ele e Meg 
haviam sido criados antes da morte de seus pais. Sua av Loraine Hennessy foi afetuosa e 
amorosa do jeito dela. Assegurou que ele e Meg tivessem botas e luvas de inverno, e que 
vivessem sempre com conforto e bem alimentados. Mas negligenciou completamente 
aquilo de que eles mais precisavam. Uma vida normal, a mais normal que fosse possvel. 

Ela se recusou a vender a velha casa da fazenda nos arredores da cidade onde ele e Meg 
haviam vivido com os pais. Por anos a casa ficou abandonada, transformando-se em um 
paraso de camundongos, e em uma lembrana constante da famlia que havia vivido l em 
tempos passados. Ningum entrava na cidade sem not-la, sem notar as ervas daninhas 
demasiado grandes, a tinta branca descascando e o varal que havia cedido. 

E todo ano, de segunda a sexta-feira, durante nove meses, Mick e Meg eram obrigados a 
passar por ela no caminho para a escola. Enquanto as outras crianas no nibus 
conversavam sobre o ltimo episdio do seriado de tev mais comentado do momento ou 
examinavam o que havia em suas lancheiras, ele e Meg viravam a cabea e olhavam para o 
outro lado. Seus estmagos ficavam pesados e eles prendiam a respirao, rezando a Deus 
para que ningum notasse sua antiga casa. Deus nem sempre atendeu, e s vezes o nibus 
enchia-se dos boatos mais recentes que algumas crianas haviam ouvido por alto sobre os 
pais de Mick. 

A viagem de nibus para a escola era um inferno dirio. Uma rotina de tortura at que 
numa noite fria de outubro em 1986, a casa da fazenda imergiu numa enorme bola de fogo 
e queimou completamente. Houve uma grande investigao que determinou que o incndio 
havia sido premeditado. Quase todo mundo na cidade foi interrogado, mas o responsvel 
por encharcar o local com querosene nunca foi preso. Todos na cidade pensavam conhecer 
quem havia feito aquilo, mas ningum tinha certeza. 

Depois da morte de Loraine trs anos atrs, Mick vendeu a propriedade para os Allegrezza, 
e na mesma poca pensou em vender tambm o bar da famlia, mas ao fim decidiu se 
mudar novamente e tocar o lugar. Meg precisava dele. Travis precisava dele, e para sua 


surpresa, quando voltou para Truly, ningum mais falava sobre o escndalo. Cochichos no 
o perseguiam mais ou, se perseguiam, ele j no ouvia. 

Reduziu a velocidade da caminhonete e entrou na longa estrada que levava ao monte na 
base da montanha Shaw. Ele comprou o sobrado logo que se mudou de volta para Truly. 
Tinha uma vista excelente da cidade e das montanhas irregulares que circundavam o lago. 
Estacionou na garagem, prximo  lancha de vinte e um ps que usava para esquiar, e 
entrou em casa pela lavanderia. A luz do escritrio estava acesa, ele a apagou quando 
passou. Atravessou a sala de estar escura e subiu as escadas de dois em dois degraus. 

Na verdade, na maior parte do tempo Mick no pensava no passado, que havia sido o foco 
em sua infncia. Truly j no falava mais nisso, o que ironicamente no significava mais 
nada, porque ele simplesmente no dava a mnima ao que as pessoas diziam e pensavam 
atualmente sobre ele. Entrou em seu quarto no final do corredor, deslocando-se graas  luz 
da lua que penetrava atravs das ripas das venezianas de madeira. Suaves faixas de luz e 
sombras incidiam sobre a face e peito de Mick enquanto ele vasculhava o bolso traseiro. 
Jogou a carteira sobre a cmoda, em seguida segurou a camiseta com as duas mos e a 
puxou por sobre a cabea. O fato de no dar importncia ao passado, no significava que 
Meg tambm o havia superado. Ela teve dias bons e ruins. Desde a morte da av, esses dias 
ruins vinham piorando, e esse no era o melhor ambiente para Travis viver. 

A luz da lua e a sombra derramavam-se por toda a colcha verde e nos macios moures de 
carvalho da cama de Mick. Ele jogou a camiseta no cho e atravessou o quarto. s vezes 
tinha a impresso de que se mudar para Truly novamente havia sido um erro. Sentia como 
se tivesse parado num s lugar, incapaz de avanar, e no sabia porque se sentia assim. 
Comprou um novo bar e estava pensando em comear um servio de helicpteros com o 
amigo Steve. Mick tinha dinheiro e sucesso profissional, e ele e sua famlia faziam parte de 
Truly. A nica famlia que tinha. Provavelmente a nica famlia que teria, mas s vezes... 
s vezes ele no podia evitar a sensao de que estava esperando por alguma coisa. 

O colcho afundou quando ele se sentou na borda e tirou as botas e as meias. Meg dizia que 
tudo o que ele precisava era encontrar uma mulher agradvel que se tornasse uma boa 
esposa, mas ele no conseguia realmente se ver casado. 

No agora. Ele teve alguns bons relacionamentos durante a vida. Bons at o momento em 
que deixavam de ser. Nenhum havia durado mais que um ou dois anos. Em parte porque a 
relao simplesmente se esvaziou. Mas principalmente porque ele no queria comprar o tal 
anel e subir ao altar. 

Levantou-se e tirou a cueca. Meg achava que ele tinha medo do casamento, porque a 
experincia de seus pais havia sido ruim, mas no era verdade. Na realidade ele no se 
lembrava dos pais tanto assim. Apenas algumas memrias plidas dos piqueniques da 
famlia no lago e de seus pais se enroscando no sof. Memrias de sua me chorando na 
mesa da cozinha e de um telefone antigo e pesado que foi atirado contra a tela da tev. 

No, o problema no estava relacionado s memrias do relacionamento arruinado de seus 
pais. Ele simplesmente nunca amara uma mulher o suficiente para querer passar o resto da 
vida ao lado dela. O que, na verdade, ele no considerava um problema. 

Levantou a colcha e se largou em meio aos lenis frios. Pela segunda vez naquela noite, 
pensou em Maddie Dupree e sorriu no escuro. Ela parecia um pouco presunosa, mas ele 
nunca tomou aquilo como defeito para uma mulher. De fato, ele gostava de mulheres to 
fortes quanto os homens. Que se arranjassem como ela, e no precisassem de um homem 
para cuidar delas. Que no fosse carente, chorosa ou completamente louca. E cujo humor 
no variasse como um pndulo. 


Mick virou para o lado e olhou para o relgio sobre o criado-mudo. Regulou o alarme para 
dez horas da manh, e se preparou para sete horas de sono pesado. Infelizmente, no 
conseguiu. 

Na manh seguinte, o toque do telefone o despertou de um sono profundo. Mick abriu os 
olhos e os apertou para se proteger do sol matinal que se espalhava pela cama. Olhou o 
identificador de chamadas e se esticou para alcanar o aparelho sem fio. 

-  melhor voc estar sangrando muito - disse e empurrou os cobertores abaixo do peito nu. 
- Eu lhe disse para no ligar antes das dez, a menos que fosse uma emergncia. 

- A mame est trabalhando e eu preciso de uns fogos de artifcio  disse o sobrinho. 

- As oito e meia da manh? Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos. 

- A sua bab est a com voc? 

- Est. Amanh  o Quatro de Julho e eu no tenho fogos de artifcio. 

- E voc percebeu isso agora? - Essa histria tem outro lado. Com Travis, sempre tinha 
outro lado. - Por que a sua me no lhe deu fogos? Houve uma grande pausa e Mick 
acrescentou: 

-  melhor voc falar a verdade, porque eu vou perguntar para a Meg. 

-Ela disse que eu tenho uma boca-suja. 

Mick levantou-se e seus ps afundavam no carpete bege conforme ele andava na direo da 
cmoda. Ele quase teve medo de perguntar, mas ... 

- Porqu? 

- Bem... ela fez bolo de carne de novo. Ela sabe que eu odeio bolo de carne. 

Mick no culpava o garoto por isso. As mulheres da famlia Hennessy eram notrias por 
seus malditos bolos de carne. Ele abriu a segunda gaveta da cmoda enquanto incitava o 
sobrinho a continuar: 

-E..?. 

- Eu disse que tinha gosto de merda. E que voc tambm achava isso. 

Mick interrompeu a busca pela camiseta branca na gaveta, e olhou para seu reflexo no 
espelho que estava em cima da cmoda. 

- Voc usou mesmo essa palavra que comea com "m"? 

-  isso a, e ela disse que no vai comprar fogos de artifcio para mim, mas voc diz a 
palavra com "m' toda hora. 

Era verdade. Mick pendurou a camiseta no ombro e se inclinou um pouco mais para frente 
para olhar dentro dos olhos avermelhados. 

- A gente j conversou sobre as palavras que eu posso falar e as que voc pode falar. 

- Eu sei, s que escapou. 

- Voc precisa controlar o que escapa da sua boca. 

Travis suspirou. 

- Eu sei. E depois eu disse que sentia muito, se bem que no vejo nenhum mal no que eu 
disse. E falei daquele jeito que voc me ensinou que eu devia fazer com todas as mulheres, 
por mais estpidas que fossem, e mesmo que eu estivesse certo e elas, erradas. 

No foi exatamente isso que Mick havia dito, mas... 

- Bom, mas voc no contou a Meg que eu disse isso. - Puxou uma cala jeans para fora da 
cmoda e concluiu: 

- Certo? 

- Certo. 

Ele no podia contrariar a irm, mas ao mesmo tempo, o garoto no deveria ser punido por 
falar a verdade. 


- Eu no posso comprar fogos para voc se a sua me falou que no, mas vamos ver se 
podemos resolver isso de outra forma. 

Uma hora mais tarde, Mick empurrava um saco de fogos de artifcio para trs do banco do 
motorista da caminhonete. Havia comprado uma pequena variedade de fogos, que inclua 
algumas estrelinhas e busca-ps. No comprara aquilo para o Travis. Comprara para levar 
no churrasco de comemorao do Quatro de Julho na casa de Louie Allegrezza. Se algum 
perguntasse, a histria seria essa, mas duvidava que algum acreditasse nele. Como todos 
os outros habitantes da cidade que tinham obsesso por pirotecnia, ele tinha uma caixa 
grande de fogos ilegais, que seriam lanados sobre o lago. Os adultos no compram fogos 
autorizados, a menos que tenham crianas. 

O filho de Louie, Pete Allegrezza e Travis eram amigos, e poucos dias atrs Meg 
concordara que Travis poderia ir ao churrasco com Mick se no criasse problemas. O 
churrasco seria no dia seguinte, e Mick imaginou que Travis seria capaz de controlar seu 
comportamento por mais um dia. Fechou a porta da caminhonete, e ele e Travis avanaram 
pelo estacionamento a cu aberto em direo  loja de ferramentas. 

- Se voc se comportar bem, quem sabe eu deixe voc segurar uma estrelinha. 

- Cara - reclamou Travis - estrelinhas so para garotinhos. 

- Com todo esse seu talento voc vai ter sorte se no estiver na cama antes de escurecer. A 
luz do dia brilhou sobre os cabelos pretos e curtos do sobrinho e o ombro da camiseta de 
Homem-Aranha. 

- Voc tem passado por momentos difceis se controlando ultimamente. Abriu a porta 
acenou para o proprietrio que estava atrs do balco.  Meg ainda est furiosa conosco, 
mas eu tenho um plano. 

Por vrios meses, Meg havia se queixado de um cano mal-vedado debaixo da pia da 
cozinha. Se ele e Travis consertassem aquele sifo de forma que no fosse mais necessrio 
continuar esvaziando a panela da gua que vazava, ela passaria a ter um humor mais 
generoso. Se bem que Meg, era sempre uma incgnita... No era sempre que ela era uma 
pessoa indulgente. 

As solas dos tnis de Travis faziam muito barulho em comparao com as botas de Mick 
conforme eles caminhavam na direo da seo de encanamento. A entrada da loja estava 
tranqila, exceto por um casal procurando uma mangueira para jardim, e a sra. Vaughn, 
professora do primeiro grau de Mick. cavoucando num depsito de puxadores de gavetas. 
Ele sempre ficava assombrado quando via Laverne Vaughn ainda viva e andando pela 
cidade. 

Enquanto Mick pegava um tubo de PVC e algumas juntas de plstico, o sobrinho apanhava 
uma pistola de calafetagem e a apontava para um alimentador de pssaros no final do 
corredor como se ela fosse uma arma de verdade. 

- A gente no vai precisar disso - Mick explicou quando conseguiu encontrar uma fita de 
vedao. 

Travis pipocou mais alguns disparos, depois jogou a pistola de volta na prateleira. 

- Vou ver o cervo - avisou e desapareceu no corredor. A loja tinha uma grande variedade de 
animais de plstico que as pessoas podiam colocar em seus jardins. Mick no entendia 
porque algumas pessoas preferiam ver aqueles bichos de plstico quando era muito melhor 
vagar sem rumo pela loja. 

Ele ps o cano embaixo de um dos braos e foi  procura do sobrinho, que geralmente no 
procurava problemas, mas, como a maioria dos garotos de sete anos, encontrava-os em 


qualquer lugar. Atravessou a loja, procurou em cada grande fila de gente e parou ao lado de 
um expositor de esfreges. 

Um sorriso de pura satisfao surgiu nos lbios de Mick quando avistou Maddie Dupree, no 
meio do corredor seis. Seus cabelos castanhos estavam presos com presilhas e parecia que 
havia um espanador de plumas escuras amarrado atrs da cabea. Olhando atentamente ele 
acompanhou o perfil delicado, em seguida deu ateno ao pescoo e aos ombros, e de 
repente parou na camiseta preta que ela usava. Na ltima noite, ele no conseguira olh-la 
atentamente. Ali as luzes fluorescentes da loja de ferramentas a iluminava como uma foto 
daquelas que ficam exatamente no meio das revistas, uma foto que andava, falava e 
respirava. Como uma antiga colega de escola antes do distrbio alimentar e do silicone. O 
desejo fez seu sangue correr mais rpido nas veias. Ele nem a conhecia bem o suficiente 
para sentir alguma coisa. No sabia se ela era casada ou solteira, se havia algum homem em 
sua vida e, quem sabe, dez crianas esperando em casa. Aparentemente no importava, 
porque ela o atraiu pelo corredor como se fosse um m. 

- Parece que voc est tendo problemas com camundongos - brincou. 

- O qu? Virou-se com vivacidade e exclamou: 

- Voc me assustou! 

- Sinto muito - Mick desculpou-se. Mas na verdade no sentia. Ela era bonita com aqueles 
olhos grandes e sem flego, e um pouco instvel. Deu uma olhadela para cima e em 
seguida, com o cano de PVC, apontou para a caixa na mo dela. -Problemas com 
camundongos? 

- Na verdade um deles passou entre os meus ps esta manh enquanto eu fazia caf. Ela 
enrugou o nariz. - Ele passou por baixo da porta da despensa e sumiu. Provavelmente ainda 
est se deleitando com minhas barras de cereais. 

- No se preocupe. Mick riu. - Ele provavelmente no vai comer muito. 

- Na verdade eu quero que ele no coma nada. Exceto talvez um veneno. Maddie voltou 
novamente a ateno para a caixa que tinha nas mos. Como era belo aquele cabelo escuro 
tocando a lateral do pescoo, e Mick pensou ter sentido um odor de morango. 

No fundo do corredor, Travis virou a esquina e interrompeu sua seqncia de pensamentos. 

- Aqui diz aqui que podem ocorrer problemas com odores se os roedores morrerem em 
reas inacessveis. Mas para falar a verdade eu no gostaria de ter de procurar 
camundongos malcheirosos. Maddie olhou para ele com os cantos dos olhos. - Ser que no 
h alguma coisa melhor que eu poderia usar. 

- Eu no recomendaria a fita. Mick apontou para uma caixa de folhas adesivas. - Os 
camundongos ficam colados nelas e chiam muito. - L estava novamente o perfume de 
morango. E ele pensou se a loja tinha algum alimenta dor perfumado para beija-flores. - 
Voc pode usar ratoeiras, - sugeriu. 

- Mesmo? As ratoeiras no so meio... violentas? 

-- Elas podem quebrar um rato em dois, disse Travis enquanto vinha ficar ao lado de Mick. 
O garoto levantava e baixava os calcanhares fazendo uma leve rotao com o corpo e 
sorriu. - s vezes as cabeas deles pulam fora quando eles vo atrs do queijo. 

- Meu Deus, garoto! - As sobrancelhas de Maddie se aproximaram uma da outra enquanto 
ela baixou o olhar e encarou Travis. - Isso  terrvel! 

-  isso a! 

Mick recolocou o cano debaixo do brao e ps a mo que estava livre no alto da cabea de 
Travis. 


- Esse garoto terrvel  meu sobrinho, Travis Hennessy. Travis, cumprimente Maddie 
Dupree. 

Maddie estendeu a mo e apertou a de Travis. 

-  um prazer conhec-lo, Travis. 

- ... Eu tambm. 

- E obrigada por me falar sobre as ratoeiras - continuou e logo soltou a mo do menino. - 
Eu vou me lembrar delas, se me decidir pela decapitao. 

Um sorriso brotou nos lbios de Travis colocando em evidncia que faltava um dos dentes 
da frente. 

- No ano passado eu matei toneladas de ratos - gabou-se, aplicando aquele marcante charme 
especial de um menino de sete anos de idade.  Se precisar, me chame. 

Mick olhou para o sobrinho e no tinha certeza, mas achou que Travis estava inflando seu 
peito magro. 

- A melhor maneira de se livrar de camundongos disse, salvando Travis de se sentir ainda 
mais embaraado -  arrumar um gato. 

Maddie balanou a cabea e seus olhos castanhos olharam no fundo dos olhos dele, 
completamente quentes, delicados e midos. 

- No me dou bem com gatos. O olhar fixo de Mick deslizou para a boca, e mais uma vez 
ele pensou h quanto tempo no beijava uma boca to bela. - Prefiro cabeas cortadas na 
minha cozinha ou carcaas escondidas e cheirando mal. 

Ela falava de cabeas cortadas e carcaas fedorentas enquanto ele quase perdia a cabea. 
Bem ali no meio da loja de ferramentas, como se tivesse dezesseis anos de novo e no 
conseguisse se controlar. Mick estivera com muitas mulheres belas, no era um garoto. 
Salvou Travis de se sentir embaraado, mas quem viria salv-lo. 

- Temos servio de encanamento para fazer. Ele levantou a seladora enquanto dava um 
passo para trs. - Boa sorte com os camundongos. - A gente se v por a. 

- Sim Travis - disse e seguiu o tio at o caixa. - Ela  legal, sussurrou. - Eu gosto da cor do 
cabelo dela. 

Mick estava exultante, ps o cano de PVC prximo  registradora. O garoto s tinha sete 
anos, mas era um Hennessy. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 3 

 

5 de setembro de 1976 Dan disse que iria deixar a esposa para ficar comigo! Ele disse 
que dormia no sof desde maio. Eu tinha acabado de saber que ela ficou grvida em 
junho. Fui enganada, ele mentiu para mim! Quando ser a minha vez de ser feliz? A 
nica pessoa que me ama  a minha filhinha. Agora ela tem trs anos e todos os dias 
diz que me ama. Ela merece uma vida melhor. 
Por que Deus no pode nos mandar para um lugar agradvel? 
Maddie fechou os olhos e inclinou a cabea para trs. Estava no escritrio. Enquanto lia os 
dirios, no apenas descobria a paixo de sua me por meio dos pontos de exclamao, mas 
tambm sua inclinao para se interessar pelos maridos de outras mulheres. Incluindo Loch 
Hennessy, envolveu-se com trs homens casados at os vinte e quatro anos de idade. Sem 
contar Loch, cada um deles havia prometido deixar a esposa para ficar com ela, mas no 
final, todos a haviam enganado 
Maddie jogou o dirio sobre a escrivaninha e cruzou os braos sob a cabea. Alm dos 
casados, Alice tambm havia sado com homens solteiros. No final, todos a enganariam e 
mentiriam, e a deixariam por outra pessoa. Todos exceto Loch. Embora Maddie tenha 
certeza de que se o caso deles no tivesse sido interrompido, ele a enganaria e mentiria 
como todos os outros. Solteiro ou casado, a me s escolhia homens que a decepcionavam. 
Pela janela aberta, entrava uma leve brisa que trazia consigo o barulho do churrasco dos 
vizinhos. Era o Quatro de Julho e Truly tinha o costume de celebrar ruidosamente. Na 
cidade, prdios foram adornados com as cores vermelha, branca e azul da bandeira, e 
naquela manh haveria uma parada na rua Main. Maddie havia lido no jornal local sobre a 
grande celebrao planejada no Parque Shaw e sobre o  imprevisvel show de fogos de 
artifcio da cidade, que comearia  na escurido total. 
Maddie levantou-se e foi at o banheiro. Se bem que, quo impressionante realmente 
poderia ser o show naquela cidade? Boise, a capital do condado, no tinha um show 
decente h anos. 

Ela fechou o ralo da banheira de hidromassagem e abriu a gua. Enquanto se despia, as 
risadas dos vizinhos entravam pela pequena janela superior do banheiro. Mais cedo naquela 
manh, Louie e Lisa Allegrezza vieram convid-la para o churrasco, mas mesmo fazendo o 
possvel, ela no se sentia muito bem para entabular conversas educadas com pessoas que 
no conhecia. E ultimamente Maddie no andava nos melhores momentos. Ter encontrado 
os dirios foi uma bno de fato confusa. Os dirios respondiam a algumas de suas 
questes importantes. Questes que a maioria das pessoas sabia sobre seu nascimento. Ela 
aprendeu que seu pai era de Madri e que sua me engravidou no vero seguinte  formatura 
da escola. Seu pai esteve nos Estados Unidos para visitar a famlia, e os dois se 
apaixonaram loucamente. No final do vero, Alejandro voltou para a Espanha. Alice 
escreveu vrias cartas para lhe contar sobre sua gravidez, mas nunca mais teve notcias 
dele. Aparentemente, louca paixo entre eles foi unilateral. 
Maddie segurou os cabelos para cima e os prendeu no alto da cabea com uma presilha 
grande. H muito tempo ela aceitara o fato de que jamais conheceria o pai. De que no 
deveria saber como era seu rosto ou o som de sua voz. De que ele nunca a ensinaria a andar 
de bicicleta ou a dirigir um carro, mas, como todo o resto, ler os dirios trouxe tudo isso  
superfcie novamente, e ela pensava se Alejandro estava morto ou vivo e o que acharia 
dela. 


Maddie despejou os sais de banho com aroma de chocolate alemo na gua corrente e 
colocou um frasco com esfoliante corporal com o mesmo aroma ao lado da banheira. Ela 
podia no se preocupar em combinar as peas de lingerie e com a marca dos sapatos, mas 
adorava produtos para usar no banho. Poes e loes perfumadas eram a sua paixo. 

Nua, entrou na banheira e afundou na gua quente e perfumada. Suspirou de prazer quando 
deslizou por baixo da espuma. Inclinou-se para trs tocando a loua fria e fechou os olhos. 
Tinha todos os perfumes imaginveis. Todos desde rosas at mas, de caf a doces. 
Alguns anos atrs fez as pazes consigo mesma e aprendeu a conviver com a hedonista que 
tinha dentro de si. 
Houve um tempo na vida em que ela se embriagava de tudo que lhe dava prazer. Homens, 
sobremesas e loes caras eram as principais atraes de sua lista. Como resultado dessa 
indulgncia consigo prpria, acabou desenvolvendo uma estreita viso dos homens e um 
grande traseiro. Quando criana estivera acima do peso e o pavor de ter de carregar 
novamente carga to grande a forou a mudar sua vida. A realizao de que precisava 
mudar aconteceu na manh de seu dcimo terceiro aniversrio, quando ela acordou com 
uma ressaca de cheesecake e um cara chamado Derrick. O cheesecake at que foi normal, 
mas Derrick foi uma verdadeira desiluso. 
Nos dias atuais ainda era hedonista de corao, mas uma hedonista no-praticante. Ainda 
era completamente indulgente quanto s loes e aos produtos para banho, mas precisava 
daquilo para desligar e relaxar, e tambm, claro, para evitar o ressecamento e a escamao 
da pele. 

Maddie afundou um pouco mais na gua e tentou achar um pouco de paz interior. Seu 
corpo sucumbiu s bolhas e  gua quente, mas sua mente continuou a vagar sobre os 
acontecimentos das ltimas semanas. Vinha fazendo grande progresso na linha do tempo e 
nas notas. Tinha uma lista de pessoas mencionadas no ltimo dirio da me, as poucas 
amigas que fez em Truly, e algumas pessoas com quem trabalhou. O magistrado do 
condado de 1978 havia morrido, mas o xerife ainda vivia em Truly. Estava aposentado, 
porm Maddie tinha certeza de que ele poderia fornecer informaes importantes. 

Ela tinha relatos de jornais, relatrios policiais, os achados do magistrado, e o mximo de 
informao sobre a famlia Hennessy que conseguiu desenterrar. Agora, tudo o que 
precisava fazer era falar com algum que estava conectado com a vida e a morte da me. 

Ela descobrira que duas mulheres com as quais a me havia trabalhado ainda viviam na 
cidade e planejou comear a investigao por elas no dia seguinte. J passava da hora de 
conversar com pessoas da cidade e desenterrar informaes. 

A gua quente e as bolhas perfumadas deslizavam sobre o abdmen e as curvas o contorno 
dos seios. Lendo os dirios, ela quase podia ouvir a voz da me pela primeira vez em vinte 
e nove anos. Alice escreveu sobre o medo de se encontrar sozinha e grvida e a excitao 
que sentiu com o nascimento de Maddie. Ler sobre as esperanas e os sonhos que ela nutria 
para si e para o seu beb foi difcil e triste. Mas foram essas descobertas que a fizeram 
entender que a me no era o anjo de cabelos dourados e olhos azuis como ela imaginara 
quando criana. Alice era o tipo de mulher que precisava de um homem ao seu lado. Ela era 
carente, ingnua e uma eterna otimista. Maddie nunca foi carente, nem podia se lembrar de 
algum tempo em que havia sido ingnua ou excessivamente otimista com relao a 
qualquer coisa. A descoberta de que no tinha absolutamente nada em comum com a 
mulher que havia lhe dado a vida, nada que a ligasse a me, trouxe-lhe uma enorme 
sensao de vazio. 


Logo no comeo da vida Maddie desenvolveu uma dura carapaa em torno da prpria alma. 
Seu interior protegido sempre foi um recurso usado especialmente em seu trabalho, mas 
nesse momento ela no se sentia to dura. Pelo contrrio, sentia-se vulnervel. Vulnervel a 
que, no sabia, mas odiava a sensao. 

Seria muito mais fcil se deixasse de lado aqueles dirios e escrevesse sobre um psicopata 
chamado Roddy Durban. Estaria agora escrevendo sobre um patifezinho asqueroso que 
matou mais de vinte e trs prostitutas pouco antes de ela ter encontrado os dirios. Escrever 
sobre Durban teria sido muito mais fcil do que escrever sobre a me, mas na noite em que 
Maddie levou os dirios para casa e os leu, soube que no havia volta. Sua carreira, apesar 
de nem sempre ter sido minuciosamente calculada, nunca esteve entregue ao acaso. Era 
uma escritora especializada em crimes e criminosos reais por uma nica razo, e quando 
estudou com cuidado a caligrafia excessivamente feminina da me, soube que era chegado 
o momento de se sentar e escrever sobre o crime que havia lhe tirado a vida. 

Maddie fechou a gua com o p e alcanou o esfoliante corporal ao lado da banheira. 
Esguichou o esfoliante denso e doce na palma da mo e logo o perfume de chocolate lhe 
encheu as narinas. Com ele veio uma memria espontnea de estar em p sobre uma 
cadeira ao lado da me e sentindo o delicioso cheiro de um bolo de chocolate no forno. No 
sabia quantos anos tinha ou onde viviam. A memria era to palpvel quanto uma pequena 
nuvem de fumaa, mas logrou liberar uma energia num lugar ermo do seu corao. 

As bolhas se uniam aos seios quando ela sentou-se, suspendeu os ps e os apoiou nas 
laterais da banheira. Obviamente ela no conseguiu encontrar a calma e o conforto que 
normalmente sentia durante o banho, esfoliou rapidamente os braos e as pernas. Aps esse 
ritual saiu da banheira e se secou, depois passou uma loo com perfume de chocolate na 
pele. 

Jogou as roupas no cesto e foi para o quarto. Suas trs amigas mais prximas viviam em 
Boise, e ela sentia falta de encontr-las para almoar ou jantar e colocar a conversa em dia. 
Suas amigas Lucy, Clare e Adele eram as pessoas mais prximas, o tipo de pessoas a quem 
ela consideraria doar um rim ou emprestar dinheiro. Tinha certeza de que elas retribuiriam 
o gesto. 

No ano anterior quando sua amiga Clare surpreendeu o noivo com outro homem, as trs 
amigas correram para a casa dela para consol-la. Entre as quatro mulheres, Clare era a 
mais generosa e a que mais facilmente se machucava. Era tambm uma escritora de 
romances que sempre acreditou no verdadeiro amor. Durante algum tempo depois da 
traio do noivo, ela achou que nunca mais confiaria em ningum at que um reprter 
chamado Sebastian Vaughan entrou na sua vida e restaurou a sua f. Ele era de fato o 
prprio heri de romance, e os dois se casariam em setembro. Em poucos dias Maddie teria 
de dirigir para Boise para experimentar o vestido de dama-de-honra. 

Mais uma vez permitia que uma das amigas a enfeitasse com um vestido ridculo e a fizesse 
ficar imvel no altar da igreja. No ano anterior havia sido Lucy. Ela escrevia sobre 
mistrios e encontrou o marido Quinn quando ele a confundiu com assassina em srie. Em 
poucas palavras, ele no deixou que uma coisa to nfima como um homicdio ficasse no 
caminho de sua busca por Lucy. 

Das quatro amigas, ela prpria e Adele ainda eram solteiras. Maddie pegou uma calcinha 
preta e jogou a toalha sobre a cama. Adele escrevia novelas de fico para ganhar dinheiro, 
e embora tivesse seus prprios problemas com homens, Maddie imaginava ser muito mais 
provvel que Adele se casasse antes dela prpria. 


Maddie ajustou os grandes bojos do suti sob os seios e fechou atrs. Na realidade, ela 
simplesmente no conseguia se imaginar casada. Queria um filho tanto quanto queria um 
gato. A nica situao em que um homem vinha a calhar era quando precisava de algum 
para fazer uma mudana pesada ou quando desejava um corpo nu e quente prximo ao dela. 
Mas mesmo para isso... Ela tinha um vigoroso carrinho de mo e o grande Carlos, e quando 
ela precisava de algum para levantar peso ou para se satisfazer sexualmente procurava um 
deles. Claro que nenhum deles era to eficiente quanto um autntico homem, mas o 
carrinho de mo voltava para a garagem quando terminava o servio, e o grande Carlos era 
devolvido ao criado-mudo. Ambos aceitavam sua condio e no davam a mnima, no 
armavam jogos com seus sentimentos e no trapaceavam. Era quase uma situao em que 
todos saam ganhando. 

Vestiu a cala jeans e depois enfiou os braos nas mangas de seu mais confortvel suter 
com capuz. Simplesmente no tinha os mesmos desejos, instintos ou relgios biolgicos 
que levavam as outras mulheres ao matrimnio e  maternidade. O que no significava 
dizer que ela no se sentia sozinha s vezes. E como! 

Depois de calar os chinelos de borracha, saiu do quarto, passou pela sala de estar e seguiu 
na direo da cozinha. O barulho da festa dos vizinhos continuava, agora mais intenso. 
Parou em frente ao refrigerador. As vozes entravam pela janela e inundavam o espao. Ela 
puxou uma garrafa de vinho merlot com baixo teor de carboidratos. 

Estava s e se sentia solitria, e evidentemente sentido pena de si mesma. O que na verdade 
no era prprio dela. Nunca sentira pena de si mesma. Afinal, havia muita gente no mundo 
com problemas de verdade... 

O barulho estridente de pelo menos meia dzia de rojes cortaram o ar, e com o susto 
Maddie quase derrubou o saca rolha. 

- Droga! praguejou. 

Pelas portas envidraadas que levavam ao terrao, ela podia ver as sombras do anoitecer e a 
superfcie escurecida do lago que geralmente era de cor verde-esmeralda. Serviu o vinho 
em uma taa e o carregou consigo para o terrao, colocando-o sobre a cerca. Na areia  
beira do lago havia trs tubos de morteiro enterrados apontando para o cu. Vrias crianas 
seguravam fogos que soltavam fascas, enquanto os homens, supervisionados pelas 
crianas, acendiam rojes maiores de um tiro, e outro que lampejava como luz 
estroboscpica. Fumaa de bombas de vrias cores cobriram a praia, e as crianas corriam 
cortando a nvoa colorida como gnios de garrafa. 

Junto  fumaa e ao caos Mick Hennessy estava de perfil com um graveto entre os dentes, 
como um cigarro comprido. Ela reconheceu seus ombros largos e seus cabelos negros, alm 
do garoto que estava ao seu lado olhando-o atentamente. 

Ele deu para o sobrinho um dos fogos que soltavam fascas, e Travis girou sobre um dos 
ps e o agitou em volta de si. Mick tirou o graveto da boca e disse algo a Travis que 
imediatamente interrompeu a algazarra e tratou de segurar seus fogos bem na sua frente, 
quase como uma esttua. 

Maddie tomou um gole de vinho. T-lo visto na loja de ferramentas no dia anterior havia 
sido um choque de verdade. Estava to interessada na caixa de veneno que no o notou at 
que ele estivesse muito prximo. Olhar para aqueles olhos azuis to de perto e to parecidos 
com os do pai dele a havia deixado atordoada. Ela baixou o copo e o colocou novamente 
sobre a cerca enquanto assistia Mick com o sobrinho. No sabia o que pensar sobre ele. 
No que soubesse o suficiente para formar uma opinio ou que isso sequer importasse. O 
livro que ela iria escrever no tinha nada a ver com ele e tudo que ver com o tringulo 


amoroso entre Loch, Rose e Alice. Como Maddie, Mick havia sido apenas outra vtima 
inocente. 

Louie Allegrezza e dois outros homens ajoelharam-se perto da gua e enterraram foguetes 
em vrias garrafas pet. Acenderam um estopim aps o outro, e Maddie assistiu os foguetes 
voarem alto sobre a gua e explodirem em vrios estouros moderados. 

- Cuidado com aqueles prximos das crianas! Lisa alertou o marido. 

- Estes nunca machucaram ningum, Louie respondeu enquanto carregava novamente as 
garrafas. Quatro foguetes voaram direto para cima, enquanto o quinto voou direto para 
Maddie. Ela se abaixou quando o foguete passou zunindo por cima de sua cabea. 

O foguete caiu atrs dela e explodiu. Com o corao latejando nos ouvidos, ela se 
endireitou e se apoiou novamente na cerca. 

- Desculpe! Louie gritou. 

Mick Hennessy olhou para cima e a encarou por alguns segundos. Suas sobrancelhas 
escuras levantaram como se estivesse surpreso em v-la. Ento, como que voltando a si, riu 
como se toda a coisa tivesse sido terrivelmente engraada. As covinhas que marcavam suas 
bochechas, e a diverso que havia nos brilhantes olhos azuis deram a iluso de que ele era 
to inofensivo e digno de confiana quanto um escoteiro. Mas escoteiros inofensivos usam 
suas camisas beges cheias de botes e enfiadas dentro das calas. Um escoteiro no deixava 
a camisa aberta, mostrando o abdmen com msculos definidos e uma atraente e aprazvel 
trilha de plos percorrendo o osso esterno, circundando o umbigo, e desaparecendo sob o 
cs da cala. No que Maddie estivesse correndo algum risco de tocar qualquer parte do 
corpo dele, mas o fato de ele ser quem era, e ela ser quem era, no lhe impunha uma 
sentena de cegueira. 

- Louie, avise-nos antes de atirar essas coisas - Lisa gritou para se fazer ouvir. 

- Maddie, venha para c. Acho que voc ficar mais segura. 

Maddie moveu rapidamente seu olhar do peito de Mick e olhou atravs dos poucos mais de 
trs metros de jardim para a vizinha. Quanto  segurana, trocar seu terrao pelo dos 
vizinhos no fazia nenhum sentido, mas olhar para o peito de Mick foi a maior emoo que 
sentira nas ltimas semanas, e obviamente ela estava entediada e enjoada de sua prpria 
companhia. 

Ela se esticou, alcanou o copo e percorreu a curta distncia. Rapidamente foi apresentada  
filha de Louie, Sofie, e aos seus amigos que viviam em Boise e cursavam a Universidade 
Estadual de Boise, e estavam em Truly para o final de semana. Conheceu vrios vizinhos 
que moravam um pouco mais prximos  praia, Tanya King, uma loirinha que parecia 
haver nascido de salto alto e mastigava o tempo todo, e Suzanne Porter, cujo marido, 
Glenn, e o filho adolescente, Donald, estavam na praia soltando fogos. Depois das 
apresentaes, claro, Maddie no conseguia mais se lembrar de quem era quem, onde 
moravam ou h quanto tempo viviam na cidade. Todos se embaralharam, com exceo da 
me de Louis e da tia Narcisa, que estavam sentadas a uma mesa, e que tinham olhares 
crticos idnticos, que desarmavam com desaprovao, e falavam uma com a outra em 
basco fluente. No havia maneira de esquecer aquelas duas. 

- Quer mais vinho? - Lisa perguntou. - Eu tenho um tinto basco e um chablis. Ou se preferir 
temos cerveja e refrigerante. 

- No, obrigada. Levantou seu copo ainda meio cheio e o olhou.  No vou beber mais esta 
noite. - Ela precisava se levantar cedo e trabalhar, e vinho costumava lhe causar dor de 
cabea. 


- Antes de me casar com Louie e ter Pete, esses churrascos de Quatro de Julho eram 
descontrolados. Um monte de bbados e fogos perigosos. 

At onde Maddie podia ver, nem tudo havia mudado. 

A ltima pessoa a quem foi apresentada foi a cunhada de Lisa, Delaney, que parecia estar 
com doze meses de gravidez. 

- No  esperado para antes setembro - disse Delaney quando leu os pensamentos de 
Maddie. 

- Est brincando! 

- No. - Delaney riu e o rabo-de-cavalo lhe tocou o ombro quando ela balanou a cabea. - 
Estou grvida de gmeas, duas meninas. - E apontando para a praia disse: - Aquele ali  
meu marido, Nick, ali embaixo com Louie. Vai ser um timo pai. 

Naquele exato momento, o homem que seria um timo pai virou-se e olhou para a esposa. 
Ele era alto e inacreditavelmente atraente, o nico por ali que poderia competir com Mick 
Hennessy, pelo menos no que concerne  aparncia fsica. Depois daquele intenso olhar 
para a esposa, qualquer competio estava encerrada. No havia nada mais sensual do que 
um homem que tem olhos apenas para uma mulher. Especialmente naquele caso em que a 
mulher parecia com Buda. 

- Voc est bem? - Nick Allegrezza perguntou. 

- Pelo amor de Deus! - Delaney resmungou, e depois gritou: - Estou! 

- Talvez seja melhor voc ir se sentar. - Nick sugeriu. 

- Maddie estendeu os braos e disse: 

- Eu estou bem. 

O olhar de Maddie escorregou para Mick, que estava abaixado apoiado em um joelho 
enquanto ajudava Travis a acender um rojo que parecia luz estroboscpica. Ela quis saber 
se ele j havia olhado daquele jeito para alguma mulher, ou se era mais parecido com o pai 
e tinha olhos para muitas mulheres. 

- Fogo! - Louie gritou e o olhar de Maddie voltou-se para os foguetes em garrafas enquanto 
estes subiam zunindo. Dessa vez nenhum dos foguetes provocou zumbido na cabea 
Maddie, em vez disso explodiram sobre o lago. O relevo acalmava seu corao agitado. 
Alguns anos atrs,ela havia se candidatado a ser atingida por uma arma de eletrochoque em 
uma de suas aulas de defesa pessoal. Apesar de no ser medrosa, aqueles msseis voadores 
a afligiam. 

- Na semana passada comecei a ter algumas contraes, e o mdico disse que os bebs 
provavelmente vo nascer logo, - falou Delaney, atraindo a ateno de Maddie. - Nick est 
totalmente alucinado por causa disso, mas eu no estou preocupada. Temos passado maus 
bocados para receber nossas garotas... A parte difcil j passou e todo o resto vai ser bom. 

Maddie passou sua vida adulta tentando no ficar grvida e queria saber o que Delaney 
teria pensado, mas no a conhecia bem o suficiente para perguntar. 

- Vocs dois passaram maus bocados... - Lisa passou a mo sobre a barriga da cunhada, e 
depois as retirou. - Mas tenho um pressentimento de que ter duas meninas de treze anos na 
mesma casa ao mesmo tempo vai dar um novo significado para - maus bocados. 

- Sem problemas! Nick no vai perder as meninas de vista at que tenham vinte e um anos, 
por medo de que elas procurem homens como ele. 

Suzanne levantou um copo de vinho branco e riu. 

- Nunca pensei que Nick se acalmaria e casaria. Na adolescncia era to rebelde quanto 
Louie era louco. 


- Louie no era louco! - Lisa defendeu o marido. Sobre seus olhos azuis as sobrancelhas 
franziram. 

- Todos o chamavam de Louie Louco por alguma razo - Delaney lembrou a cunhada. - 
Quantos anos ele tinha quando roubou o primeiro carro? Dez? 

-  verdade... Mas Nick tambm estava l com Louie, e se sentou no banco do passageiro - 
Lisa desdenhou. - E na verdade ele no roubava carros. S pegava emprestado por algumas 
horas. 

As sobrancelhas de Delaney abaixaram. 

- Voc ouviu o que acabou de dizer? - perguntou. 

Lisa encolheu os ombros. 

-  verdade. Alm disso, Nick sempre aparecia com um monte de idias malucas. Lembra-
se das horrendas brigas de bola de neve? 

- Claro, mas hoje em dia Nick no precisa jogar coisas em cima de mim para chamar a 
minha ateno. - Delaney sorriu e pousou as mos na barriga. 

- Ele ainda  um pouco rebelde, s vezes, mas nada se comparado ao que era na escola. 

- Toda classe tinha pelo menos um menino mau. Na classe de 1990 era Mick Hennessy - 
Suzanne aparteou. - Ele estava sempre metido em problemas. Na oitava srie ele bateu na 
cara do sr. Shockey. 

Casualmente, como se no estivesse nada interessada, Maddie tomou um gole de vinho. 

- Tenho certeza de que o sr. Shockey mereceu, - Lisa defendeu Mick. - Ele costumava nos 
fazer correr na pista mesmo quando estvamos com clicas menstruais. Era um sdico. 

- Lisa, voc sempre tinha clicas - Delaney lembrou. - At mesmo na primeira srie! 

Lisa encolheu os ombros e explicou: 

- O que estou querendo dizer  que considerando o que Mick precisou enfrentar na infncia, 
ele at que se transformou numa pessoa muito boa. 

Maddie no sabia exatamente o que Mick enfrentara quando criana, mas mpodia imaginar. 

- No conheci Mick na infncia, mas ouvi as histrias. - Tanya levantou o copo e tomou um 
gole. - E ele se transformou em um homem realmente bom. Por trs do copo, um dos cantos 
dos lbios de Tanya ameaou um sorriso plantando uma duvidazinha quanto ao tipo de 
conhecimento que ela tinha de Mick, e em que ele era - realmente bom. 

Suzanne alertou: 

- Cuidado, Tanya, Mick  igual ao pai. No  o tipo de homem que se contenta com uma 
nica mulher. No ano passado, Cinda Larson pensou que o conquistara inteirinho para ela, 
mas ao mesmo tempo em que saa com ela, encontrava-se com outras mulheres. 

A diferena era, Maddie pensou, que Mick no era casado como o pai. 

- Me divorciei no ano passado. - Tanya usava um vestido de vero sem alas sobre o corpo 
mignon, e encolheu um dos ombros descobertos: - Estou procurando uma relao de 
exclusividade. 

Maddie tomou um gole do vinho e mentalmente fez um comentrio. No que os 
relacionamentos de Mick fossem de seu interesse, pessoal ou profissionalmente falando. Os 
relacionamentos dele e de Meg no seriam incorporados ao livro, assim como os seus 
prprios, mas ficou curiosa. Curiosa para saber se a infncia deles havia sido um pouco 
melhor que a sua. Pelo pouco que ouviu, diria que no. 

Suzanne foi para a cerca e gritou: 

- Donald, tenha certeza de que est jogando os maiores sobre o lago. - Depois se virou 
novamente e os olhos verdes pararam em Maddie. - Voc tem filhos? - perguntou. 


- No. - Se no estivesse prxima a uma mulher grvida, diria tambm que no se 
imaginava desejando t-los algum dia. 

- O que faz para viver? 

Se Maddie respondesse honestamente se abriria a questes que no tinha tanta certeza se 
queria responder numa festa comemorativa do Quatro de Julho. No ainda, e especialmente 
porque Mick e Travis vinham andando na sua direo. As abas da camisa de Mick se 
agitavam ligeiramente junto ao peito e aos quadris conforme ele andava, atraindo sua 
ateno e a de todas as mulheres que estavam por ali para a cala presa bem abaixo da 
cintura descoberta. 

No havia dvida quanto a uma coisa: Mick Hennessy era to espetacularmente msculo 
que conseguia atingir qualquer mulher como se fosse uma tijolada no meio da testa. Ele 
estava virado na frente de Maddie, e ela estaria mentindo para si mesma se fingisse que ele 
no a provocava desejo. Embora no tivesse problemas em mentir para os outros, jamais 
poderia mentir para si mesma. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 4 

 

- Fogo! - Louie gritou quando lanou vrios foguetes barulhentos, e salvou Maddie do 
esforo de pensar em uma meia verdade ou completa mentira. Quatro foguetes voaram em 
vez de cair na cabea dela e sua pulsao voltou ao normal. 

Esses foguetes foram um pouco maiores que o ltimo, e explodiram como vrios pequenos 
estouros coloridos. Louie j havia comeado a liberar a artilharia mais pesada, ainda que 
ningum, alm de Maddie, parecesse minimamente preocupado com isso. 

- Quero ficar aqui - resmungou Travis, enquanto ele, Mick e Pete subiam os degraus do 
terrao. 

- O grande show vai comear Mick - e vocs j sabem que nesta hora as crianas precisam 
ficar onde  mais seguro. 

Grande show? Maddie levou o vinho  boca e esvaziou o copo. Queria saber se Mick 
pouparia Tanya daquele sofrimento e abotoaria a camisa. 

- Donald  uma criana - Pete completou. 

- Donald tem catorze anos - disse Lisa. - Se vocs vo ficar implicando, podem ir se sentar 
com sua av e com a tia Narcisa. 

Rapidamente Pete sentou-se num dos degraus. - Vou me sentar aqui. Travis sentou-se do 
lado dele, mas nenhum dos dois parecia muito feliz por ficar confinado no terrao. 

- Oi, Mick - Tanya chamou. 

Ele olhou por cima da cabea de Travis, mas seus olhos azuis encontraram os de Maddie e 
pararam por alguns segundos antes de voltarem a ateno para a pequena mulher  esquerda 
de Maddie. 

- Ol, Tanya. Como vai? 

- Bem. Ainda tenho um pouco daquele usque que voc gostou l em casa. O que vai fazer 
depois do show? 

- Preciso levar o Travis para casa, e depois vou trabalhar, - ele respondeu. - Quem sabe num 
outro dia. - Ele andou para perto delas para chegar ao refrigerador, inclinou-se e levantou a 
tampa branca e as abas camisa se abriram ainda mais. Naturalmente. - E a, Travis e Pete - 
ele chamou. - Vocs no querem um refrigerante? 

Os dois garotos se viraram e responderam a uma s voz: 

- Sim. 

O gelo e a gua faziam barulho no refrigerador enquanto Mick pegava duas latas de 
refrigerante e colocava nas mos impacientes dos meninos. Depois tirou uma lata de 
energtico e fechou a porta do refrigerador. 

- Maddie, voc conhece Mick Hennessy? - Lisa perguntou. 

Distrada, ela acordou: 

- Sim, j nos conhecemos. 

Ele esfregou a mo na cala, e em seguida segurou os dedos dela com a mo fria e 
molhada. 

- Matou algum camundongo hoje? 

- No. - O polegar dele procurou o dedo consagrado ao anel de compromisso, que estava 
vazio. Ele sorriu. Se foi intencional ou no, ela no sabia, mas aquele toque delicado 
aqueceu-a. Aquilo lhe soou como a coisa mais prxima do sexo de verdade que ela sentiu 
nos ltimos anos. 

- No, ainda no h camundongos mortos, mas espero que enquanto estamos aqui falando 
eles estejam experimentando a agonia da morte... - Ela puxou a mo de volta antes que se 


esquecesse de quem ele era e da razo porque estava na cidade. Uma vez que Mick 
descobrisse, duvidava que houvesse mais alguma aproximao entre eles. No que ela 
desejasse alguma dessas coisas ... 

- Chame um dedetizador, - Tanya aconselhou. 

Maddie havia chamado um dedetizador, mas ele s poderia ir  casa dela no ms seguinte. 

- Tenha cuidado com quem voc chama, - Lisa avisou. - Carpinteiros e dedetizadores por 
aqui tem o hbito de sair s trs horas da tarde, sem necessariamente terminar o servio. 

A sogra de Lisa chamou por ela, que fez uma careta: - Desculpem-me. 

- Ainda bem que foi ela e no eu ... - Delaney disse quando Lisa se afastou. 

Ouviu-se um estampido quando Mick abriu o energtico: 

- Eu posso te dar o telefone de um cara que combina e chega na hora marcada - falou. - E 
fica at o final do servio. 

- Deixe esse trabalho de dar um fim nos ratos para o seu marido ou namorado - Tanya 
sugeriu. 

Ela olhou para Tanya e de repente sentiu uma vibrao que no era de boa vizinhana. A 
energia mudou desde que Mick veio para o terrao. No tinha certeza, mas achava que 
Tanya no seria sua nova melhor amiga. 

- No vai ser possvel, porque eu no tenho namorado e nunca fui casada. 

- Nunca? - Tanya levantou as sobrancelhas como se Maddie fosse uma pessoa esquisita, e 
ela teria rido se no fosse to ridculo. 

- Difcil de acreditar, no ? - Maddie acrescentou. Tanya no precisava se preocupar, Mick 
Hennessy era o ltimo homem sobre a face da Terra com quem Maddie se envolveria. A 
despeito daquele abdmen atraente, coberto por um rastro de plos arrasador. 

Mick riu maliciosamente e em seguida tomou um gole do energtico que tinha na mo. 
Apesar das sombras escuras do anoitecer, Maddie via muito bem as linhas daquele riso 
vincando os cantos dos olhos azuis. Ele a olhou por sobre a lata prateada. 

Ela sorriu de volta e mudou de assunto. - E ento, voc teve de jogar a Daria para fora do 
Mort's sem calcinha? 

Ele abaixou a lata e sorveu a umidade do lbio superior. 

- No, ela se comportou. 

- As mulheres ainda arremessam calcinhas no Mort's? - Delaney perguntou. 

- No tanto. Graas a Deus. - Mick balanou a cabea e sorriu largamente, um lampejo 
branco em contraste com a escurido. - Acredite-me, jogar bbados e mulheres meio sem 
roupa do meu bar no  to divertido como parece. 

Maddie riu. Nunca, nem em um milho de anos, pensaria que teria uma boa impresso de 
Mick Hennessy. - Com que freqncia isso acontece? perguntou-se. E se lembrou 
novamente de quem ele era filho. 

Mick encolheu os ombros. 

- O Mort's costumava ser um lugar realmente selvagem antes de eu assumir a direo, e 
algumas pessoas esto tendo dificuldade para se ajustar. 

- Eles ainda no se acostumaram s mudanas que o Jack fez depois de assumir a direo 
da loja de convenincia do posto de gasolina. E olha que isso foi h quase seis anos. - 
Delaney inspirou e falou lentamente: - Meus ps esto me matando. 

- Fogo! Louie gritou segundos antes de lanar uma outra leva de artilharia. 

Maddie se virou e seu olhar voou em direo aos foguetes que coloria o cu. Atrs dela, o 
riso profundo de Mick foi quase puxado pelos estouros dos foguetes. Quando ela se virou 
de volta ele se mexeu para ajudar Delaney a acomodar-se numa cadeira. Tanya foi atrs 


deles e Maddie no ficou triste quando a viu sair. A mulher passou de perfeitamente 
agradvel a insuportavelmente geniosa por causa de um homem. Essa era uma coisa que 
Maddie nunca entendera. Havia outros homens disponveis no planeta, por que ficar to 
perturbada por causa de um nico? Especialmente porque este era conhecido por no se 
envolver. Era s para amar e deixar. No que Maddie tivesse em algum momento sentido 
aquilo por algum. Ela no entendia as mulheres que ficavam se envolviam com tanta 
facilidade. Que depois de alguns encontros ou de um bom sexo, apaixonavam-se. Como 
isso acontecia? Como era possvel? 

Sofie Allegrezza e seus amigos foram at a cerca, ao lado de Maddie, para ter uma viso 
melhor do show de fogos. Encostada na cerca, Maddie assistiu Louie descarregar os trs 
grandes tubos de morteiros. Nunca precisara de um homem para se sentir bem consigo 
mesma ou para que sua vida fosse completa. No como sua me. 

- Fogo! - Desta vez era um sonoro rudo de esguicho, poucos segundos antes que os trs 
disparos fossem cuspidos dos tubos e explodissem com trs exploses espetaculares. Com o 
susto Maddie pulou pra trs e colidiu com algo slido. Um par de grandes mos segurou 
seus braos enquanto as exploses verdes, douradas e vermelhas dos fogos caiam como 
chuva sobre o lago. Virou a cabea e viu as cores das luzes sobre a face de Mick. 

Em vez de empurr-la de volta, ele a segurou exatamente onde ela havia aterrissado. E em 
seguida falou: 

- Diga-me uma coisa. 

- O qu? 

Ele abaixou um pouco o rosto para falar no ouvido dela. 

- Se voc  um bom partido, por que ainda no foi fisgada? 

A respirao quente de Mick tocou a lateral do rosto dela e escorregou pelo pescoo. 

- Provavelmente pela mesma razo que voc tambm no foi. 

- Qual ? 

- Voc no quer ser fisgado. 

- Docinho, todas as mulheres querem ser fisgadas. - Suas mos escorregaram para os 
cotovelos dela. - Todas as mulheres querem se casar de branco, ter cercas de estacas 
pontiagudas em volta de suas casas, e um reprodutor dentro dessas mesmas casas. 

- Voc j esteve com todas as mulheres? 

Maddie pensou v-lo sorrir. 

- Estive com vrias. 

- Foi o que eu ouvi. 

- Voc no devia acreditar em tudo que ouve. 

- E voc no devia acreditar que todas as mulheres querem voc como um reprodutor 
particular. 

- Isso foi revoltante, no foi? 

Mick riu e depois sussurrou ao ouvido dela: 

- Voc tem um cheiro bom. - Ela o sentiu respirar fundo atrs de si. 

- Chocolate alemo. 

- O qu? 

- O cheiro  de loo corporal de chocolate alemo. 

- H muito tempo no como chocolate alemo. 

Maddie repensou a idia de que o aperto de mo foi o melhor sexo que teve nos ltimos 
anos. A respirao suave no cabelo dela e as mos segurando os braos, isso sim, era 
praticamente orgstico. 


- Voc est me deixando com fome. 

- De chocolate? 

As mos de Mick alcanaram os ombros dela, depois voltaram para os cotovelos. 

- ... para comear... 

- Tio Mick - Travis chamou. - Quando vo comear os fogos da cidade? 

As mos de Mick enrijeceram por uma frao de segundo e depois soltaram os braos de 
Maddie. Ele olhou para o alto. 

- A qualquer momento respondeu e deu um passo para trs. Como se aquilo tivesse sido 
uma dica, imediatamente vrios estouros enormes chacoalharam o cho e o cu da noite 
iluminou-se com as gigantescas exploses coloridas. Sofie Allegrezza ligou um pequeno 
aparelho de som e a guitarra snica de Jimi Hendrix gemeu The Star Spangled Banner na 
noite. As criaturas da floresta disputaram abrigos quando na praia em torno do lago 
explodiram mais fogos de artifcio, que competiam com as erupes pirotcnicas que 
partiam da cidade. 

Bem-vindo a Truly. Choque e estupefao inigualveis. 

- E a, Travis, divertiu-se? 

Um enorme bocejo veio do outro lado da caminhonete escura. 

- Me diverti. Mas ser que no prximo ano eu vou poder estourar fogos maiores? 

- Quem sabe? Se voc no se meter em problemas ... 

- A mame disse que se no me meter em problemas vou ganhar um cachorrinho. Mick 
dobrou a esquina no caminho da casa de Meg e brecou prximo ao carro dela. Um cachorro 
seria uma boa idia.  bom para um menino ter um cachorro. 

- Que tipo de cachorro? 

- Eu gosto de pretos com manchas brancas. 

As luzes ardiam dentro da casa e apenas uma lmpada iluminava a varanda. Desceram da 
caminhonete ao mesmo tempo e subiram os degraus da frente. Era em torno de 23h30. Os 
ps de Travis moviam-se devagar e pareciam pesados. 

- Quanto tempo voc vai ter de ser bom para ganhar o cachorro? 

- Um ms! 

O menino no conseguia ficar longe de problemas com a me nem por uma semana. 

- Bom, ento tome cuidado com a boca, quem sabe assim voc consegue? - Tirou as chaves 
do bolso da cala e abriu a porta para o sobrinho. 

Meg estava sentada no sof, de camisola e com um roupo cor-de-rosa felpudo por cima. 
Lgrimas brilhavam nos olhos verdes enquanto ela olhava para alguma coisa que segurava 
entre os dedos. Um sorriso forado surgiu em seus lbios e um pavor caiu sobre os ombros 
de Mick. Era uma daquelas noites... 

- Voc viu os fogos de artifcio, me? - Se Travis percebeu, no pareceu se importar. 

- No, querido, eu no fui l fora. Mas ouvi. - Levantou -se e Travis enroscou os braos em 
torno da sua cintura. - Eles foram enormes! 

- Voc se comportou? - Ela passou a mo sobre a cabea do filho e olhou para Mick. 

- Me comportei, - Travis respondeu, e Mick confirmou com a cabea. 

- Voc  o meu bom menino. 

Travis olhou para cima. 

- Pete disse que talvez eu poderia passar a noite na casa dele e a me dele disse que 
=Certamente, num outro dia. 

- Vamos ver. - Meg era uma bela mulher, como a me. Tinha pele clara e cabelos negros 
suaves e longos. E como a me, seus humores eram completamente imprevisveis. - V 


vestir o seu pijama e depois v para a cama. Em um minuto eu vou te dar um beijo de boa 
noite. 

- Ok - Travis concordou com um gemido. - Boa noite, tio Mick. 

- Boa noite, parceiro! - Um impulso quase esmagador de se virar e se afastar caiu sobre 
Mick e, de fato, ele deu um passo para trs. Para longe do que sabia que estava para 
acontecer e na direo ao ar fresco da noite l fora. 

Meg observou enquanto o filho deixava a sala, depois estendeu a mo e a abriu: 

- Veja, achei o anel de casamento da mame. 

- Meg. 

- Ela tirou e deixou no criado-mudo antes de ir para o bar naquela noite. 

Ela nunca havia tirado antes. 

- Pensei que voc no ia mais mexer nas coisas dela. 

- E no mexi. - Meg fechou a mo escondendo o anel, e levou a unha do polegar  boca. - 
Ele estava embrulhado com as jias da vov Loraine, e eu o encontrei enquanto estava 
procurando aquele colar com o trevo de quatro folhas. 

Aquele que ela costumava usar o tempo todo, que trazia sorte. Eu queria us-lo para 
trabalhar amanh. 

Deus! Ele odiava quando a irm ficava assim. Era cinco anos mais novo que ela, mas 
sempre se sentiu como se fosse o irmo mais velho. Os grandes olhos verdes de Meg se 
voltaram para Mick e ela abaixou a mo. 

- O papai ia mesmo nos deixar? 

Que inferno... Mick no sabia. Ningum sabia alm do prprio Loch, e ele estava morto h 
tanto tempo... Morto, liquidado e fazia parte do passado. Por que Meg no deixava tudo 
isso para trs? 

Talvez porque tinha apenas completado dez anos poucos meses antes da noite em que sua 
me havia carregado aquela arma e esvaziado cinco cmeras no pai de Mick e na jovem 
garonete que se chamava Alice Jones. De fato, Meg lembrava-se muito mais daquela 
noite, vinte e nove anos atrs, na qual a me no apenas matou Loch e sua ltima amante. 
Foi tambm a noite em que a me ps o cano da arma na prpria boca, puxou o gatilho, e 
matou a si prpria, e com isso soprou para longe as vidas dos dois filhos. Meg nunca se 
recuperou realmente. 

- Eu no sei, Meggie. A vov no dizia isso. - Mas dizer isso significava no dizer nada. 
Loraine sempre se fez de cega e surda aos muitos negcios do prprio marido e do filho, e 
s ofensas, e anos depois s coisas que Mick aprontava. Ela passou toda a vida negando. 
Parecia ser mais fcil fingir que tudo era maravilhoso. Especialmente quando no era. 

- Mas a vov no vivia com a gente naquela poca. Ela no sabia como eram as coisas. 
Nem voc sabia. Era muito pequeno. No se lembra. 

- Lembro o suficiente. - Levantou as mos e esfregou o rosto. Eles tiveram a mesma 
conversa antes e nunca resolveram nada. - O que importa agora? 

- Ele deixou de nos amar, Mick? 

Ele abaixou as mos e sentiu a nuca retesar. Por favor, pare, pensou. Lgrimas correram 
pelas faces de Meg. 

- Se ele ainda nos amava, por que ela o matou? Ele teve casos antes. De acordo com todo 
mundo nesta cidade, ele teve muitos casos. 

Mick andou na direo da irm e ps suas mos sobre os ombros do felpudo roupo cor-de-
rosa. 

- Esquea tudo isso. 


- Eu tento. Eu tentei ser como voc, e s vezes consigo, mas ... Por que nossa me no foi 
enterrada com o anel de casamento? 

A principal questo era: por que ela carregou a arma? Ela realmente teve inteno de matar 
algum ou apenas assustar e implicar com Loch e sua jovem amante? Quem saberia? 
Pensar sobre o assunto no tinha nenhum propsito, seno levar as pessoas  loucura. 

- Agora isso no importa. Nossa vida no est no passado, Meg. 

Meg respirou fundo: 

- Voc tem razo. Vou guardar o anel e esquecer tudo isso. - E chacoalhando a cabea 
justificou: 

-  que s vezes eu no consigo desligar. 

Mick a puxou para perto de si e a abraou forte. 

- Eu sei. 

- Fico com tanto medo. 

Ele tambm tinha medo. Medo de que a irm casse na mesma espiral descendente que 
havia atacado a me, e da qual ela no conseguira sair. Mick sempre quis saber se a me 
deu pelo menos um segundo de pensamento para ele e Meg. Se havia pensado na 
devastao e na perda que restariam cados no cho daquele bar. Quando carregou a arma 
naquela noite, no passou pela cabea que estava prestes a deixar seus filhos rfos ou que 
suas aes deixariam conseqncias com as quais os filhos teriam de viver? Enquanto ia 
para o Hennessy's, ser que no pensou neles, no se importou? 

- Voc tem tomado seus remdios? 

- Eles me deixam sonolenta. 

- Mas precisa tomar. - Mick recuou e olhou para ela. - Travis depende de voc. E eu 
tambm. 

Ela suspirou. 

- Voc no depende de mim, e Travis provavelmente ficaria em melhor situao sem mim. 

- Meg. - Ele olhou dentro dos olhos da irm. - Voc, mais que ningum, sabe que isso no  
verdade. 

- Eu sei. Ela afastou o cabelo do rosto. - Eu quis dizer que educar um menino  muito 
difcil. 

Tomara fosse mesmo isso que ela queria dizer. 

-  por isso que voc tem a mim. Ele sorriu, embora se sentisse dez anos mais velho que 
antes de entrar na casa. 

- Eu no a vou a lugar nenhum. Embora voc faa o pior bolo de carne do mundo. 

Meg sorriu e, como num passe de mgica, seu humor mudou. Como se algum tivesse 
entrado na cabea dela e apertado um boto. 

- Eu gosto do meu bolo de carne. 

- Eu sei. - Mick mexia os braos procurando as chaves no bolso.  Mas voc gosta de 
comida de mulheres antiquadas. - Meg cozinhava como a av. Como se cozinhasse um 
assado ou comida caseira num asilo para idosos. 

- Voc  mau - e  uma pssima influncia para o Travis. - Meg riu e apoiou os braos no 
peito dele. - Mas sempre consegue me fazer sentir melhor. 

- Boa noite - Mick despediu-se e foi se afastando em direo  porta. O ar fresco da noite 
resvalou seu rosto e pescoo enquanto andava at a caminhonete, e respirava fundo 
querendo logo se sentir melhor. Ele sempre conseguia tirar Meg daqueles pensamentos. 
Sempre. Mas sempre se sentia mal depois. Ela tinha um colapso, e quando acabava ficava 
bem. Parecendo nunca notar as pequenas partes despedaadas que deixava no curso de seus 


humores imprevisveis. Por ter estado fora por doze anos, ele quase se esquecera de como 
eram aquelas mudanas humores. s vezes Mick simplesmente desejava ter ficado longe. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 5 

 

Maddie pegou uma garrafa de refrigerante diet que estava sobre a escrivaninha e tirou a 
tampa. Tomou um grande gole... e devolveu a tampa. Naquela manh, logo que abriu os 
olhos soube como deveria comear o livro. Anteriormente abria cada um de seus livros com 
fatos horripilantes. 

Mas desta vez sentou-se e escreveu: 

 

- Prometo que desta vez ser diferente, baby. - Alice Jones olhou nos olhos de sua filha 
pequena, depois tornou a olhar para a estrada.  Voc vai adorar Truly.  como um 
pedao do cu! 

Baby no disse nada. f ouvira tudo aquilo antes. A mesma excitao na voz da me e as 
mesmas promessas de uma vida melhor. A nica coisa que sempre mudou foi o endereo. 

Como sempre, a menina queria acreditar na me. De fato, acreditava, mas acabara de 
completar cinco anos. Era madura o suficiente para entender que nada nunca 
melhorava. Sequer mudava. 

- Ns vamos morar em um lindo trailer. 

Baby descruzou os braos enquanto olhava pelo pra-brisa para fora do carro os 
pinheiros que zuniam quando passavam. Um trailer? Nunca tinham morado numa casa. 

- E tem um balano no jardim da frente. 

Um balano?Nunca tiveram um balano. Olhou para a me e viu a luz do sol batendo 
nos cabelos louros. A me parecia um anjo de carto de Natal. Como se devesse estar no 
topo de uma rvore de Natal, e Baby permitiu-se acreditar mais uma vez. Permitiu-se 
acreditar numa vida melhor, e por cinco meses foram melhores - at a noite em que uma 
esposa enfurecida fez uma srie de buracos de balas no corpo jovem de Alice Jones, e 
transformou o sonho num pesadelo. 

 

Maddie empurrou a cadeira de volta para perto da escrivaninha e se levantou. As mangas 
do pijama de algodo escorregaram para os cotovelos quando ela levantou os braos sobre a 
cabea e se espreguiou. Era pouco mais de meio-dia e ela no havia sequer tomado banho. 
Sua boa amiga Clare todos os dias tomava banho e se maquiava antes de se sentar para 
escrever. Maddie no. Claro, isso significava que de vez em quando ia atender a porta para 
receber uma encomenda parecendo um trapo. Coisa com a qual ela realmente no se 
preocupava. 

Entrou no chuveiro e pensou sobre o restante do dia. Tinha uma lista de nomes e endereos 
com as respectivas relaes com o caso. O primeiro item da lista era visitar uma mercearia, 
onde Carleen Dawson trabalhava. Carleen havia sido garonete no Hennessy's no mesmo 
tempo que sua me. Maddie queria marcar uma hora para entrevistar essa mulher e fazer 
um primeiro contato pessoalmente era melhor do que por telefone. 

Depois do banho, espalhou sobre a pele uma loo com perfume de amndoas, ps um 
vestido do tipo envelope e o amarrou na lateral da cintura. Prendeu os cabelos para trs da 
cabea, e aplicou um pouco de mscara nos clios e um batom vermelho. Calou sandlias 
vermelhas e colocou o notebook dentro da pequena pasta de couro. No que pretendesse 
usar qualquer coisa que estava dentro da pasta, mas isso daria a impresso certa. 

A mercearia ficava localizada a alguns quarteires da rua Main, prximo a um salo de 
beleza. Os gernios plantados em vasos e os toldos amarelos borrifavam cor na parte 
externa da loja. O interior estava apinhado com toda a sorte de coisas desde esparadrapos e 


vrias marcas de cido acetilsaliclico at esculturas de alces e de ursos, entalhados por 
artistas locais. Maddie perguntou no caixa onde encontraria Carleen e lhe apontaram para o 
corredor de lanches. 

- Voc  Carleen Dawson? perguntou a uma mulher pequena que usava uma blusa branca e 
avental azul e vermelho, e que estava inclinada sobre um carrinho de marshmallows e 
pipoca. 

A mulher endireitou-se e olhou para Maddie atravs dos culos de lentes bifocais. 

- Sou respondeu. 

- Ol, meu nome  Madeline Dupree e eu sou escritora. - Ela estendeu a Carleen um carto 
de visitas. - Voc poderia me dar alguns minutos do seu tempo? 

- Eu no estou horrio de descanso. 

- Eu gostaria de marcar um horrio em que voc esteja de folga. 

Carleen deu uma olhada no carto preto e prateado e depois, olhando novamente para 
Maddie perguntou: 

- Crimes reais? Voc escreve sobre crimes reais? Como Ann Rule? 

Aquela picareta... 

- Isso, exatamente. 

- No sei como eu poderia ajud-la. No temos assassinos em srie em Truly. Alguns anos 
atrs houve um caso em Boise, de uma mulher, que coisa horrvel! Voc acredita numa 
coisa dessas? 

De fato, Maddie acreditava, pois sua amiga Lucy havia sido a suspeita, e Maddie planejou 
escrever sobre violncia homicida a partir de ento. 

- Nada acontece por aqui - acrescentou Carleen, que em seguida colocou um saco de 
marshmallow na prateleira. 

- No estou escrevendo sobre assassinos em srie 

- Ento sobre o que est escrevendo? 

Maddie apertou com mais fora a pasta que tinha nas mos e ps a outra mo no bolso do 
vestido. 

- H vinte e nove anos voc trabalhava no Bar dos Hennessy quando Rose Hennessy atirou 
e matou o marido, uma garonete chamada Alice Jones, e em seguida apontou o revlver 
para sim mesma e atirou. 

Carleen tranqilizou-se. 

- Eu no estava l. 

- Eu sei. Voc j havia ido para casa descansar. 

- Isso aconteceu h tanto tempo... Por que voc quer escrever sobre isso? 

Por que  minha vida, pensou - Por que nem todas as histrias de crimes reais interessantes 
so sobre assassinos em srie. s vezes as melhores histrias so sobre pessoas comuns. 
Pessoas que parecem normais e que um dia surtaram e cometeram crimes horrveis. 

- Entendo. 

- Voc conhecia Alice Jones? 

- Sim, eu a conhecia. E tambm conhecia Rose, mas no acho que eu poderia falar sobre 
isso. Foi uma situao realmente triste e no se fala mais sobre isso h muito tempo. Ela 
devolveu o carto de visitas para Maddie. 

- Desculpe, eu no posso te ajudar. 

Maddie sabia quando pressionar e quando recuar. Por enquanto. 

- Bem, por favor, pense sobre o assunto. - Sorriu e manteve uma mo no bolso e a outra 
circundando a ala de sua pasta. - E se mudar de idia, me ligue. 


Carleen ps o carto dentro do avental azul e vermelho. 

- No vou mudar de idia. Algumas coisas tm que ficar enterradas no passado, assim  
melhor. 

Talvez, mas o que Carleen no sabia e descobriria era que Maddie dificilmente aceitava um 
- no como resposta. 

- No. Eu no posso ajud-la. 

Maddie permaneceu na varanda com paredes cheia de buracos na casa de Jewel Finley, 
uma segunda garonete que trabalhava no Hennessy's na poca da morte de Alice. 

- S vai levar alguns minutos. 

- Estou ocupada. - O cabelo de Jewel estava cheio de rolinhos cor-de-rosa e Maddie pensou 
ter sentido o cheiro de um tipo gel que se aplica antes de enrolar os cabelos. Meu Deus, 
esse tipo gel ainda existe? 

- Rose era uma boa amiga, eu no vou falar mal ela - Jewel disse.  O que aconteceu foi 
uma tragdia. No vou explorar o infortnio dela. 

O infortnio dela? 

- Meu propsito no  explorar ningum, mas contar todos os lados da histria. 

- Seu propsito  ganhar dinheiro. 

- Pode acreditar que h caminhos mais fceis de ganhar dinheiro.  Maddie sentiu o sangue 
ferver, mas foi sensata e se segurou. - Posso voltar em outra hora? 

- No. 

- Talvez quando voc no estiver to ocupada. 

- No vou falar com voc sobre Rose, e duvido que qualquer outra pessoa por aqui fale. Ela 
voltou para dentro da casa: 

- Adeus, disse e fechou a porta. 

Maddie deixou um carto de visitas espetado numa fenda da cerca da varanda, e andou na 
direo do carro, que estava estacionado em frente  casa. Maddie no aceitava - no como 
resposta, ela voltaria. 

 

* * * 

 

- Voc sabe quando ele volta? 

- Isso vai depender se os peixes estiverem mordendo a isca ou no. Amanh, se estiver 
ruim. Quem sabe, se vai estar bom? - Levana Potter olhou para o carto de visitas de 
Maddie. - Mas posso lhe dizer que ele se lembra de tudo o que aconteceu naquela noite. - A 
esposa do xerife aposentado olhou novamente para cima. - Isso ainda o persegue. - 
Encontrou Levana mexendo na floreira que ficava na frente da casa em estilo bem rural. A 
boa notcia era que muito provavelmente o xerife estaria disposto a conversar com Maddie. 
A notcia ruim era que a entrevista teria de esperar, a merc do lago de trutas. - A senhora 
conhecia as partes envolvidas? 

- Claro! - Levana ps o carto de visitas no bolso da camisa, depois colocou novamente a 
luva de jardinagem. - Os Hennessys moravam neste vale h vrias geraes. Eu no 
conhecia Alice muito bem. Conversei com ela apenas nas poucas vezes que ela veio  loja 
de sorvetes e presentes da qual eu era proprietria. Ela era muito bonita e aparentava ser um 
doce de pessoa... parecia mesmo um anjo... E tinha uma menininha, depois que Alice 
morreu, uma tia veio e a levou. No sei o que foi feito dela depois disso. 

Maddie sorriso um pouco. 

- A senhora se lembra do nome dela? 


Levana balanou a cabea e seu cabelo enrolado branco flutuou na brisa. 

- Meu Deus, no. Isso foi h vinte e nove anos, e eu a vi apenas umas poucas vezes. 
Imagine! s vezes acho difcil lembrar do meu prprio nome. 

- Alice morava no estacionamento de casas-trailer Parque Roundup. 

- No fao idia, s sei que a rea foi demolida violentamente anos atrs. 

- , eu sei. Mas no consigo encontrar nenhum registro das pessoas vivera l na mesma 
poca em que Alice e a filha viveram. Nos dirios dela, Alice mencionou vrias mulheres 
pelos primeiros nomes. - A senhora se lembra de uma mulher chamada Trina, que pode ter 
morado na porta ao lado de Alice? 

- Hmm... - Levana balanou a cabea. - Esse nome no me faz lembrar de nada. Bill saber 
- acrescentou referindo-se ao marido. - Ele se lembra de todos que viveram nesta cidade. Eu 
entregarei seu carto assim que ele voltar da pescaria. 

- Obrigada! Diga a ele que no estarei aqui na cidade amanh. 

- Vou dizer a ele, mas pode ser que seja apenas na semana que vem. 

No caminho de volta para casa, depois de sair da casa dos Potter, Maddie parou no 
armazm de secos e molhados, comprou um frango assado e um remdio para dor de 
cabea. Carleen foi precavida e no-cooperativa, e Jewel foi claramente hostil. Sua cabea 
latejava, estava frustrada pela ausncia de progressos, e tinha um impulso de pr algum de 
cabea para baixo. 

Com uma cesta azul balanando no brao, ela tomou lugar na fila do caixa nmero trs. Da 
prxima vez que falasse com Carleen e Jewel, tentaria uma ttica menos sria. Ela faria 
uma aproximao mais amigvel. Se no funcionasse, ela tentaria bem  maneira p no 
peito. 

- Eu vi voc na mercearia mais cedo - disse uma mulher na fila ao lado. 

Maddie a olhou enquanto colocava sua cesta na esteira rolante. 

- A senhora falou comigo? 

- Sim. - A mulher tinha cabelos escuros curtos e vestia uma camiseta com uma foto dos 
netos estampada na frente. - Carleen disse que voc estava perguntando sobre Rose e Loch 
Hennessy. 

Nossa! As notcias corriam nas cidades pequenas. 

-  isso mesmo. 

- Eu cresci com Rose e ela tinha alguns problemas, mas ela era uma boa pessoa. 

Alguns problemas.  isso que todos eles dizem por ter atirado em duas pessoas? Maddie 
chamaria isso de surto psictico. 

- Tenho certeza que sim. 

- Aquela garonetezinha recebeu o que mereceu por se meter com um homem casado. 

Cansada, frustrada e agora irritada, Maddie disse: 

- Ento a senhora acha que toda mulher que se envolve com um homem casado merece 
morrer no cho de uma sala de bar? 

A mulher colocou um pacote de batatas na esteira rolante na sua frente. 

- Bem, eu s quis dizer que se voc se meter com a mulher de outro homem, pode se 
machucar. Foi s isso. 

No, no foi s isso, mas Maddie foi sensata e segurou a lngua. 

 

Maddie jogou a pasta no sof e olhou para a foto de sua me sobre mesa de centro 
concluindo que sua primeira envestida havia sido uma perda de tempo. Chutou os sapatos 


para longe e virou a fotografia para baixo. No podia olhar o sorriso alegre da me depois 
daquele dia de fracassos. 

Descala, andou na direo da cozinha e procurou dentro do refrigerador a garrafa de 
merlot que abriu no dia anterior. Pensou melhor e preferiu uma vodca, tnica diet e um 
limo. Enquanto preparava o drink num copo alto, George Thorogood cantando I Drink 
Alone, lhe passou pela cabea. Talvez fosse a escritora dentro dela, mas o refro era 
redundante. Claro, quando se bebe sozinho voc bebe sem mais ningum. 

No momento em que jogou o gelo e a fatia de limo dentro do copo a campainha tocou. 
Maddie pegou o drinque e o levou aos lbios enquanto atravessava a sala de estar. 
Certamente no esperava ningum, e a pessoa do outro lado da porta era a ltima pessoa 
que esperava. 

 

Olhou pelo olho mgico e viu Mick Hennessy. Destrancou a fechadura, abriu a porta. O 
ltimo sol da tarde cortava uma das bochechas e um canto da boca de Mick. Ele vestia uma 
regata branca por baixo de uma camisa xadrez em dois tons de azul cujas mangas estavam 
dobradas acima da curva dos seus bceps. O azul plido do xadrez combinava com seus 
olhos e destacava sua pele bronzeada e os cabelos pretos como se ele tivesse sado de uma 
capa de revista, vendendo sexo e arrasando coraes. 

- Oi, Maddie - disse, e sua voz soou grave, mas baixa. Ele segurava um carto de visitas 
entre os dedos de uma das mos levantadas. 

Merda! A ltima coisa que precisava naquele dia era de um confronto com Mick. Tomou 
outro gole fortalecedor e esperou que ele comeasse a gritar. Em vez disso Mick lhe lanou 
um desconcertante sorriso forado. E segurando o carto de visitas na frente dela disse: 

- Eu disse que eu lhe daria o nome de um bom dedetizador. - O carto era branco e no 
preto, e tinha o desenho de um rato. 

Maddie no se deu conta de que se sentiu um tanto ansiosa at que o alvio a fez relaxar e 
sorrir. Pegou o carto. 

- Voc no precisava ter vindo aqui s para me entregar isso comentou. 

- Eu sei. - Ele entregou tambm uma caixa laranja e amarela que tinha inscrito Motel para 
Ratos 500. - Achei que voc poderia usar isso at que o dedetizador possa te atender.  
mais fcil do que ficar procurando uma carcaa fedorenta. 

- Obrigada. Nenhum homem jamais me deu um... ela parou e olhou para a caixa - motel 
para ratos. 

Ele gargalhou. 

- Eles tinham Motel para Ratos 200, mas achei que voc merecia a melhor. 

Maddie abriu um pouco mais a porta: 

- No quer entrar? - Contaria a ele a razo porque estava em Truly, mas no naquele 
momento. Ela simplesmente no tinha condies psicolgicas para um novo confronto. 

- No posso ficar muito tempo. - Mick ficou prximo dela, trazendo um perfume de 
sabonete de ar fresco da floresta. - Minha irm est me esperando para jantar. 

- Eu sempre quis ter uma irm. - Algum lugar onde passar as frias que no fosse a casa dos 
amigos. 

- Se conhecesse Meg, voc se consideraria uma pessoa de sorte. 

Maddie fechou a porta e foi para a sala de estar atrs dele. Tinha de admitir: era estranho t-
lo dentro de casa. No apenas porque ele era Mick Hennessy, mas porque h muito tempo 
ela no deixava um homem entrar em sua casa. Parecia que a energia mudava a carga 
sexual que estava no ar. 


- Por qu? 

- Meg pode ser... - sorriu e olhou a sala. - Uma cozinheira terrvel, - disse, mas Maddie teve 
a sensao de que no foi nisso que ele pensou  o tipo de cozinheira que pensa que  muito 
melhor do que realmente , o que significa que nunca vai melhorar. O olhar dele voltou -se 
novamente para ela, e ele apontou para o drinque que ela tinha na mo. - Dia ruim? 

- Sim. 

- Mais camundongos infestando suas barras de cereais? 

Ela balanou a cabea. Como se Mick lembrava disso? 

- O que houve? 

Maddie estava razoavelmente certa de que logo ele ouviria sobre isso. - Nada importante. 
Tem tempo para uma bebida? 

- Tem cerveja? 

- S cerveja sem carboidrato. 

Ele fez uma careta. - No me diga, voc conta carboidratos? 

-  claro! - Ela foi  cozinha e ele a seguiu. - Se no contasse, teria um traseiro enorme. - 
Olhou para trs e percebeu que o olhar atento dele deslizou pelas suas costas e parou no 
traseiro. 

- Voc me parece muito bem. 

- Exatamente. Como se ele tivesse o dia todo, seu olhar se voltou novamente para o rosto 
dela. - Tenho vodca, gim e usque. 

As plpebras de Mick se fecharam por um segundo, fazendo com que seus clios escuros 
parecessem muito longos. 

- Usque. 

Maddie abriu um armrio e ficou na ponta dos ps. Reconheceu aquela expresso nos olhos 
dele. Ela no fazia sexo h anos, mas se lembrava daquele olhar. 

- Eu pego - ele afirmou enquanto se aproximou de Maddie por trs e alcanou a prateleira 
mais alta. 

Maddie abaixou os calcanhares se virou. Mick estava to perto que se ela se inclinasse um 
pouquinho para frente seu nariz encostaria no queixo dele. A camisa aberta resvalou em 
seus seios, ela segurou a respirao. 

Ele a encarava enquanto segurava aquele copo meio fora de moda. 

- Aqui est - disse e deu um passo para trs. 

- Obrigada. - Ela contornou o corpo dele, abriu o freezer, e o ar frio fez bem para suas 
bochechas que haviam ficado quentes e coradas. Definitivamente isso no podia estar 
acontecendo. No com ele. Se ele fosse qualquer outro homem... 

- Voc  de ldaho? - ele perguntou encostando os quadris no balco e cruzando os braos. - 
Ou foi transplantada de outro lugar? 

- Nasci e cresci em Boise. - Exceto pelos cinco meses que havia vivido em Truly e os seis 
anos que havia vivido no Sul da Califrnia, na Universidade da Califrnia, em Los 
Angeles. Maddie jogou alguns cubos de gelo no copo. 

- Sua famlia vive em Boise? 

- Nunca conheci meu pai. - Fechou o freezer e ps o copo sobre o balco. - Fui criada por 
uma tia que faleceu h alguns meses. 

- E sua me, onde est? 

- Morreu quando eu era pequena. - Maddie se curvou e pegou a garrafa de usque que 
estava no armrio de bebidas. 

- Sinto muito. 


- Eu raramente me lembro dela. Esperou que Mick dissesse algo sobre ter perdido os pais 
quando era garoto, mas ele continuou em silncio, ela se virou e o serviu da bebida. - 
Desculpe. No  dos melhores. 

- No entanto, a companhia  a melhor. 

- Como assim? Voc nem me conhece... 

Ele ps a garrafa sobre o balco e levou o copo  boca. 

- Est a, essa  uma das coisas que gosto em voc. - Mick deu um gole e depois 
acrescentou: - Eu no me sentei perto de voc na segunda srie. Sua irm no era amiga da 
minha irm e sua me no era a melhor amiga da minha me. 

No, mas elas foram timas amigas do seu pai - Maddie pensou. 

- Tanya no foi criada por aqui. 

- Verdade, mas ela  muito tensa. No consegue relaxar simplesmente e se divertir. - Ele 
baixou o copo olhou para a sala de estar e falou: - Esta  uma das casas mais antigas do 
lago. 

- O corretor de imveis me disse que foi constru da nos anos quarenta. 

Ele se inclinou para frente e olhou para o hall que levava ao banheiro e aos quartos. 

- Parece diferente da ltima vez que estive aqui. 

- Disseram que a cozinha e os banheiros foram reformados no ano passado. - Maddie tomou 
um gole. - Quando esteve aqui pela ltima vez? 

- Nem sei... - Mick endireitou o corpo e olhou para o rosto dela.  Eu tinha provavelmente 
quinze anos... Faz uns vinte anos. 

- Voc tinha um amigo que morava aqui? 

- Poderia dizer que sim. Embora eu no saiba se chamaria Brandy Green de amigo. - Um 
sorriso brotou de um dos cantos da boca sensual, quando ele disse: - Os pais dela estavam 
num rodeio no Oregon... 

- E voc teve o seu rodeio particular? 

O sorrisinho virou um sorriso travesso. 

- Pode-se dizer que sim. 

Maddie franziu as sobrancelhas. 

- Que quarto era o de Brandy? - Provavelmente ele entalhou as iniciais na viga do teto. 

- No sei dizer. - Mick mexeu no gelo dentro do copo. - Passvamos a maior parte do 
tempo no quarto dos pais dela. A cama era maior. 

- Meu Deus! Ento voc transou no meu quarto! - Ela ps a mo sobre o peito. - Eu ainda 
no transei naquele quarto. - No exato momento em que deixou escapar aquela frase, 
Maddie desejou que o cho se abrisse e que sumisse dentro dele. No era freqente dizer 
coisas que a embaraassem, e ela odiava quando isso acontecia. Especialmente quando seu 
interlocutor ficava vermelho de tanto rir. - No  engraado. 

-  sim. - Depois de alguns segundos de risadas, ele disse: - Docinho, podemos resolver 
esse problema agora mesmo. 

Se a oferta dele tivesse sentido, por pouco que fosse ameaadora ou bajuladora, ela o teria 
chutado para fora. Mas em vez disso, foi simples e honesta e a fez sorrir mesmo sem 
querer. 

- No, obrigada. 

- Tem certeza? - Mick tomou outro gole e ps o copo no balco. 

- Absoluta. 


- Hoje em dia estou bem melhor nessas coisas que na ltima vez em que estive nesta casa. - 
O sorriso dele estava cheio de uma mistura irresistvel de charme, confiana e puro pecado. 
- Eu pratiquei bastante desde aquela poca. 

Maddie no teve nenhuma prtica ultimamente. Lembrou disso quando sentiu um aperto no 
peito e uma sensao quente no estmago. Mick era o ltimo homem sobre a terra por 
quem ela deveria sair da sua abstinncia sexual. A cabea sabia perfeitamente disso, mas o 
corpo parecia no se importar. 

Ele pegou a mo de Maddie e acariciou-a. 

- Voc sabe do que mais eu gosto em voc? 

- Do meu usque? - Mick negou com um gesto de cabea. 

- Do fato de eu no querer casar de branco, nem ter aquela cerca de estacas ao redor da 
minha casa e um reprodutor dentro dela? 

- Alm disso... ele sussurrou puxando-a na sua direo, - voc tem um cheiro bom. 

Maddie deixou o copo sobre o balco e pensou na loo que usou mais cedo. 

Mick levantou a mo dela e sentiu o perfume na parte de dentro do pulso. 

- Cerejas talvez? 

- No, amndoa. 

- Ontem era chocolate. Hoje  amndoa. Isso me faz pensar em que perfume vai usar 
amanh. - Ele ps a mo dela sobre o seu ombro. 

- Pssegos, provavelmente. 

Ele afastou para trs os cabelos que cobriam parte do rosto de Maddie, e baixou o rosto 
tocando-lhe o pescoo com a ponta do nariz. 

- Eu gosto de pssegos... Acho que tanto quanto gosto de chocolate e amndoa. Voc me 
deixa com fome. 

Ela conhecia aquela sensao. 

- Talvez deva se apressar para ir para a casa da sua irm e comer ervilhas de caarola. - 
Maddie sentiu o sorriso dele encostando na sua pele, e em seguida ele beijou seu pescoo 
perfumado. 

Um arrepio percorreu a espinha de Maddie e sua cabea pendeu para o lado. Ela precisava 
interromper aquilo... Mas no agora. Daqui a um minuto... 

- Talvez eu simplesmente deva comer voc. 

Os olhos dela se fecharam. Sabia que estava em apuros. Isso no podia estar acontecendo. 
Mick Hennessy no podia estar na casa dela falando aquelas coisas e lhe trazendo maus 
pensamentos sobre por onde deviam comear. 

- Sabe o que eu faria com voc se tivesse mais tempo? - As mos msculas seguraram sua 
cintura e ele a puxou contra si. Maddie sentiu um grande volume sob a braguilha dele, e 
pde entender exatamente o que ele faria. 

Maddie engoliu seco quando ele lhe mordeu de leve o lbulo da orelha. 

- Eu tentaria dar outra olhada no quarto de casal? - Mick levantou a cabea e os sensuais 
olhos azuis pareciam lnguidos de desejo. - Quem precisa de quarto? 

De fato, quem precisava de quarto. A mo de Maddie escorregou pelo ombro dele e para o 
pescoo. Talvez tenha sido um erro ficar sem sexo por tanto tempo. O toque do corpo 
musculoso era to incrvel que no queria que ele parasse. Mas tinha de parar, claro, em um 
minuto... 

- Voc  uma mulher maravilhosa, Maddie. - Ele passou levemente os lbios sobre os dela. 
- Se eu tivesse mais tempo, desamarraria o seu vestido... 

- Eu posso desamarrar o meu vestido sozinha Maddie provocou. 


Num dos cantos da boca dele formou-se um sorrisinho. 

- Vai ser mais divertido se eu fizer isso. - Em seguida Mick a beijou. A lngua com sabor de 
usque e desejo penetrou na boca molhada e deliciosa de Maddie. Uma sensao quente 
levou umidade entre as coxas dela, que passou a mo livre pelo trax bem moldado de 
Mick e sentiu os contornos firmes de seu peito. Fazia tanto tempo... Tanto tempo que ela 
no tocava um homem como ele. Desde que sentiu a pele arrepiar e enrijecer, quis faz-lo 
tirar a roupa e sentir o toque da pele nua. Fazia muito tempo. Em parte porque ela havia 
desistido disso, e em parte porque nenhum homem a havia atrado tanto quanto Mick. 

As mos dele escorregaram pelas laterais da cintura dela. Seu toque se intensificou e os 
polegares pressionaram o estmago dela, pouco abaixo dos seios. Mick inclinou a cabea e 
sua lngua quente e hbil penetrou levemente na boca de Maddie. Os dedos dela se 
enroscavam nos cabelos dele, e ela pressionou seu prprio corpo contra o corpo msculo, 
fazendo com que o peito firme se apertasse contra os mamilos dela. As coisas estavam 
fugindo rapidamente do controle. Um ciclone rodopiante de prazer, negado por tanto 
tempo, se formando no seu cerne e traando seu caminho para o seu exterior. Crescendo e 
ameaando domin-la. 

Maddie recuou. 

- Pare! 

Ele parecia to atordoado quanto ela. 

- Por qu? 

- Porque... - Ela respirou fundo e deixou o ar sair lentamente. Porque voc no sabe quem 
eu sou e quando descobrir vai me odiar, pensou. 

- Porque voc precisa ir jantar com a sua irm. 

Mick chegou a abrir a boca para argumentar, mas em seguida suas sobrancelhas baixaram 
como se tivesse esquecido. 

- Droga! O toque dele a apertou por alguns segundos antes que ele desse um passo para trs 
e deixasse suas mos carem para os lados. - Eu no pretendia comear algo que no 
pudesse terminar. 

- Eu no pretendia comear absolutamente nada. - Maddie tocou de leve os lbios para se 
certificar de que estavam secos. Precisava contar a verdade para Mick. Antes que soubesse 
por outra pessoa na cidade.  Definitivamente no  uma boa idia. 

- Voc est errada quanto a isso. Mick pegou a mo dela e a puxou para perto de si em 
direo  porta da frente. - A nica coisa errada aqui  o meu horrio. 

- Mas voc no me conhece - protestou enquanto se movia para perto dele e na direo da 
porta de entrada. 

- Qual  a pressa? - Ele abriu a porta, mas parou na soleira. Olhou para o rosto dela e 
deixou escapar um suspiro. - Ok, o que eu preciso saber? 

Maddie atemorizou-se. Ou antes, decidiu que contar enquanto seu corpo ainda ansiava pelo 
corpo dele no seria a melhor idia. Em vez disso, escolheu outro caminho. 

- Eu sou meio... abstinente sexual. 

- Meio? - Mick olhou para o rosto dela. - Como se pode ser meio abstinente sexual? 

- Eu simplesmente no transo com um homem h muito tempo. 

As sobrancelhas de Mick se arquearam e ele perguntou: 

- Voc  lsbica? 

- Claro que no! 

- Eu no pensei que fosse. Voc no beija como uma lsbica. 

- Como voc sabe? 


Num um minuto Maddie estava olhando para os olhos azuis e no minuto seguinte estava 
novamente agarrada ao corpo dele. Os lbios dele fecharam-se sobre os dela em beijos to 
intensos que ela sentiu seus joelhos dobrarem. Mick voraz, roubou-lhe quase todo o 
oxignio e a deixou tonta. Deus, ela no podia respirar nem pensar. Estava prestes a 
sucumbir naquele prazer. Ele soltou-a e Maddie recuou at o batente da porta. 

-  por isso que eu sei - ele sentenciou. 

- Meu Deus, voc parece um tornado - Maddie murmurou ofegante. Tocou os lbios 
superiores com os dedos. Sua boca estava entorpecida.  Devorando tudo em volta de voc. 

- Tudo no. - Ele saiu pela porta e na varanda,  luz do sol, acrescentou: 

- Ainda no. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 6 

 

Maddie mantinha os braos levantados enquanto Nan, a costureira, prendia com um alfinete 
o cetim cor de pssego. As outras duas damas de honra estavam do seu lado em vrios 
graus de nudez enquanto eram alfinetadas e cutucadas. 

- Voc me deve esta - disse  amiga Clare, a enrubescida noiva prestes a se casar. Maddie 
havia chegado naquela manh e planejara sair com as amigas antes de voltar para Truly no 
dia seguinte. 

- Veja de outro modo - Clare aparteou. - Pelo menos os vestidos no so to enfeitados 
quanto aqueles que a Lucy nos obrigou a vestir no casamento dela. 

- Como assim? Eles eram lindos! - Lucy protestou, defendendo sua escolha, enquanto uma 
segunda costureira marcava a bainha do seu vestido. 

- Parecia que tnhamos fugido de um baile de debutantes - Adele argumentou. 

Ela segurava o cabelo denso e encaracolado para cima, enquanto uma mulher alfinetava a 
parte de trs do seu vestido. - Mas eu vi piores. Minha prima Jolene fez suas damas de 
honra usarem uma roupa que parecia ter sido feita com pano de cortina. 

Clare, a responsvel pelo gosto delicado, ofegava. 

- Um pano grosso com as estampas de pastoreio que a gente v em cadeiras e papis de 
parede? - Maddie perguntou. 

- Exatamente. Elas pareciam sofs. Especialmente a amiga de Jolene que era um pouco 
mais gordinha que as outras garotas. 

- Isso  triste! - Lucy virou-se para que a costureira pudesse trabalhar na parte de trs da 
bainha. 

- Criminoso! Adele acrescentou. - Algumas coisas deviam simplesmente ser proibidas. Ou 
pelo menos, deveria haver algum tipo de reparao a quem colocasse pessoas em estresse 
emocional. 

- O que o Dwayne fez agora? - Clare perguntou, referindo-se ao velho namorado de Adele. 

Por dois anos Adele vinha se encontrando com Dwayne Larkin e chegou a pensar que seria 
a sra. Larkin. Ela faria vista grossa aos hbitos mais indesejveis dele, como sentir o cheiro 
das axilas das camisas antes de vesti-las. Mas quando ele disse que ela estava ficando com 
uma - bunda gorda, como a me, ela o chutou para fora de sua vida. Ningum usava o 
palavro  gorda em relao ao seu traseiro, porque isso insultaria sua falecida mezinha. 
Mas Dwayne no foi embora completamente. A cada poucas semanas, Adele, encontrava 
na varanda um ou dois presentes que ela havia dado a ele, ou alguma coisa que havia 
deixado na casa dele. As coisas simplesmente apareciam ali. Sem bilhete. Sem Dwayne. 
Apenas coisas completamente ao acaso. 

- No aniversrio, eu dei a ele uma edio limitada do Darth Vader.  Adele baixou as mos 
e os densos cabelos loiros lhe caram nas costas. Se abrisse um presente de aniversrio e 
encontrasse um Darth Vader, edio limitada ou no, ela ficaria razoavelmente irritada. No 
entanto, no se devia tomar qualquer tipo de caminho violento levianamente. - Voc precisa 
arrumar um sistema de alarme. Ainda tem aquele revlver de atordoamento que eu te dei? 

Adele ficou parada enquanto a costureira media a circunferncia de seu brao. 

- Est em algum lugar, respondeu. 

- Voc precisa encontr-lo e encostar aquilo nele. - Nan passou a mexer no corpete de 
Maddie e ela pde abaixar os braos. - Ou, melhor ainda, deixe-me te dar uma arma de 
eletrochoque como a minha. Assim voc pode dar um choque de cinqenta mil volts no 
traseiro dele. 


Sem mover o corpo, Adele virou a cabea e olhou para Maddie como se ela fosse louca. 

- Isso no o mataria?, perguntou. 

Maddie pensou por um momento e inquiriu. 

- Ele tem alguma cardiopatia? 

- Acho que no. 

- Ento no mataria, no - Maddie respondeu. Nan deu um passo para trs para olhar o 
desenvolvimento do seu trabalho. - Contudo, ele vai entrar em convulso como se estivesse 
morrendo. 

A boca de Adele e a de Clare se abriram como se elas estivessem em choque, como se 
tivessem perdido parte da conscincia que lhes restava, mas Lucy aprovou. Ela havia lutado 
por sua vida contra um assassino em srie e sabia da importncia dos equipamentos de 
segurana pessoal. 

- E quando voc conseguir que ele fique no cho, encharque-o com spray de pimenta. 

- Dwayne  um idiota, mas no  violento. Adele sentenciou.  Embora ver o Darth Vader 
me lembre alguma coisa horrvel. 

- O qu? - Se Dwayne tivesse batido em Adele alguma vez, a prpria Maddie o caaria e 
acabaria com ele. 

- Ele est com a roupa da minha Princesa Lia escrava. 

Clare pulou para o canto do sof. 

- Voc tem uma roupa de escrava? 

Maddie s conseguia pensar em uma pergunta: 

- Voc est me gozando? 

Lucy tinha duas: 

- O que  isso? Voc est querendo dizer um biquni de metal? Como se um biquni de 
escrava de metal fosse uma parte normal do guarda-roupa de uma mulher, Adele 
confirmou: - Sim. E eu realmente gostaria de peg-lo de volta inteiro. - Pensou por um 
momento e depois acrescentou: 

- Bem, em duas peas... mais as faixas do brao e a coleira. Ela deve ter notado as 
expresses das amigas de horrorizadas e preocupadas, porque continuou: 

- Hei, eu gastei muito dinheiro naquela fantasia e a quero de volta. - A costureira se afastou 
para anotar uma medida e Adele cruzou os braos sob os seios. - No me digam que vocs 
nunca tiveram uma fantasia, garotas? 

Lucy balanou a cabea negativamente. 

- No, mas costumava fingir que um velho namorado era Jude Law. Mas como ele no 
sabia, ento acho que isso no conta. 

Clare, que sempre tentava fazer com que todo mundo se sentisse melhor, disse: 

- Bem, eu disse ao Sebastian uma vez que tinha trajes especiais e algemas. - Ela voltou a se 
sentar no sof. - Mas eu menti. Sinto muito. 

Maddie olhou para as trs costureiras para ver as reaes delas. Pareciam to impassveis 
quanto professores de escola dominical. Elas provavelmente j ouviram coisas muito 
piores. Ela voltou seu olhar para Adele, que com a cabea inclinada para um lado parecia 
esperar alguma coisa. 

- O que foi? - Maddie perguntou. 

- Eu sei que voc fez coisas perversas. 

Em geral Maddie era s conversa. 

- Eu nunca me vesti de nada. - Pensou por um momento e num esforo para acalmar Adele 
confessou: 


- Mas se isso te faz sentir melhor, j fui amarrada. 

- Eu tambm. 

- Claro. 

- Muito legal. - Adele no parecia apaziguada.  Todo mundo j foi amarrado. 

-  verdade - disse Nan, a costureira. Ela arrancou um alfinete da almofada cheia deles que 
estava atada ao seu pulso e olhou para Adele. - E se isso te faz se sentir melhor, de vez em 
quando eu me visto como Chapeuzinho Vermelho. 

- Obrigada, Nan. 

- De nada. - Ela fez um movimento de giro com o dedo e disse: -Vire, por favor. 

Depois que as damas de honra terminaram a prova, as quatro amigas foram almoar no 
restaurante favorito. Um restaurante mexicano que no tinha exatamente a melhor comida 
mexicana da cidade, mas com certeza tinha as melhores jarras de margaritas. Conversaram 
por horas a fio, a fim de tirar o atraso do longo tempo que ficaram sem se encontrar. 
Falaram sobre o casamento de Clare, sobre os planos de Lucy de comear uma famlia com 
o marido maravilhoso, Quinn. E queriam ouvir tudo sobre a nova vida de Maddie, que 
estava vivendo a cento e sessenta quilmetros ao norte, em Truly. 

- De fato, no  to ruim quanto pensei que seria - ela admitiu enquanto levava a bebida  
boca. -  muito bonito e silencioso... Bem, exceto no Quatro de Julho. Metade das mulheres 
da cidade tem cabelos muito feios, e a outra metade delas parece tima. Estou tentando 
descobrir se  uma coisa de nativas versus mulheres de fora, mas at agora no descobri. 
Ela encolheu os ombros. - Pensei que ficar tanto tempo trancada em casa me deixaria louca, 
mas at que no. 

- Voc sabe que eu te amo - Lucy disse, e isso sempre era seguido por um - mas. - Mas 
voc j  completamente louca, no podia ficar pior. 

Provavelmente era verdade. 

- Como est o livro? - Clare perguntou quando uma garonete trouxe a comida. 

- Lento. - Maddie pediu uma salada de frango com torrada. Apanhou o garfo logo que a 
garonete saiu. Ela havia falado dos seus planos de escrever sobre a morte da me para as 
amigas poucas semanas antes. Muito tempo depois de ter encontrado os dirios da me e 
comprado a casa em Truly. 

- Encontrou os Hennessys? - Adele perguntou enquanto enchia a tortilla apimentada de 
queijo e creme azedo. Adele malhava todos os dias, por isso podia comer o que quisesse. 
Maddie, por outro lado, odiava ir a academia. 

- Eu encontrei o Mick e o sobrinho dele, Travis. 

- E qual foi a reao desse Mick ao livro que voc pretende escrever? 

- Ele no sabe. - Maddie deu uma garfada da salada, e continuou: - Ainda no encontrei o 
momento certo para conversar com ele sobre isso. 

- Lucy perguntou cnica - Sobre o que voc conversou com ele? 

- Principalmente sobre camundongos. 

- Espere. - Adele levantou uma das mos. - Ele sabe quem voc , quem foi sua me, e 
simplesmente quer conversar sobre camundongos? 

- Eu no disse a ele quem eu sou. Todas as trs amigas interromperam o almoo para olh-
la fixamente. - Enquanto ele estava trabalhando no bar ou enquanto todo mundo estava em 
p num churrasco, no conseguiu dizer a ele Meu nome  Maddie Jones e a sua me matou 
a minha? 

As amigas concordaram balanando a cabea e voltaram aos seus pratos. 


- E ontem tambm foi um momento ruim. Tive um dia ruim. Ele foi legal e me trouxe um 
motel para ratos e depois me beijou. - Maddie espetou um pedao de frango e outro de 
abacate. - Depois disso, vocs podem imaginar, eu simplesmente esqueci. 

Todas pararam novamente. 

- Para roubar a sua frase preferida - Lucy disse: voc est brincando? 

Maddie negou balanando a cabea. Talvez ela devesse ter mantido a boca fechada. Mas j 
era tarde. 

Olhou para o lado e viu Clare levantar a mo. 

- Espere. Me explique uma coisa... 

- Sim? - Maddie respondeu o que pensou ser a prxima questo lgica. Aquela que ela 
mesma teria feito. - Ele  realmente quente, muito bom. Minhas coxas se incendiaram. 

- No era essa a pergunta. - Clare olhou em torno, como sempre costumava fazer quando 
pensava que Maddie estava sendo inapropriada em um lugar pblico. - Voc se atracou 
com Mick Hennessy e ele no tem a mnima idia de quem voc ? O que voc acha que 
vai acontecer quando ele descobrir? 

- Acho que ele vai ficar realmente irritado. 

Clare foi adiante. 

- Voc acha? 

- Eu no o conheo bem o suficiente para prever como ele vai se sentir. - Mas Maddie 
conhecia. Sabia que ele ficaria zangado, e sabia que mereceria isso. Embora, para ser justa 
consigo mesma, ainda no houvera mesmo um bom momento para contar-lhe a verdade. E 
no foi.ela quem o procurou e o beijou, o deixou sem ar. Mick fez tudo aquilo, no ela. 

- Quando voc contar a verdade, tenha certeza de que ter a arma de eletrochoque consigo - 
Lucy aconselhou. 

- Ele no  um cara violento. No vou precisar descarregar nenhum choque nele. 

- Voc no o conhece. - Adele apontou para Maddie com o garfo e mostrou o bvio. - A 
me dele matou a sua. 

- E como voc est sempre nos mostrando,  com as pessoas que tm imagem saudvel que 
devemos tomar cuidado - Clare lembrou. 

- Sem aparelhos de defesa pessoal, somos todas vtimas indefesas. Lucy riu e levantou o 
copo. 

- Afinal de contas, porque  que eu gosto tanto de vocs mesmo?  Talvez porque as trs 
amigas fossem as nicas pessoas que se importavam com ela. - Eu vou dizer tudo para ele. 
S estou procurando o melhor momento. 

Clare inclinou-se at o encosto da cadeira. 

- Oh, meu Deus! 

- O qu foi? 

- Voc est com medo! 

Maddie pegou sua margarita e tomou um grande gole 

Eu diria que estou um pouco apreensiva. Ela colocou a mo quente sobre a o rosto. - Eu no 
estou com medo de nada. 

 

Mick usava um par de culos de sol com armao de metal preta lentes de alta resoluo 
azuis espelhadas para proteger os olhos do sol baixo e incmodo das seis horas da tarde. 

Enquanto andava pelo estacionamento da escola, olhou firmemente para o jogador com a 
camiseta azul do Hennessy's de nmero doze e para o capacete vermelho do batedor. Esteve 


ocupado com os livros do bar e fazendo pedidos de cerveja e outras bebidas aos 
distribuidores, o que o fez perder a primeira parte do jogo. 

- Vamos l, Travis! - Gritou e se sentou na fila mais baixa da arquibancada descoberta. 
Inclinou-se para frente e colocou os antebraos sobre as coxas. 

Travis descansava o basto no ombro enquanto aproximava a melhor de trs. Ele balanou 
o corpo vrias vezes como o treinador havia ensinado. Ele chegou na posio perfeita do 
batedor, balanou e errou completamente. 

- Tudo bem, cara! - Mick gritou. 

- Na prxima voc consegue, Travis! - Meg gritou da fileira do topo, onde havia se sentado 
para ficar perto das amigas e mes dos colegas de Travis. 

Mick olhou para a irm e depois se virou para o outro lado e olhou o placar. O jantar da 
noite anterior na casa dela havia sido muito bom. Ela fez fil e batatas cozidas, e se mostrou 
a Meg divertida e amvel que a maioria das pessoas conhecia. Apesar disso ele no queria 
estar l, e passou o tempo todo pensando nisso. Queria estar do outro lado da cidade. Na 
casa prxima ao lago com uma mulher de quem ele no sabia nada. Queria ficar falando 
sobre os camundongos, sentindo o perfume no pescoo dela. 

Maddie Dupree tinha alguma coisa que o impressionava. Alguma coisa alm de um belo 
rosto, um corpo quente e uma pele perfumada. Alguma coisa que o levava a pensar nela 
enquanto devia estar pensando em outras coisas. E que o distraa enquanto procurava os 
erros no sistema de contagem do bar. 

Mais uma vez Travis foi  posio do batedor, balanou... e desta vez acertou e mandou a 
bola entre a segunda e a terceira base. Jogou o basto no cho e correu para a primeira. Seu 
capacete ia para trs e para frente enquanto ele corria. A bola bateu com fora e rolou perto 
do jogador fora do quadrado, que saiu em seguida. O juiz da primeira base incitou Travis a 
continuar, e ele continuou por todo o caminho at a terceira base antes que o jogador fora 
do quadrado pegasse a bola e a jogasse para longe. Travis conseguiu tirar novamente e fez 
um belo deslizamento para dentro da casa enquanto o jogador que ocupava o campo 
externo e o segundo homem da base lutavam pela bola. 

Mick gritou para chamar a ateno de Travis e lhe mostrou os polegares para cima num 
sinal de aprovao. Extremamente orgulhoso como se fosse o pai do menino e no apenas o 
tio. Por enquanto ele era a nica figura masculina na vida de Travis, que no via o pai h 
cinco anos, e Meg sequer sabia por onde ele andava. Ou, muito provavelmente, no queria 
saber onde aquele malandro estava. Mick encontrou Gavin Black apenas uma vez, no 
casamento de Meg. E num nico olhar conseguiu classific-lo como um homem fracassado, 
e acertou. 

Travis esfregou as mos nas calas e passou o capacete para o treinador. Cumprimentou os 
colegas, e foi se sentar no banco do time. Deu uma olhada para Mick e sorriu satisfeito, 
mostrando uma pequena sombra preta na boca que era vestgio do nico dente perdido. 

Mick colocou as mos nos joelhos enquanto o prximo batedor bateu para fora e a equipe 
de Travis entrou em campo. A melhor coisa para Travis e Meg seria que ela encontrasse um 
homem digno de confiana. Algum que fosse bom para ela e para Travis. Algum estvel. 

Ele amava Travis e sempre cuidaria dele. Da mesma forma que tomava conta de Meg 
quando eram crianas. Mas agora Mick estava cansado. Parecia que quanto mais tempo ele 
dava a ela, mais ela queria. Dali a algum tempo ela se tornaria como a av, e ele ficou longe 
de Truly por doze anos para ficar longe de Loraine. Tinha medo de que Meg se tornasse 
muito dependente dele. Isso seria muito ruim. Depois de uma vida de perturbao, quer 
quando criana ou quando viveu em zonas de guerra, ele queria um pouco de paz e 


tranqilidade. Claro, dentro dos limites de paz e tranqilidade de pudesse ter sendo 
proprietrio de dois bares. 

Mick levantou -se e foi  gaiola do batedor para dar uma olhada melhor em Travis 
sobressaindo-se no centro do campo com sua luva, que ele segurava no ar como se 
esperasse que uma bola casse do cu. 

O beijo que deu em Maddie no dia anterior no foi planejado. Ele iria apenas levar o carto 
do dedetizador e aquele motel para ratos, e planejava sair em seguida. Mas no momento em 
que ela abriu a porta, seus planos caram por terra. Aquele vestido preto que ela usava 
colado nas curvas sensuais, fizeram com que ele s conseguisse pensar em desamarr-lo, 
Puxar as tiras e desembrulh-la, como um presente de aniversrio. Para tocar e sentir o 
gosto dela inteira. Ele levantou as mos e agarrou a grade de proteo que estava a sua 
frente. No dia anterior a falta de tempo atrapalhou tudo, mas no fundo ele tinha certeza: iria 
beijar Maddie novamente. 

- Ol, Mick. 

Ele olhou para trs e viu Jewel Finley andar na sua direo. Jewel foi amiga da sua me, 
que tinha dois filhos gmeos detestveis, Scoot e Wes, e uma menina chorona e se queixava 
de tudo, chamada Belinda, a quem todo mundo chamava de Boo. Na infncia, Mick havia 
atingido Boo com uma bolinha de papel, e ela reagiu como se tivesse sido mortalmente 
ferida. Meg dizia que atualmente Belinda no era totalmente chorona, mas que os gmeos 
continuavam detestveis como sempre. 

- Ol, sra. Finley. Algum neto da senhora est jogando hoje? 

Jewel apontou em direo ao banco oposto. 

- Tenho, o Frankie, filho da minha filha est jogando fora do quadrado para o time 
patrocinado pela empresa de seguros. 

Ah... O menino que jogava como menina, sups. 

- Por onde andam Scoot e Wes? -- Mick perguntou por educao, e no porque se 
importasse realmente. 

- Bem, depois que a fazenda de pesca faliu, eles tiraram carteira de motorista profissional e 
agora dirigem aqueles caminhes grandes para uma companhia de mudanas. 

Mick voltou a ateno para o campo e para Travis, que estava jogando a luva para o ar e 
pegando, completamente distrado. 

- Para qual companhia eles esto trabalhando? - Se tivesse que se mudar, iria querer saber 
qual companhia no chamar. 

- Para a Idaho Mudanas e Guarda-Mveis. Mas eles j esto ficando cansados dos 
carretos, porque so muito longos. Esto pensando em economizar algum dinheiro para 
comear um negcio prprio de transporte de casas pr-fabricadas. Como aqueles que 
aparecem na tev. 

Mick imaginou que levaria menos de um ano de trabalho para que os gmeos falissem. 
Afinal aqueles dois no eram os homens mais brilhantes da cidade, e pensar isso  uma 
maneira muito generosa de se lembrar deles. 

- O transporte de casas pr-fabricadas deve render um bom dinheiro. 

-  verdade... - confirmou enquanto pensava que teria de falar com Travis para que ele 
prestasse mais ateno no jogo. 

- Acho que at uns cinqenta mil dlares por ms. Isso foi o que o Scooter disse. 

- Verdade... - Meu Deus. Agora o garoto estava completamente de costas para o jogo 
olhando os carros que passavam na rua. 

- Voc j falou com a escritora? 


Certamente ele no gritaria para o Travis prestar ateno no jogo, mas teve vontade. 

- Que escritora? 

- A escritora que est escrevendo um livro sobre seus pais e a garonete, Alice Jones... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 7 

 

Maddie jogou a bolsa de festa sobre a cama e a abriu. Estava com uma leve dor de cabea, 
e no tinha certeza se foi causada pela falta de sono, por ter bebido alm da conta com 
Adele ou ainda por ter ouvido os conselhos das amigas para sua vida amorosa em 
frangalhos. 

Depois do almoo no restaurante mexicano, ela e Adele voltaram para sua casa em Boise 
para pr a conversa em dia. Adele sempre tinha algumas histrias bem engraadas sobre 
sua vida amorosa, embora algumas vezes ela no achasse que suas aventuras fossem assim 
to divertidas, e como boa amiga que era, Maddie ouvia e servia vinho. Fazia muito tempo 
que Maddie no era capaz de dividir suas prprias histrias amorosas engraadas e 
divertidas, por isso na maior parte das vezes ela apenas ouvia e oferecia um conselho aqui e 
outro ali. 

Antes de deixar Boise, Maddie convidou Adele para passar o final de semana seguinte com 
ela em Truly. Adele aceitou o convite e, conhecendo a amiga, Maddie tinha certeza de que 
teria vrias outras histrias de seus encontros para compartilhar. 

Maddie tirou as roupas sujas da sacola e as jogou no cesto. Havia passado um pouco do 
meio dia e estava faminta. Comeu um peito de frango e alguns legumes com cream cheese 
enquanto checava e respondia suas mensagens de e-mail. Checou a secretria eletrnica, 
mas havia apenas uma mensagem do limpador de carpete. Nenhuma notcia do xerife 
Potter. 

Mais tarde planejava encontrar Mick e lhe contar quem ela era na verdade e por que estava 
na cidade. Era a coisa certa a fazer, e queria que ele ouvisse isso da sua prpria boca e no 
de terceiros. Imaginou que o encontraria em um dos bares, e esperava que ele estivesse 
trabalhando no Morts naquela noite. E na verdade no ansiava nem um pouco em entrar no 
Hennessys, embora soubesse que teria de fazer isso em algum momento. Nunca esteve 
dentro do bar em que sua me morrera. Para ela, o Hennessys era apenas outra velha cena 
de crime, que tinha de visitar para desenvolver um de seus livros. Teria de ir para observar 
o local e perceber possveis alteraes. E embora no estivesse com medo, estava 
apreensiva. 

Enquanto enxaguava seu prato e o colocava na mquina de lavar loua, imaginava como 
Mick ficaria quando soubesse a verdade. Provavelmente muito zangado... 

A campainha tocou, mas desta vez Maddie no ficou surpresa em ver Mick parado na 
varanda. Como da ltima vez, ele segurava um carto de visitas entre dois dedos, mas no 
havia engano de que o carto era o dela. 

Ele a olhava fixamente por trs das lentes azuis dos culos de sol. Obviamente a expresso 
dele no era das mais felizes, mas no parecia zangado. Provavelmente no teria de acalm-
lo com o spray de pimenta. No que tivesse um consigo naquele exato momento. 

Maddie olhou para o carto e perguntou: 

 Onde voc conseguiu isso? 

 Jewel Finley. 

Droga. Ela realmente no queria que Mick descobrisse daquele jeito, mas no estava assim 
to surpresa. 

 Quando? 

 Ontem  noite, no jogo de Tee ball do Travis. 

 Sinto muito que tenha sabido dessa maneira.  Maddie no o convidou para entrar, mas 
ele no esperou o convite. 


 Por que voc no me contou?  Perguntou quando passou por ela, um metro e noventa, 
e oitenta e seis quilos e de determinao masculina. Tentar det-lo teria sido to 
improdutivo quanto tentar parar um tanque de guerra. 

Maddie fechou a porta e voltou-se para ele. 

 Voc no quis saber nada sobre mim. Lembra? 

 Besteira!  A luz de fora flua para o interior da casa atravs das amplas janelas, caa 
por sobre o sof e a mesa de centro e espalhava-se sobre o cho de madeira. Mick parou no 
centro da luz, tirou os culos de sol. Maddie se enganou quando achou que ele no estava 
zangado. Seus olhos queimavam como um fogo azul.  Eu no queria saber sobre os seus 
velhos namorados, sua receita favorita de cookie de chocolate ou perto de quem voc se 
sentava na escola.  Ele ergueu o carto e disse:  Mas isso aqui  completamente 
diferente, e no venha me dizer que no . 

Maddie levou os cabelos para trs das orelhas. Ele tinha o direito de estar furioso.  
Naquela primeira noite no Morts, fui para me apresentar, dizer quem eu era e porque estava 
na cidade. Mas o bar estava cheio e no foi um bom momento. Quando nos encontramos vi 
na loja de ferramentas e no Quatro de Julho, Travis estava com voc, pensei que tambm 
no seria o momento apropriado. 

 E quando eu estava aqui sozinho? Ele franziu as sobrancelhas e ps os culos no alto da 
cabea. 

 Eu tentei contar naquele dia. 

  assim?  Ele escorregou o carto para dentro do bolso de sua camisa polo do Morts. 
Antes ou depois que voc voc me beijou daquela maneira escandalosa? 

Maddie ficou ofegante. Claro que ele tinha um direito de estar zangado, mas no tinha o 
direito de reescrever a histria como bem entendesse. 

 Espera a, foi voc que me beijou! 

 O momento apropriado  ele disse como se ela no tivesse protestado  deve ter sido 
antes de voc se grudar em mim. 

 Fui eu que grudei? Voc me puxou para perto de voc.  O olhar dela estreitou, mas ela 
no se permitiria ficar zangada.  Eu disse que voc no me conhecia. 

 E em vez de me contar a verdade, que  estar na cidade para escrever um livro sobre os 
meus pais, voc pensou que eu estaria mais interessado em saber da sua abstinncia sexual. 
Mick descansou todo o seu peso em um dos ps e inclinou a cabea para um lado enquanto 
olhava para Maddie.  Voc no planejava me contar. 

 No diga esse absurdo.  Ela cruzou os braos e continuou: 

 Isso  uma cidade pequena e eu sabia que voc descobriria. 

 E at que eu descobrisse, voc estava planejando transar comigo pra conseguir 
informao. 

No enlouquea, Maddie disse a si mesma. Se voc perder a razo,  melhor sacar a arma 
de eletrochoque. 

 H dois erros na sua teoria.  Maddie levantou a mo.  Achar que eu preciso de voc 
para conseguir informaes. Eu no preciso. E que eu planejei transar com voc. Eu no 
planejei. 

Mick deu um passo na direo dela e sorriu. No um de seus sorrisos bonitos ou 
charmosos, mas um sorriso custico.  Se eu tivesse mais tempo voc no teria 
conseguido resistir. 

 Voc est sonhando. 

 E voc est mentindo. Para mim e para voc mesma. 


 Eu nunca minto para mim mesma.  Maddie olhou dentro dos olhos dele, nem um 
pouco intimidada pelo tamanho ou pela raiva dele.  E eu nunca menti para voc. 

O olhar dele se estreitou: 

 Voc omitiu a verdade de propsito, o que  a mesma coisa. 

 Uau! Isso  magnfico! Voc me dando uma lio de moral. Diga-me uma coisa, Mick, 
as mulheres com quem voc dormiu sabem umas das outras? 

 Eu no minto para as mulheres. 

 No, voc s traz ratoeiras pensando no que voc quer e que est entre as pernas delas. 

 Eu no te trouxe a ratoeira por causa disso. 

 Ah, ? Quem  que est mentindo agora?  Maddie apontou para a porta: 

  melhor voc ir embora. Mick no se mexeu. 

 Voc no pode escrever sobre a minha famlia, Maddie. No pode fazer isso. 

 Posso, sim, e vou.  Ela no esperou que ele sasse sozinho, foi at a porta e a abriu. 

 Por qu? Na noite passada li tudo sobre voc  disse enquanto andava na direo dela, 
a sola das botas fazia um rudo zangado no duro cho de madeira.  Voc escreve sobre 
assassinos em srie. Minha me no era uma assassina em srie. Era uma dona de casa que 
foi muito sacaneada por um marido impostor. Em um surto ela matou e depois a si mesma. 
Nessa histria no existe um grande vilo. Nem canalhas doentes como Ted Bundy e 
Jeffrey Dahmer. O que aconteceu com a minha me e o meu pai  um problema de famlia 
no interessa ao pblico. 

 Acho que eu sou um pouco mais qualificada que voc para determinar isso. 

Mick parou na soleira e se virou para encar-la. 

 A minha me foi s uma mulher infeliz que numa noite teve um estalo e acabou 
deixando os filhos rfos, vtimas da sua doena mental. 

 Pois , voc est falando de voc mesmo e da sua famlia, e parece esquecer que houve 
outra vtima inocente. 

 Dificilmente aquele garonetezinha seria uma vtima inocente. De fato, Maddie estava 
falando sobre si mesma: 

 Ento voc  igual a todo o resto das pessoas desta cidade, que acham que Alice Jones 
recebeu o que merecia. 

 Ningum recebeu o que merecia. Mas ela estava andando por a com um homem casado. 

Pronto. Agora Maddie estava realmente zangada. 

 Ento a sua me teve uma justificativa perfeita para atirar no rosto dela. Mick ficou 
imvel por instantes, chocado com a informao. Obviamente ele no tinha visto as fotos 
da cena do crime ou lido nenhuma reportagem a respeito. 

 O seu pai pode ter sido um canalha, mas ser que ele merecia receber trs tiros e sangrar 
at morrer no cho de um bar enquanto a sua me assistia? 

A voz dele se elevou pela primeira vez. 

 Voc est deturpando completamente o que aconteceu. Ela no assistiu meu pai morrer. 

Se Mick no tivesse dito que ela estava deturpando os fatos, ela o teria poupado, 
independente da raiva que sentia: 

 Havia pegadas da sua me por todo o bar. E certamente ela no se levantou e andou 
depois de atirar em si mesma. 

Mick apertou e fechou sua boca. 

 Alice Jones tambm tinha uma criana. Ela merecia perder a me? Ela merecia ter 
ficado rf?  Maddie ps a mo no meio do peito e o empurrou:  Ento no me diga 
que a sua me foi apenas uma dona de casa infeliz, levada a tal ponto. Ela tinha outras 


opes. Vrias outras opes que no envolviam assassinato.  Ele deu um passo para trs 
na direo da varanda.  E no venha aqui pensando que pode me dizer o que fazer. Na 
verdade, eu no dou a mnima para se voc gosta ou no de tudo isso. Eu vou escrever esse 
livro e ponto final.  Maddie tentou bater a porta, mas ele colocou o brao no batente da 
porta e a impediu de fech-la. 

 Ento escreva! Com a mo livre ele tirou os culos de sol do alto da cabea e os baixou 
para o rosto, cobrindo a raiva de seus olhos azuis.  Mas fique longe de mim, disse 
quando tirava a mo da porta. E fique longe da minha famlia. 

Maddie bateu a porta ruidosamente. Tirou o cabelo da face. Droga. Aquilo no era bom. 
Mick ficou mesmo furioso. E ela ficou zangada. Inferno, ainda se sentia irritada. 

Ela o ouviu ligar a caminhonete. E diferente do habitual, ela trancou a porta da frente. No 
precisava dele ou da famlia dele para escrever o livro, mas na realidade, seria bom se 
tivesse a cooperao dele, especialmente porque precisava saber como era a vida de Loch e 
Rose. 

Suspirou: 

 Isso seria um saco!  disse para si mesma enquanto andava pela sala de estar. Teria de 
escrever o livro sem a colaborao dele. A fotografia de sua me estava na mesa de centro. 
Ela era to jovem e cheia de tantos sonhos. Maddie pegou a foto e tocou o vidro sobre os 
lbios da me. Esteve ali sobre a mesa o todo o tempo que Mick esteve l, e ele nem notou. 

Maddie planejava contar, que era mais do que uma mera autora interessada em escrever um 
livro. Que a me dele a havia deixado rf tambm. Mas depois dos lltimos 
acontecimentos Mick no queria mais nenhum contato com ela, e sua real identidade 
realmente parecia no importar a ningum. 

Mick parou a caminhonete numa vaga em frente ao restaurante onde Meg trabalhava, cinco 
dias por semana, servindo mesas e recebendo gorjetas. Ele ainda estava to zangado que se 
sentia como se tivesse batido em algum. 

Como se tivesse pega Maddie Dupree pelos ombros e a tivesse sacudido at que ela 
concordasse em empacotar tudo que fosse seu e ir embora. Como se esquecesse que alguma 
vez ouvira falar dos Hennessy e de suas vidas to enxovalhadas. Mas ela deixou muito 
claro que no iria a lugar nenhum, e agora ele tinha de contar para Meg antes que soubesse 
por outra pessoa. 

Desligou a caminhonete e inclinou a cabea para trs. Seria verdade que a me assistiu  
morte do pai? Ele no sabia disso. Na verdade queria nunca ter sabido. Como poderia 
conciliar a mulher que matou duas pessoas, com a me que lhe fazia sanduche de manteiga 
de amendoim e gelia de morango cortando fora as cascas do po e fatiando-o no ngulo 
que ele gostava? Como conciliar a me amorosa que o banhara, lavara seus cabelos e o 
colocara na cama  noite, com a mulher que deixou rastros com o sangue do prprio marido 
por todo o bar? Como poderiam ser a mesma mulher? 

Mick esfregou o rosto com as mos e passou os dedos por entre os cabelos. Estava muito 
cansado. Depois que Jewel havia lhe dado o carto de visitas de Maddie, ele foi para o 
escritrio no Hennessys e se trancou l. Procurou o nome de Maddie na internet e 
encontrou muita informao. Ela havia publicado cinco livros, e ele encontrou fotos de 
rosto e outras fotos dela em sesses de autgrafos. No havia dvida de que a Maddie 
Dupree que ele estava planejando conhecer melhor era a mulher que escrevia sobre 
assassinos psicticos. A Madeline Dupree que estava na cidade para escrever sobre a noite 
em que sua me matou seu pai. Abriu a porta da caminhonete, saiu e ficou ali parado. E no 
havia nada que ele pudesse fazer para det-la. 


Ele se lembrava de que desde que conhecia o restaurante em que Meg trabalhava, o lugar 
tinha o mesmo cheiro. Cheirava a gordura com ovos e tabaco. O local era um dos ltimos 
lugares dos Estados Unidos onde se podia tomar uma xcara de caf e fumar um cigarro da 
marca de preferncia do cliente. Como resultado disso, era um lugar sempre cheio de 
fumantes. Mick tentou falar com Meg sobre trabalhar em algum outro lugar onde no 
ficasse exposta a ter cncer de pulmo em funo daquela fumaa de segunda mo, mas ela 
insistia que as gorjetas eram muito boas para trocar por outro lugar qualquer. 

Eram cerca de duas horas da tarde e o restaurante estava meio vazio quando Mick entrou. 
Meg estava em p atrs do balco da frente enchendo a xcara de Lloyd Brunner de caf, e 
rindo de alguma coisa que ele disse. Seus cabelos negros estavam presos com um rabo de 
cavalo, e ela vestia uma blusa de um cor de rosa vivo sob um avental branco. Procurou os 
olhos dele e acenou. 

 E a? Est com fome?  perguntou. 

 No.  Ele escolheu um lugar no balco e empurrou seus culos para o alto da cabea. 
 Esperava que voc pudesse sair cedo hoje. 

 Por qu? Meg parou de sorrir e deixou o bule de caf sobre o balco.  Aconteceu 
alguma coisa?  o Travis? 

 O Travis est bem. Eu s queria conversar com voc sobre uma coisa. Meg olhou nos 
olhos do irmo como se pudesse ler a sua mente.  Eu j volto  ela disse e foi at a 
cozinha. Quando voltou estava com a bolsa na mo. Mick se levantou e a seguiu para a rua. 
Assim que a porta do restaurante se fechou atrs deles ela perguntou:  O que foi? 

 Tem uma escritora na cidade que escreve sobre crimes reais... 

Meg cobriu os olhos dos raios do sol enquanto andava pelo terreno de cascalhos em direo 
 caminhonete dele. 

 Qual  o nome dela?, perguntou. 

 Madeline Dupree. 

Ela escreveu No lugar dela, a histria do Patrick Wayne Dobbs. Aquele assassino em srie 
que matava mulheres e depois usava as roupas embaixo do terno que usava para trabalhar. 
Aquele livro me assustou tanto que eu no pude dormir por uma semana.  Meg sacudiu a 
cabea.  O que ela est fazendo em Truly? 

Mick escorregou os culos para cobrir os olhos. 

 Aparentemente ela vai escrever sobre o que aconteceu com mame e papai. 

Meg parou. 

 O qu? perguntou espantada. 

 Voc ouviu. 

 Por qu? 

 No fao a mnima idia.  Ele levantou uma mo, depois a baixou novamente.  Se 
ela escreve sobre assassinos em srie, no imagino porque tenha achado to interessante a 
histria da mame e do papai. 

Meg cruzou os braos sobre o avental. Eles continuaram andando. 

 O que ela sabe sobre o que aconteceu? 

 Eu no sei, Meg.  Eles pararam em frente  caminhonete e ele encostou o quadril na 
direo do para-lama.  Ela sabe que a mame atirou na cabea daquela garonete.  A 
irm continuou em silncio.  Voc sabia disso? 

Meg deu de ombros e mordeu a unha do polegar. 

 Sei. Ouvi o xerife dizer para a vov Loraine. 


Mick olhou nos olhos da irm e ficou imaginando o que mais ela sabia que ele no sabia. 
Pensou se ela saberia que a me no se matou logo em seguida. Sups que isso no 
importava tanto assim. Meg estava reagindo  notcia melhor do que ele imaginara. 

 Voc vai ficar bem? 

Meg balanou a cabea num sinal afirmativo. 

 H alguma coisa que a gente possa fazer para impedi-la? 

 Eu duvido. 

Ela encostou a cabea na porta do motorista e suspirou. 

 Talvez voc possa conversar com ela. Sugeriu. 

 Eu j conversei. Ela vai escrever, e no se importa com o que temos a dizer a respeito. 

 Merda! 

 Todo mundo vai comear a falar sobre isso de novo. 

 ... 

 Ela vai falar coisas ruins sobre a mame. 

 Provavelmente sobre todos os trs. Mas o que ela pode dizer? As nicas pessoas que 
sabem o que realmente aconteceu naquela noite esto mortas. 

Meg olhou ao longe. 

 Voc sabe alguma coisa sobre aquela noite? Ela descruzou os braos e baixou as mos. 

 Apenas que a mame foi impelida pelas circunstncias a longe demais, e acabou 
matando o papai e aquela garonete. 

Mick no tinha tanta certeza se acreditava que era s isso, mas que diferena fazia vinte e 
nove anos mais tarde? Meg no estava l. Estava em casa com ele quando o xerife chegou 
em casa naquela noite. 

Ele olhou para o cu azul sem nuvens. 

 Eu tinha esquecido de que a garonete tinha uma menininha. 

 Sim, mas no consigo me lembrar do nome.  Meg tornou a olhar para Mick.  No 
que eu me importe. A me dela era uma prostituta. 

 A menina no teve culpa de nada, Meg. Ela perdeu a me. 

 Ela certamente ficou melhor sem a me. Alice Jones estava tendo um caso com o papai 
e nem se importava se as pessoas sabiam ou no. Ela alardeava a relao deles na frente de 
toda a cidade. Portanto, no espere que eu tenha pena de uma menina rf que no tem nem 
nome e nem rosto. 

Mick no sabia se houve algum alarde, e se houve, ele imaginava que o pai deveria levar a 
maior parte da culpa, j que ele era o casado da histria. 

 Voc vai ficar bem com essa histria? 

 No, mas o que eu posso fazer?  Ela ajustou a bolsa no ombro.  Eu vou sobreviver, 
da mesma forma que das outras vezes. 

 Eu disse a ela para ficar longe de voc e de Travis, assim, ela no vai te incomodar com 
perguntas. 

Meg levantou as sobrancelhas.  E ela vai incomodar voc com perguntas? 

Havia mais de uma maneira de uma mulher incomodar um homem. E no venha aqui 
pensando que pode me dizer o que fazer. Na verdade, eu no dou a mnima para se voc 
gosta ou no de tudo isso. Eu vou escrever esse livro e ponto final. Maddie estava furiosa, 
obstinada e absolutamente sensual. Seus grandes olhos castanhos o fuzilaram antes de ela 
bater a porta na cara dele. 

 No.  respondeu.  Ela no vai me incomodar com nenhuma pergunta. 


Meg esperou at que a caminhonete de Mick sasse do estacionamento antes de deixar 
escapar o ar que havia em seus pulmes e levar as mos ao rosto. Pressionou os dedos 
contra as tmporas e fechou os olhos numa tentativa evitar a presso que se formava na 
cabea. Madeline Dupree estava na cidade para escrever um livro sobre os seus pais. Tinha 
de haver alguma coisa que algum pudesse fazer para impedi-la. Ningum deveria ter o 
direito de simplesmente... arruinar a vida dos outros. Deveria haver uma lei contra 
bisbilhotice e... contra desenterrar o passado dos outros. 

Meg abriu os olhos, olhou fixamente para baixo, para seus tnis brancos. No demoraria 
muito para que todo mundo na cidade soubesse daquilo. Nem demoraria para que as 
pessoas comessarem a falar, fofocar e olhar para ela como se ela fosse culpada por explodir 
a qualquer momento. Mesmo seu irmo s vezes a olhava como se ela fosse louca. Mick 
pensava que sabia esquecer o passado, mas havia algumas coisas que nem ele seria capaz 
de esquecer. Lgrimas turvaram sua viso e caram no cascalho do cho. Mick tambm 
tomava a sua emoo como doena mental. No que ela o culpasse realmente. Enquanto 
viveu com os pais foi como viver em constante cabo de guerra emocional, o que se 
encerrou com a morte dos dois. 

Uma segunda caminhonete entrou no estacionamento e Meg levantou o olhar quando Steve 
Castle abriu a porta e desceu. Steve era amigo de Mick e gerente do Hennessy's. Meg no 
sabia muito sobre ele, s sabia que ele pilotava helicpteros no exrcito com Mick, e que 
houve algum tipo de acidente no qual Steve havia perdido parte da perna direita, abaixo do 
joelho. 

 E a, Meg?  ele a chamou. E a voz profunda ressoou no ar enquanto ele andava na 
direo dela. 

 Ol.  Meg disse se apressando em enxugar os olhos, e baixando os braos logo em 
seguida. Steve era um cara legal. Raspava a cabea completamente careca, era alto, tinha o 
peito largo e to... to msculo que Meg sentia-se um pouco intimidada ao lado dele. 

 O que houve, dia ruim? 

Ela pde sentir as bochechas esquentarem enquanto olhava para os olhos dele, que eram 
profundamente azuis. 

 Desculpe. Eu sei que os homens no gostam de ver as mulheres chorando... 

 As lgrimas no me incomodam. Eu vi fuzileiros valentes chorarem como se fossem 
menininhas.  Ele cruzou os braos sobre a camiseta que tinha cachorros jogando pquer 
estampados na frente.  E ento, o que te deixou to chateada, docinho? 

Normalmente Meg no dividia seus sentimentos com pessoas que no conhecesse bem, mas 
Steve tinha alguma coisa especial. Se por um lado o tamanho dele a intimidava, por outro, 
ele tambm a fazia se sentir segura. Ou talvez porque ele a havia chamado de "docinho", 
ela resolveu lhe contar sobre a conversa com Mick: 

 Mick acabou de sair, disse que h uma escritora na cidade que vai escrever sobre a noite 
que minha me matou meu pai. 

 ... Eu ouvi algum falar sobre isso. 

 J? Como descobriu? 

 Os irmos Finley estavam no Hennessy s na noite passada falando sobre isso. 

Meg mordeu o lbio pensativa. 

 Ento acho que podemos dizer com segurana que toda a cidade j sabe, e que todo 
mundo vai ficar falando e especulando. 

 Quanto a isso, no h nada a fazer... Meg balanou a cabea. 

Eu sei. Concordou 


 Talvez voc possa conversar com a tal escritora. 

 Mick j tentou. Ela vai escrever o livro independente do que ns pensamos a respeito. 
Meg olhou novamente para os ps:  Mick disse a ela para ficar longe de mim e de Travis. 

 Mas por que evit-la? Por que voc no conta o seu lado da histria para ela? 

Ela o olhou nos olhos e falou: 

 Eu no sei se ela se importa com o meu lado. 

 Talvez, mas voc s vai saber se falar com ela.  Steve descruzou os braos e pousou 
uma das grandes mos no ombro de Meg.  Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida,  
que a gente tem que enfrentar as coisas de frente. A gente pode transpor qualquer obstculo 
se souber o que est enfrentando. 

Certamente isso era verdade e parecia um bom conselho, mas ela no conseguia sequer 
raciocinar depois que ele colocou a mo sobre o seu ombro. A clara sensao e o calor 
daquele toque espalhou-se e alcanou o estmago. Desde que o ex-marido havia sumido ela 
no sentia o calor de um homem. Os homens da cidade falavam com ela, flertavam com 
ela, mas nunca pareceram querer alm de um pouco mais de caf. 

Steve segurou-a pela mo. 

Sabe de uma coisa, desde que cheguei a esta cidade estou me perguntando uma coisa. 

 O qu? 

Steve inclinou a cabea para um dos lados e a estudou minuciosamente. 

 Por que voc no tem um namorado? Ela riu e disse: 

 Acho que os homens desta cidade tm um pouco de medo de mim. 

As sobrancelhas dele baixaram e ele soltou uma gargalhada. Uma gargalhada profunda e 
ressonante, que lhe iluminou o rosto. 

 No  engraado!  Meg protestou.  Mas naquele momento e ambientado pela risada 
de Steve Castle at que era bem engraado. E ficar to perto, com a mo envolvida pelas 
mos dele, era muito... gostoso. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 8 

 

A pescaria na parte alta do Lago Payette foi to boa, que o xerife Potter no retornou a at 
tera-feira da semana seguinte. Mas assim que recebeu o carto de Maddie ligou 
imediatamente para marcar um encontro na casa dele no dia seguinte. Se havia algo no tipo 
de trabalho de Maddie com que ela sempre podia contar eram os policiais. Quer fosse o 
Departamento de Polcia de Los Angeles ou o xerife de uma cidade pequena, os policiais 
adoravam falar sobre casos antigos. 

 Nunca esquecerei aquela noite  o xerife aposentado disse enquanto olhava para as 
velhas fotos da cena do crime com a ajuda de um par de culos de leitura. Diferente dos 
estereotipados xerifes aposentados, que se tornavam muito gordos, Bill Potter era ainda 
muito magro e tinha a cabea coberta por vasto cabelo branco.  A cena estava bem 
confusa. 

Maddie aproximou o pequeno gravador para mais perto da poltrona reclinvel azul clara, 
em que o xerife Potter estava sentado. O interior da casa dos Potter era uma fuso de temas 
florais e arte de caa que misturava tantos temas e cores diferentes que Maddie receou que 
seus olhos ficassem vesgos antes que o dia terminasse. 

 Eu conhecia Loch e Rose desde que eles eram crianas  Bill Potter continuou.  Eu 
era poucos anos mais velho, mas em uma cidade deste tamanho, especialmente durante a 
dcada de setenta, todo mundo conhece todo mundo. Rose era uma das mulheres mais belas 
que eu conheci, e foi um grande choque ver o que ela fez quelas duas pessoas, e depois a 
si mesma. 

 Quantos casos de homicdio o senhor investigou antes do caso Hennessy? 

 Maddie perguntou. 

 Um, mas no foi nada, comparado com o caso Hennessy. O velho Jenner levou um tiro 
numa disputa por um cachorro. A maioria leva tiro por acidente, o que geralmente acontece 
durante a estao de caa. 

 O primeiro oficial na cena era o...  Maddie parou para olhar para o relatrio  oficial 
Grey Tipton. 

 Isso mesmo. Ele deixou o Departamento poucos meses depois do crime e foi-se embora 
 disse o xerife.  Ouvi dizer que morreu alguns anos atrs. 

Essa era realmente mais uma das muitas dificuldades que enfrentaria na cidade. Algumas 
pessoas no estavam dispostas a falar sobre o que ocorreu, e outras estavam mortas. 

 Eu soube. Ele morreu em um acidente de quadriciclo tipo ATV em 1981. 

 Pelo menos Maddie tinha em seu poder os relatrios e as notas do oficial Tipton.  O 
crime teve alguma coisa que ver com o fato de ele ter deixado o Departamento? 

O xerife Potter embaralhou as fotos. 

 Teve tudo que ver. Grey era realmente muito amigo de Loch. A cena do amigo naquele 
estado o perseguiu de tal forma que ele no conseguia mais dormir. O xerife levantou a foto 
de Rose cada ao lado do marido morto.  Foi a primeira vez que qualquer um de ns viu 
uma coisa daquelas. Eu j havia atendido vrios acidentes de automvel, que sempre so 
muito sangrentos, mas nunca nenhum foi to pessoal. 

J que no houve julgamento sobre o qual escrever, Maddie tinha de coletar o mximo de 
informao pessoal que pudesse. Alm do que, os Hennessy tambm no falariam, por isso 
ela teria de confiar mesmo nas outras fontes. 


 Grey enfrentou um momento to difcil depois do crime, que precisou se demitir. Isso 
mostra que a gente no sabe como vai lidar com uma situao at que esteja completamente 
envolvido nela. 

Pela hora que se seguiu Maddie e o xerife conversaram sobre a cena do crime. As fotos e os 
relatrios respondiam quem, o que, onde e quando, mas o porqu ainda estava confuso. 
Maddie trocou a fita do pequeno gravador, depois perguntou: 

 O senhor conhecia tanto Loch quanto Rose. O que o senhor acha que aconteceu naquela 
noite?  Em todo caso como esse, sempre h um catalisador. Um fator de estresse que foi 
introduzido e empurrou a perpetradora do crime ao momento crtico.  Eu sempre soube 
que Alice Jones no foi o nico caso de Loch. 

 No. Ela no foi o nico caso. Aquele casamento foi como uma montanha-russa que 
perdurou por vrios anos.  O xerife balanou a cabea e tirou os culos.  Antes que 
eles se mudassem para a casa da fazenda que ficava bem fora da cidade, costumavam viver 
prximo ao lago em Pine Nut. A cada dois meses eu recebia uma chamada de algum dos 
vizinhos deles e tinha que me deslocar at l. 

 O que voc encontrava quando chegava? 

 Em geral muita gritaria e discusses. Algumas vezes Loch aparecia com as roupas 
amassadas ou rasgadas ou com uma marca vermelha no rosto.  Bill coou o queixo... 
Uma vez cheguei l e a janela da frente estava arrebentada e tinha uma panela jogada no 
jardim. 

 Em alguma dessas vezes algum deles foi preso? 

 No. E depois, na prxima vez que a gente os via, estavam os dois arrulhando e felizes 
como num milagre. 

E quando eles no estavam arrulhando, atraam outras pessoas para dentro daquele 
casamento completamente confuso. 

 Mas depois que eles se mudaram para a casa da fazenda, os pedidos de socorro para o 
seu escritrio pararam? 

 Sim. Afinal, voc sabe, no havia mais vizinhos em volta... 

 Onde fica essa casa da fazenda? 

 Ela pegou fogo...  Ele parou de falar enquanto pensava. Profundos sulcos 
atravessaram sua testa.  Deve ter sido h uns vinte anos. Uma noite algum foi at l 
encharcou o local com querosene e ateou fogo. 

 Algum ficou machucado? 

 Ningum vivia l naquela poca.  Bill franziu a testa e balanou a cabea.  Nunca 
descobriram quem comeou o incndio. Embora eu sempre tenha tido minhas suspeitas. 

 E de quem o senhor suspeitava? 

 Apenas duas pessoas queriam que a casa ficasse daquele jeito a ponto de fazer um 
trabalho to bem feito. Crianas brincando com fsforos por ali no teriam incendiado o 
lugar daquele jeito. 

 Mick? 

 E a irm, embora eu nunca tenha conseguido provar. A bem da verdade, eu nunca quis 
provar. Enquanto crescia, Mick estava sempre envolvido em problemas. Foi uma 
preocupao constante, mas eu sempre me senti penalizado com relao a ele. Afinal, ele 
teve uma vida muito difcil. 

 Muitas crianas perdem os pais e no viram incendirios. O xerife inclinou-se para a 
frente. 


 Essas crianas tiveram a vida que Rose Hennessy deixou para seus filhos.  verdade, 
mas Maddie sabia um pouco sobre esse tipo de vida. Ela virou a pgina do caderno de notas 
e perguntou: 

 Alice Jones vivia no estacionamento de trailers Parque Roundup. O senhor conhece uma 
mulher chamada Trina, que pode ter vivido no mesmo local em 1978? 

 Hmm... No me parece familiar.  Pensou por um momento, depois se inclinou 
novamente para a frente.  Voc pode falar com Harriet Landers. Ela viveu naquele 
estacionamento por vrios anos. Quando a terra foi vendida para um empresrio, ela 
praticamente teve de ser amarrada para ser levada dali. 

 E onde esta Harriet mora hoje? 

 Levana!  O xerife chamou a esposa. Quando ela apareceu dos fundos da casa ele lhe 
perguntou: 

 Onde a Harriet Landers est morando agora? 

 Acho que ela mora na Vila Samaritana. Levana olhou para Maddie e acrescentou: 

  uma casa de repouso que fica na estrada Whitetail. Atualmente a Harriet est com 
certa dificuldade para ouvir. 

De sua cadeira de rodas, Harriet Landers gritou: 

 O qu? Fale alto, pelo amor de Deus. 

Maddie sentou-se em uma velha cadeira de ferro no pequeno jardim da Vila Samaritana. 
Era difcil adivinhar a idade daquela mulher idosa s olhando para ela. Ela parecia ser algo 
entre a um passo do cemitrio e um fssil. 

 Meu nome  Maddie Dupree! Eu gostaria de saber se eu posso ser... 

 Voc  a escritora...  Harriet a interrompeu  ...eu ouvi falar que voc veio at aqui 
para escrever um livro sobre os Hennessy. 

Uau! As notcias corriam rpido mesmo por ali, inclusive no circuito de casas de repouso. 

  isso mesmo. Me disseram que a senhora morou naquele estacionamento de trailers 
chamado Parque Roundup. 

 Morei! Por cerca de cinqenta anos!  Harriet havia perdido quase todos cabelos 
brancos e a maior parte dos dentes, e vestia um roupo cor-de-rosa, com botes de presso 
e cordo na cintura, ambos brancos. Mas parecia no haver nada errado com seu 
discernimento. 

 Eu no sei o que poderia lhe dizer. 

 Como era viver no Parque Roundup? 

 Humpf!  Ela levantou a mo cheia de calos e outras pequenas deformaes, e tentou 
acertar uma abelha que voejava na frente do seu rosto.  No h o que dizer que todos j 
no saibam. Em geral, o povo pensa que as pessoas que moram em trailers so pobres, mas 
eu sempre gostei do meu trailer. Sempre gostei de ter a opo de empacotar tudo, inclusive 
a minha casa, e me mudar quando eu quisesse. Ela encolheu os ombros ossudos.  Embora 
eu nunca tenha feito isso... 

 Pois , algumas pessoas conseguem ser muito cruis e no tm qualquer considerao 
por aqueles que vivem de forma diferente  Maddie incentivou.  Quando eu era 
pequena, morvamos num trailer, e eu achava a melhor coisa do mundo.  Maddie dissera 
a verdade, especialmente porque o trailer representou uma grande melhora em relao aos 
outros lugares onde ela e a me viveram antes.  Ns no ramos lixo, com certeza. 

Os olhos fundos de Harriet se voltaram rapidamente para Maddie: 

 Voc morou num trailer? 


 Sim, senhora.  Maddie levantou o gravador.  A senhora se importa se eu gravar a 
nossa conversa? 

 Para qu? 

 Assim eu no corro o risco de cit-la de maneira errada. 

Harriet colocou os cotovelos magros sobre o brao da cadeira de rodas e se inclinou para a 
frente. 

 Tudo bem, pode gravar.  Ela voltou-se para o gravador.  O que voc quer saber? 

 A senhora se lembra do vero em que Alice Jones viveu no Parque Roundup?  
perguntou. 

 Claro, embora no fossemos vizinhas de porta, eu vivia no final da rua em que ela se 
instalara. Mas eu a vi algumas vezes enquanto passava de carro. 

Ela era uma moa muito bonita realmente, e tinha uma filhinha. Uma menininha que 
costumava ficar o dia inteiro e s vezes parte da noite se balanando no balano que ficava 
no jardim da frente. 

 verdade. Essa parte Maddie conhecia bem. Lembrava-se de se balanar to alto, que 
achava que os dedos dos seus ps iriam tocar o cu. 

 Alguma vez a senhora conversou com Alice Jones? Lembra-se de alguma conversa, por 
mais trivial que seja? 

Na testa de Harriet surgiu uma ruga, criada por um franzir de sobrancelhas. 

 No, que eu me lembre, no. Isso j faz tanto tempo, e minha memria j no  to boa. 

 Eu sei o que  isso. Eu tambm tenho problemas de memria de vez em quando.  
Maddie olhou para suas anotaes como que para se lembrar do que perguntar em seguida. 
 A senhora se lembra de uma mulher chamada Trina, que parece ter vivido no Parque 
Roundup naquela poca? 

 Provavelmente voc est falando de Trina Olsen. A filha do meio de Betty Olsen, que 
era uma daquelas ruivas de cabelo muito vermelho e sardas. 

Maddie anotou o sobrenome de Trina e o circulou: 

 A senhora sabe se Trina ainda vive em Truly? 

 No sei... E Betty morreu. Morreu de cncer no fgado. 

 Sinto muito. 

 Por qu? Voc a conhecia? 

 No, claro que no!  Ela colocou a tampa na caneta. 

 Existe mais alguma coisa de que a senhora se lembra da poca em que Alice Jones vivia 
no Parque Roundup? 

 Me lembro de muitas coisas.  Ela mexeu um pouco nos cabelos e depois disse:  
Lembro-me de Galvin Hennessy, com certeza. 

 O pai de Loch?  Maddie perguntou, apenas para esclarecer. O que poderia Galvin ter a 
ver com a me de Maddie? 

 Isso! Ele era o diabo de to bonito, como todos os homens da famlia Hennessy. Harriet 
balanou a cabea e suspirou.  Toda garota sabia que tinha que ser muito idiota para se 
casar com um Hennessy. 

Maddie passou os olhos por suas anotaes, procurando o nome de Galvin. Ela amassou a 
filipeta do Dia dos Fundadores da Cidade que apanhou na escrivaninha da recepo, mas 
at onde se lembrava, ele no havia sido mencionado em qualquer dos relatrios da polcia. 

 Eu me encontrei muito com ele, at o dia em que ele caiu morto no banco de trs do meu 
carro. 

Maddie levantou a cabea. 


 Perdo, no entendi. 

Harriet riu, um som estridente e animado que lhe causou um acesso de tosse. Maddie ficou 
to preocupada que deixou suas anotaes na grama e se levantou para ajud-la. Quando 
Harriet conseguiu se recuperar, Maddie perguntou: 

 A senhora est bem?  A ltima coisa que Maddie queria era causar qualquer 
problema para Harriet. 

 Eu queria que voc tivesse visto a sua cara! Eu no pensei que ainda era possvel abalar 
algum nesta cidade. Muito menos na minha idade!  Harriet falava enquanto ria. 

 Ento?  Maddie sentou-se novamente.  O Galvin teve alguma coisa que ver com o 
que aconteceu no Hennessy's? 

 No. Ele morreu antes de tudo isso acontecer. Loraine nunca me perdoou por Galvin ter 
morrido no banco de trs do meu carro, mas voc sabe... no  possvel atirar uma pedra 
nesta cidade sem atingir pelo menos uma mulher que tenha dormido com um Hennessy. 

Maddie perguntou: 

 Por qu?  Afinal havia muitos homens com boa aparncia e charmosos por ali.  O 
que faz dos homens da famlia Hennessy to irresistveis s mulheres de Truly? 

 Eles so belos ao olhar, mas o principal fica por conta do que eles tm por dentro das 
calas...  Harriet parou maliciosa. 

 Voc quer dizer que eles tem...  Maddie parou e levantou os olhos como se estivesse 
procurando a melhor palavra. E encontrou, claro. Uma de suas expresses favoritas lhe veio 
 mente: bem-dotado, mas por alguma razo ela simplesmente no conseguia dizer na 
frente de uma senhora de idade. 

Assim, Harriet completou:  Eles so abenoados.  Assim e por toda a hora que se 
seguiu, continuou a dar a Maddie os detalhes do seu longo e notvel caso com Galvin 
Hennessy. Aparentemente, Harriet era uma daquelas garotas. No tinha problema em ter 
exatos noventa anos, e em parecer apenas uma uva passa com olhos. Harriet Landers era 
uma daquelas garotas que adorava falar da prpria vida sexual com homens completamente 
estranhos. E Maddie, que era uma garota de sorte, conseguiu gravar toda a conversa. 

Quarta-feira  noite no Hennessys era noite da esbrnia. Numa tentativa de ajudar os 
cidados a afogar os aborrecimentos da semana, o Hennessys oferecia coquetis pela 
metade do preo e bebidas a um dlar at as sete horas. Depois das sete horas algumas 
pessoas saam, mas a maioria ficava e pagava preo de costume. Galvin Hennessy foi o 
mentor da noite da esbrnia do Hennessys, e a clientela se manteve nas geraes seguintes. 

Quando Mick assumiu a direo do lugar, houve quem temesse o fim da noite da esbrnia, 
afinal ele tinha acabado com o arremesso de calcinhas do Morfs. Mas depois de dois anos 
de coquetis baratos e cervejas a um dlar, Truly pde respirar aliviada por saber que 
algumas tradies ainda era sagradas. 

Mick estava no fundo do bar, com um taco de sinuca na mo, enquanto Steve Castle 
inclinado sobre a mesa prepara-se para uma tacada. Steve era ligeiramente mais alto que 
Mick e estava usando uma camiseta azul clara justa. Mick conhecia Steve desde o curso de 
vo. Naquela poca Steve tinha a cabea repleta de cabelos loiros. Atualmente Steve era to 
careca quanto a bola de bilhar que estava mirando. 

Quando Mick saiu do exrcito, Steve ficou at que o helicptero que pilotava foi atingido 
por um mssil AS-7, prximo a Fallujah. Cinco soldados morreram. Na queda, sete se 
feriram, inclusive Steve que perdeu parte da perna. Aps meses de reabilitao e uma nova 
prtese, ele voltou para casa no Norte da Califrnia, onde encontrou seu casamento 
completamente arruinado. Passou por momentos realmente difceis e por um divrcio 


doloroso. Quando Mick o convidou para se mudar para Truly e gerenciar o Hennessys, 
Steve no teve dvidas, pulou dentro da caminhonete e chegou em poucos dias. 

Mick no esperava que o amigo permanecesse naquela cidade to pequena, mas j fazia um 
ano e meio, e Steve havia acabado de comprar uma casa prxima do lago. 

Ele era para Mick o que mais se aproximava de um irmo. Os dois dividiram experincias 
parecidas e tinham memrias viscerais. Dividiam uma vida que os civis no entendiam, e 
nunca falavam em pblico sobre a poca em que viveram no exrcito. 

A bola seis caiu na caapa e Steve alinhou a bola dois. 

 Meg esteve aqui ontem procurando por voc  disse.  Acho que a cidade inteira est 
zunindo como um ninho de vespas porque aquela escritora conversou com o xerife Potter e 
com Harriet Landers. 

 Meg me ligou ontem  noite para falar a respeito.  Steve era a nica pessoa com quem 
Mick falava sobre os imprevisveis arroubos emocionais e as mudanas de humor de Meg. 
 Ela no est to perturbada com relao a toda essa coisa do livro quanto pensei que 
ficaria.  Pelo menos no surtou. Mick esperava uma reao mais violenta depois de v-la 
aos prantos noites atrs por ter encontrado acidentalmente o anel de casamento da me. 

 Talvez Meg esteja mais forte do que voc imagina. Talvez, mas Mick duvidava. 

Steve jogou, mas a dois bateu na quina da mesa e voltou.  Exatamente o que eu queria ter 
feito. 

 Claro!  Mick ironizou enquanto passava giz em seu taco. Bateu na bola dez que 
sobrava, jogando-a dentro da caapa. 

 Melhor eu ficar atrs do balco  Steve falou quando ps o taco no suporte. Voc vai 
ficar aqui at fechar? 

 No.  Mick deixou o taco ao lado do de Steve e olhou para o bar. Em noites de 
semana, tanto o Hennessys quanto o Morts fechavam  meia-noite.  Eu quero ver o como 
o novo barman est se saindo l no Morts. 

 Como tem sido at agora? 

 Muito melhor que o ltimo. Eu devia ter conhecido melhor antes de contratar Ronnie 
Van Damme para o primeiro posto. A maioria dos Van Damme  imprestvel.  Mick 
tinha tido que demitir Ronnie duas semanas atrs por chegar atrasado com freqncia e 
esquecer o trabalho para envolver-se com as freqentadoras do bar.  O cara novo 
gerenciou um bar em Boise, espero que ele consiga trabalhar bem.  Eventualmente o 
objetivo de Mick era encontrar um gerente para o Morts de forma que ele pudesse trabalhar 
menos e ganhar mais dinheiro. Ele no confiava nas penses do governo nem seguro social 
para sustent-lo para o resto da vida e fazia investimentos. 

 Se precisar de ajuda me avise  disse Steve enquanto se afastava com passos 
ligeiramente cadenciados, to ligeiramente que era difcil notar. Mick no esteve no Iraque 
quando a aeronave de Steve foi derrubada, mas ele teve uma srie de misses prximas dali 
e foi forado a fazer uma aterrissagem de emergncia no Afeganisto quando uma granada 
atingiu o seu helicptero. A aterrissagem no foi muito bonita, mas ele conseguiu 
sobreviver. 

Ele adorava voar e era uma das coisas no seu passado de que mais sentia falta. Mas no 
sentia saudade da areia ou da poeira e do jeito de viver do exrcito. Preferiu se retirar do 
que enfrentar o tdio de ficar sentado esperando ordens. Desde de que viera para Truly, 
onde nada demais acontecia, nunca ficava entediado. Especialmente nos ltimos tempos. 

Mick olhava a pista de dana no outro lado do bar. Nos finais de semana, normalmente ele 
contratava uma banda e mandava encerar o cho. Nas demais noites algumas pessoas 


ficavam por ali conversando, outros se sentavam em mesas e no balco. Nas noites de 
esbrnia o bar esvaziava geralmente em torno das nove horas, exceto por uns poucos gatos 
pingados. Durante a infncia o pai ocasionalmente trazia os filhos para o bar e os deixava 
servir cerveja nas canecas. J naquela poca os ensinou a tirar um colarinho perfeito. 
Pensando bem, no  a melhor coisa para se ensinar aos filhos, mas naquela poca ele e 
Meg adoraram. 

0 seu pai pode ter sido um canalha, Maddie dissera, mas ser que ele merecia receber trs 
tiros e sangrar at morrer no cho de um bar enquanto a sua me assistia? 

Mick pensou mais no pai nos ltimos dois dias do que havia pensado nos ltimos cinco 
anos. Se Maddie estivesse certa, sua me assistira seu pai morrer... Mick simplesmente no 
conseguia tirar isso da cabea. 

Sentou-se na beirada da mesa de sinuca e cruzou um dos ps sobre o outro enquanto assistia 
Steve pegar uma cerveja do refrigerador e abri-la. Mick sabia que a garonete, Alice Jones, 
foi morta atrs do balco do bar, enquanto sua me e seu pai morreram ambos na frente do 
balco. Ele nunca viu fotos ou leu reportagens, mas ao longo dos anos, certamente ouviu 
tantas conversas sobre aquela noite em que a me havia matado o pai e Alice, que achava j 
ter ouvido tudo. Agora percebia que no. 

Ao longo dos ltimos trinta e cinco anos, ele esteve no bar milhares de vezes. Meg tinha 
uma fotografia dele com trs anos de idade sentado em um banco do bar com o pai. Depois 
que seus pais morreram, o lugar foi completamente renovado, e todo e qualquer trao do 
que aconteceu naquela noite havia sido removido h muito tempo. Quando entrava ou saa 
pela porta dos fundos, nunca pensava sobre o que sua me fez ao pai e a Alice Jones. 

At aquele momento. 

Ento a sua me teve uma justificativa perfeita para atirar no rosto dela, Maddie disse. 
Por alguma razo, no conseguia tirar da cabea Maddie Dupree e o maldito livro sobre o 
crime. A ltima coisa no mundo que ele sempre quis ter entre seus pensamentos foi a morte 
dos pais, seria melhor deixar o passado enterrado. E a ltima pessoa que ele queria que se 
enfiasse na sua cabea agora era a mulher responsvel por desenterrar tudo aquilo de novo. 

Meu Deus, voc parece um tornado. Devorando tudo a sua volta. Maddie dissera sem 
parecer se importar com o fato de que ela seria a ltima pessoa no mundo a quem ele 
desejaria. Mick capturou do fundo de sua mente a memria dos lbios dela sob os dele, sua 
respirao ofegante e a viso daquele beijo sentido por completo. 

Ele saiu de cima da mesa de sinuca, passou pela pista de dana em direo ao balco. 
Reuben Sawyer sentado no banco habitual, parecia velho e mal-tratado. Reuben perdera a 
esposa trinta anos atrs, e pelas ltimas trs dcadas ele se sentava no mesmo banco quase 
toda noite para afogar as mgoas. Mick no acreditava em almas gmeas e no entendia 
aquele tipo de tristeza. Mas sempre que pensava no assunto conclua que se algum se sente 
solitrio daquela forma pela ausncia de uma mulher, que faa alguma coisa para resolver 
que no envolva uma garrafa de bourbon. 

Vrias pessoas chamaram Mick quando ele passou, mas ele no parou. Ele no sentia nem 
um pouco de vontade de papear. No naquela noite. Enquanto passava do hall para o fundo 
do bar, uma antiga namorada de escola o parou. 

 Ol, Mick  Pam Puckett disse quando saiu do banheiro feminino. Mick queria 
simplesmente cumprimenta-la rapidamente e prosseguir, mas 

sups que seria muito rude, ento parou e disse:  Oi, Pam. 


Ela tomou aquilo como um tipo de convite para envolver os braos em volta do pescoo 
dele e lhe dar um longo abrao, que se arrastou por alguns segundos alm do considerado 
simplesmente amigvel: 

 Como vai?  ela perguntou junto do ouvido dele. 

 Bem.  Depois que saiu da escola, Pam casou-se e divorciou-se trs vezes. Mick at 
imaginara que o casamento dela no duraria muito. Ele deu um passo para trs e a olhou no 
rosto.  E voc? 

 Nada mal.  respondeu enquanto baixava os calcanhares. Mas manteve uma das mos 
no peito dele.  No tenho visto voc por aqui j h algum tempo. 

 Tenho ficado mais no outro bar.  Pam ainda era atraente, e Mick sabia que tudo o que 
tinha que fazer era peg-la pela mo e lev-la pra casa. Ele ficou com a mo na cintura dela, 
esperando seu corpo manifestar um primeiro impulso de interesse.  Voc ainda est 
trabalhando no escritrio do xerife? 

 Estou. Ainda atendendo ligaes. Ameao sair dia sim, dia no.  A mo dela 
escorregava de leve pra cima e para baixo do peito dele. 

Faltavam trs horas para fechar o Morts. Estivera antes com Pam e ambos sabiam que era 
s sexo. Dois adultos se divertindo juntos. 

 Voc est sozinha?  Perguntou. 

A mo feminina escorregou para a cintura dele e enganchou um dos dedos na fivela do 
cinto dele. Ele j deveria ter sentido algum sinal de interesse, mas at aquele momento 
nada.  Com algumas amigas. 

Diga-me uma coisa, Mick, as mulheres com quem voc dormiu sabem umas da outras? 
Provavelmente um pouco de sexo era tudo o que ele precisava para tirar Maddie da cabea. 
H um ms ele no levava uma mulher para cama, e tudo o que tinha de fazer era pegar a 
mo de Pam lev-la para a porta dos fundos. 

 Voc sabe que eu nunca planejo me casar. Certo? 

 Claro, acho que todo mundo sabe disso, Mick. 

 Ento eu nunca menti para voc com relao a isso. 

 Claro que no! 

Uma vez que Pam estivesse nua na sua frente, ela o faria esquecer todo o resto. Pam no 
gostava de sexo longo e arrastado. Gostava de sexo rpido e quantas vezes fosse possvel, e 
Mick queria satisfaz-la. 

Foi quando ela disse: 

 Ouvi falar que tem uma escritora que anda entrevistando todo mundo na cidade  e 
expirou demonstrando certa excitao. 

Mick desejou que ela no tivesse dito aquilo... 

 A gente se v.  Soltou a cintura dela e se virou novamente em direo  porta. 

 Voc est indo embora?  Pam reclamou, querendo dizer na realidade: Voc est indo 
embora sem mim? 

 Tenho que trabalhar. 

O cu ainda estava claro quando Mick saiu e dirigiu at o Morfs. Maddie Dupree estava 
vasculhando seu passado, falando com toda a cidade sobre a sua famlia e atrapalhando sua 
vida sexual. A cada momento que passava, ele sentia crescer o apelo de amarr-la e 
escond-la em algum lugar. 

O estmago dele resmungou enquanto parava a caminhonete em uma vaga atrs do Morts, 
e em vez de entrar no bar pelos fundos, foi para a frente e andou mais algumas portas at 


um pequeno restaurante. Passaram um pouco das nove horas, e ele no comia nada desde o 
almoo, natural que estivesse com dor de cabea. 

O lugar estava praticamente vazio e o odor da cozinha que sentiu enquanto entrava e 
andava at o balco de atendimento o fez ficar com mais fome. Chegou ao balco, fez seu 
pedido a uma jovem garonete. O restaurante fazia o melhor pastrami no po de centeio e 
batatas chips. Se tivesse tempo, Mick teria pedido uma cerveja. 

O interior do restaurante era decorado com psteres de cerveja do mundo todo, e sentada a 
uma das mesas separadas por divisrias, abaixo de um dos psteres, estava a mulher que ele 
vinha fantasiando amarrar e jogar dentro de um armrio. 

Sobre a mesa dela havia um colorido prato de salada e uma grande pasta aberta bem na 
frente de Maddie Dupree. Seus cabelos estavam presos e os lbios pintados de um 
vermelho profundo. Os olhos castanhos se levantaram quando ele se sentou na cadeira em 
frente a ela. 

 Voc tem andado ocupada, no?  falou  guiza de cumprimento. 

 Ol, Mick.  E apontando com o garfo na direo da cadeira em que ele acabara de se 
sentar, acrescentou:  Sente-se. 

Ele vestia um suter laranja que estava desabotoado na frente e por baixo usava uma 
camiseta branca. Uma camiseta branca e apertada. 

 Ouvi dizer que voc andou conversando com Bill Potter. 

 As notcias correm rpido por aqui!  Espetou uma folha de alface e um pedao de 
queijo e abriu a boca. Os lbios vermelhos se fecharam por sobre a ponta do garfo, e logo 
ela o tirou para fora da boca lentamente. 

Mick apontou para a pasta aberta. 

 Isso a  o meu pronturio policial? 

Maddie o observava enquanto mastigava. 

 No  disse depois de engolir  o xerife mencionou que voc foi um garoto problema 
tempos atrs, mas ele no mencionou seu pronturio policial.  Ela fechou a pasta e a 
colocou no banco ao seu lado.  Por que ele te prendeu? Vandalismo? Urinar em pblico? 
Espiar pela janela dos outros? 

Que espertinha pensou Mick, mas respondeu: 

 Em geral por causa de briga. 

 Ele mencionou um incndio. Voc no sabe nada a respeito, sabe?  Ela ps mais um 
bocado de salada na boca e tomou um gole de ch gelado. 

 No sei nada sobre nenhum incncidio. 

 Claro que no.  Ela pousou o garfo no prato e apoiou as costas no encosto da cadeira, 
cruzou os braos abaixo dos seios fartos. A camiseta de Maddie era to fina que ele podia 
ver claramente o contorno do suti branco. 

 E com Harriet Landers, a conversa foi agradvel? 

Ela mordeu o lbio para evitar o riso.  Foi... foi bem interessante. 

Mick afundou na cadeira e abaixou as sobrancelhas. A ponta da sua bota tocou o p dela. 
Maddie inclinou a cabea para um dos lados. Como seda macia e reluzente, seus cabelos 
cairam por cima de um dos ombros. Ela o olhou fixamente por alguns instantes antes de se 
sentar reta e afastar o p do contato com ele. 

 Harriet transou com meu av no banco de trs do carro dela at ele morrer  disse.  
Isso  quase um crime. 

Maddie empurrou o prato para o lado e cruzou os braos sobre a mesa.   verdade, mas 
foi puro sexo. 


 E voc vai escrever sobre isso. 

 No havia pensado em mencionar a... partida inoportuna do seu av.  Ela virou um 
pouco a cabea e olhou-o pelos cantos de seus grandes olhos castanhos.  Mas preciso 
encher pginas com os antecedentes da famlia. 

 Claro! 

 Ou eu poderia encher pginas com fotos.  

 Quer que eu lhe d fotos? Fotos instantneas de uma linda famlia feliz? Talvez do Natal 
ou de algum dia de Ao de Graas ou do vero em que fomos para o Parque de 
Yellowstone? 

Ela tomou mais um gole de ch, ps o copo novamente sobre a mesa.  Isso seria timo! 

 Pode esquecer! Eu no me deixo levar por chantagem. 

 Ora, onde est a chantagem? Isso est mais para cada um conseguindo o que quer. E o 
que eu realmente quero  tirar fotos de dentro do Hennessys. 

Mick se inclinou ainda mais por sobre a mesa e disse: 

 E como se sente por querer uma coisa que nunca vai conseguir? A garonete deixou um 
saco plstico com a comida de Mick sobre a mesa. Ele esperou que a moa se afastasse e 
disse sem tirar os olhos de Maddie: 

 Fique longe do meu bar. 

Maddie se inclinou na direo dele at que seus rostos estivessem a poucos centmetros um 
do outro. 

 Ou?, desafiou. 

Ela era corajosa demais, e Mick quase gostava daquela caracterstica. Quase. Ele a encarava 
enquanto procurava a carteira no bolso de trs da cala. Tirou vinte dlares e os jogou sobre 
a mesa. 

 Ou eu vou te botar para fora com um chute no traseiro. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 9 

 

 Voc  louca! 

 Vai dar tudo certo.  Maddie olhou para Adele atrs de si e abriu a porta do Mort's. 

 Ele no disse que ia te botar pra fora com um chute no traseiro? 

 Tecnicamente, estvamos falando sobre o Hennessys. 

Entraram e a porta se fechou atrs delas. Adele se inclinou e falou prximo ao ouvido de 
Maddie acima do barulho e da msica que saam da jukebox: 

 Voc acha mesmo que ele vai se importar com a parte tcnica? Maddie entendeu que 
aquela era uma pergunta puramente retrica e olhou ao redor procurando pelo dono em 
meio  multido dentro do bar vagamente iluminado. Eram oito e meia da noite de uma 
sexta-feira, e o Morts havia sido novamente encerado. Ela no tinha a mnima inteno de 
colocar os ps naquele bar de cowboys novamente, at Mick lhe dizer para no pisar no seu 
bar. Precisava faz-lo entender que ele no a intimidava. Ela no tinha medo de nada. 

Reconheceu Daria da ltima vez que esteve no Mort's e a vizinha Tanya que conhecera na 
festa dos Allegrezza. No estava com medo. S queria conseguir ficar um pouco mais 
dentro do bar antes que Mick a visse. 

Maddie havia se preparado para aquela noite. Mais cedo enrolou os cabelos com rolos 
grandes que deram mais volume e ondas generosas. Tambm estava usando mais 
maquiagem que o usual, e um vestido de malha de algodo branco e sandlias com salto 
alto. E carregava um casaco vermelho de l angor, porque sabia que assim que o relgio 
marcasse nove horas comearia a sentir muito frio, como de costume. Se iria ser levada  
porta da rua, queria estar bem durante o trajeto. 

Uma msica sobre mulheres com pescoo vermelho tocava na jukebox, enquanto Adele e 
Maddie avanavam em seu caminho em meio  multido na direo a uma mesa vazia no 
canto do bar. Adele, que tinha longos cachos, usava um jeans apertado e uma camiseta onde 
se lia: SALVE UM CAVALO, DOME UM COWBOY, tambm chamava ateno considervel. 

 E a, voc est vendo Mick? Adele perguntou enquanto passava entre as cadeiras e 
olhava para o balco. 

Elas foram alm do planejado. Era simples. Nada arriscado: apenas entrar no Morts, tomar 
uns drinques e sair. To fcil quanto tirar doce de criana, mas agora Adele estava agindo 
como se fosse uma espi, lanando seus enormes olhos sobre tudo o que estava em volta, 
como se esperasse que uma equipe da SWAT entrasse violentamente, sacasse suas bazucas, 
e as forassem a se estender completamente no cho. 

 No. Eu ainda no estou vendo Mick. Maddie colocou a bolsa na mesa bem perto do 
cotovelo e olhou para o bar mais minuciosamente. As luzes da jukebox e do bar se 
derramavam sobre a multido, mas chegavam apenas timidamente ao canto do bar em que 
elas se encontravam. Era um local perfeito para verem sem serem vistas. 

Adele inclinou a cabea para perto de Maddie e perguntou: 

 Como ele ? 

Maddie levantou uma das mos e sinalizou para a garonete. 

 Alto. Cabelo escuro e olhos muito azuis  respondeu. Charmoso quando quer alguma 
coisa, e o beijo pode fazer uma mulher perder a cabea. Maddie pensou no dia em que ele 
trouxe o motel para ratos, no beijo e nas mos dele na sua cintura, e no seu estmago que 
ficou um pouco apertado.  Quando as mulheres dentro deste bar comearem a balanar 
os cabelos e a procurar na bolsa por uma bala de hortel, voc vai saber que ele chegou. 


Uma garonete com um permanente detestvel, jeans apertados no traseiro e uma camiseta 
do Morts anotou o pedido das bebidas. 

 Ele  tudo isso?  Adele perguntou quando a garonete se afastou da mesa. 

Maddie confirmou com um geseto de cabea. Tudo isso era uma maneira bastante justa de 
se referir ao Mick. Com certeza ele era digno de tanta ateno, e houve um momento, ou 
dois, em que ela esteve a ponto de mord-lo. Como quando olhou por cima da salada no 
restaurante, em que ele estava sentado de frente para ela. Momentos antes ela estava 
pensando no trabalho, lendo as ltimas anotaes, feitas durante a entrevista com o xerife 
Potter. Depois, como num passe de mgica, l estava Mick olhando para ela daquela 
maneira quente e inacreditavelmente irritado. Em geral, ela considerava um homem 
zangado o que menos se aproximava do quente, mas Mick no era um homem qualquer. 
Quando se sentou na frente dela, avanando pouco a pouco e avisando-a para que ficasse 
longe do bar, seus olhos se transformaram num azul profundo e fascinante. E Maddie se 
percebeu tentando descobrir o que Mick faria se ela se levantasse o beijasse por cima da 
mesa. Se lhe beijasse o pescoo e se o mordesse logo abaixo da orelha. 

 Falei com a Clare hoje  Adele disse tirando a ateno de Maddie das elucubraes 
acerca de Mick. Assim as duas amigas comearam a conversar sobre o casamento que se 
aproximava, at que a garonete retornou com o Bitch on Wheels de Adele, e o martini 
com vodca extra-seco de Maddie. A garonete podia ter um cabelo horroroso, mas 
trabalhava muito bem. 

 O que h com os cabelos de algumas das mulheres desta cidade?  Adele perguntou 
quando a garonete se afastou. 

O olhar de Maddie examinava a multido e calculava que a relao entre cabelo ruim e 
cabelo bom era meio a meio. 

 Eu tambm estou tentando descobrir isso.  Maddie levou o copo aos lbios.  A 
metade delas tem cabelo bom e a outra metade tem na cabea uma espcie confuso 
superproduzida.  Por cima da beirada do copo, continuou sua vigilncia. Ainda no havia 
nenhum sinal de Mick. 

 Eu te contei sobre o cara com quem sa na semana passada?  perguntou Adele. 

 No...  Maddie vestiu o suter e se preparou para uma das histrias de encontro 
desastroso de Adele. 

 Bem, ele foi me buscar num daqueles carros dos anos setenta que foram modificados, 
sabe? 

 Sei. Um daqueles carros que explodem? 

 Exatamente! O carro era laranja brilhante, parecia um alvo em movimento. Ele dirigia 
pensando que era o Michael Schumacher.  Adele ps alguns cachos rebeldes atrs da 
orelha.  E ainda usava aquelas luvas de corrida sem dedos. 

 No  possvel, voc est me gozando. Onde voc encontrou esse cara? 

 Numa pista de corrida. 

Maddie no perguntou o que Adele fora fazer numa pista de corrida. Nem queria saber. 

 Diga-me uma coisa: voc no transou com esse cara, no ? 

 Claro que no! Um cara que dirige to rpido deve fazer muitas outras coisas rapidinho. 
 Adele suspirou.  Acho que fui amaldioada com encontros ruins. 

Maddie no acreditava em maldio, mas no podia discordar. Adele tinha a pior sorte com 
os homens do que qualquer outra mulher que ela conhecia. E a prpria Maddie j tivera 
uma srie de encontros ruins. 


Uma hora e trs outras histrias de encontros frustrados mais tarde, ainda no havia 
qualquer sinal de Mick. Elas pediram outro drinque, e Maddie comeou a imaginar que ele 
podia no aparecer naquela noite no final das contas. 

 Ol, senhoritas! 

Maddie olhou por cima do martni para dois homens que estavam em sua frente. Os dois 
eram altos, loiros e tinham a pele muito bronzeada. O homem que falou tinha um sotaque 
australiano. 

 Ol Adele disse e tomou um gole do seu Bitch on Wheels. Adele podia ter tido um 
monte de encontros desastrosos, mas isso acontecia unicamente porque seus cachos 
dourados e seus grandes olhos azuis atraiam muitos homens. Obviamente o amuleto da 
sorte de Adele funcionava para quaisquer nacionalidades. De trs do seu copo, Maddie 
olhou para Adele e sorriu. 

 Vocs gostariam de se sentar?  Adele perguntou. 

No foi necessrio perguntar duas vezes, os dois puxaram as duas cadeiras vazias e se 
apresentaram: 

 Meu nome  Ryan  disse o sujeito mais prximo de Maddie, achatando as vogais 
como se fosse Crodilo Dundee. 

Colocando seu drinque sobre a mesa, disse apenas: 

 Maddie. 

 Este  meu colega Tom.  Apontou para o amigo.  Vocs moram em Truly? 

 Acabei de me mudar pra c  explicou reparando no sotaque engraado e tentando 
descobrir qual era a cor dos olhos em meio quela escurido. 

 E voc? De qualquer forma, ele era muito atraente. 

Ryan arrastou a cadeira para mais perto para que pudessem se ouvir melhor.  Estamos 
aqui apenas para a temporada de incndios florestais do vero. Estrangeiro e atraente. 

 Voc  bombeiro-paraquedista? 

Ryan consentiu com um gesto de cabea e continuou a explicar que a estao de fogo na 
Austrlia era exatamente oposta  dos Estados Unidos. Em funo disso, muitos 
australianos bombeiros-paraquedistas vinham trabalhar no oeste americano durante o vero. 
Quanto mais Ryan falava mais Maddie ficava fascinada, no apenas pelo que ele falava, 
mas pelo som da voz rouca enquanto descrevia seu trabalho. E cada vez mais Maddie 
imaginava se ele no seria o homem perfeito com quem ela poderia sair da abstinncia. Ele 
ficaria em Truly por pouco tempo e depois iria embora. No estava usando aliana, se bem 
que ela sabia que isso podia no significar absolutamente nada. Ela se inclinou um pouco 
mais para perto dele e perguntou: 

 Voc  casado?  S para ter certeza. Mas antes que ele pudesse responder, duas mos 
agarraram seus braos e a levantaram da cadeira. Maddie foi virada lentamente para trs, 
at que seu olhar parou no meio de um peito largo vestindo uma camiseta do Mort's. 
Mesmo com toda a escurido que os cercava ela pde reconhecer aquele peito antes mesmo 
de levantar o olhar para o pescoo largo, o queixo forte e os lbios apertados. E nem 
precisou olhar para os olhos dele para saber que estavam queimando naquele azul furioso. 

Mick inclinou-se mais perto dela e perguntou: 

 O que  que voc est fazendo aqui? 

Maddie sentiu o perfume do sabonete e da pele dele. 

Aparentemente estou falando com voc. 

Uma das mos dele deslizou at a mo dela e a segurou com fora 

 Venha!  ordenou rspido. 


Ela agarrou a bolsa de cima da mesa e olhou para Ryan que ficara para trs, e depois para 
Adele. 

 Eu j volto!  gritou. 

 Voc parece ter certeza disso  Mick falou enquanto a puxava em meio  multido, na 
direo dos fundos do Morts.  Desculpe! pediu quando ele colidiu com Daria. Mick 
manteve a mo dela apertada enquanto pediu se movimentava no meio da multido como se 
estivesse desempenhando a funo de atacante em uma partida de rgbi. Ela foi forada a 
distribuir vrios pedidos de desculpas, sempre em alto e bom som para que fossem ouvidos 
apesar da msica estridente que saa da jukebox. Eles andaram at o final do bar, entraram 
em um pequeno hall, e ele a puxou atrs de si para dentro de uma sala pequena. 

Fechou a porta e finalmente a soltou: 

 Eu disse para voc ficar longe do meu bar. 

Em um rpido relance, o olhar de Maddie localizou a presena de uma escrivaninha de 
carvalho, um mancebo, um grande cofre de metal e um sof de couro. 

 Voc estava falando do Hennessy s quando disse isso. 

 No, eu no estava.  O olhar de Mickse apertou e ela pde praticamente sentir ondas 
de fria saindo de dentro dele.  Como eu sou um cara legal, vou te dar a opo de pegar 
os seus amigos e sair daqui pela porta da frente. 

Mais uma vez, Maddie no temia as ameaas dele. Pelo contrrio, quase gostava da 
maneira como isso fazia com que seus olhos ficassem ardentes. Deu um passo para trs 
encontrando a porta, ento ironizou: 

 Ou? 

 Ou te boto fora daqui com um chute no traseiro. 

 Ento  melhor eu alert-lo de que, se voc tocar em mim de novo, tenho uma arma de 
eletrochoque e vou desferir cinqenta mil volts no seu traseiro. 

Mick piscou surpreso. 

 No acredito, voc carrega uma arma de eletrochoque? 

 Entre outras coisas. 

Piscou novamente, meio lentamente, como se no que ouvira. 

 Que outras coisas? 

Spray de pimenta. Soco ingls. Um alarme de cento e vinte e cinco decibis e um par de 
algemas. 

 Ser que  permitido carregar uma arma de eletrochoque? 

  permitido em quarenta e oito estados. Estamos em Idaho. O que voc acha? 

Que voc  louca! Maddie sorriu e returcou: 

 J me disseram isso. 

Mick a encarou por algum tempo antes de perguntar: 

  um hbito seu andar por a irritando as pessoas? Ocasionalmente fazia com que as 
pessoas ficassem irritadas, mas nunca fez disso um hbito. 

 No respondeu calmamente. 

 Ento  s comigo. 

 Eu no pretendia enlouquec-lo, Mick. 

Uma das sobrancelhas escuras dele elevou-se na testa bronzeada. 

 Bem, no quis enlouquec-lo antes desta noite. Mas eu tenho um certo problema com 
quem fica me dizendo o que eu posso fazer ou no. 

 Ah, t...  Ele cruzou os braos na frente do peito largo. 

 Por que voc precisa de toda essa parafernlia? 


 Eu entrevisto pessoas que no so muito boazinhas.  Maddie encolheu os ombros.  
Embora geralmente eles fiquem acorrentados pela barriga e pelas pernas, e algemados a 
uma mesa enquanto converso com eles. Ou conversamos atravs de um vidro a prova de 
choque. Claro, as prises nunca me deixam levar meus equipamentos de segurana, mas eu 
sempre os recebo de volta quando saio. Quando estou carregando essas coisas sinto-me 
mais segura. 

Maddie deu um passo para trs e seu olhar a varreu de cima a baixo. 

 Voc parece normal, mas no  afirmou. 

Maddie no sabia se devia tomar aquilo como elogio ou crtica. Provavelmente ele quis lhe 
fazer um elogio... 

Ele se balanou para trs e novamente olhou para ela. 

 Voc estava planejando liquidar o cara loiro que estava com voc naquele canto? 

 Ryan? No, mas se ele souber jogar direitinho pode ser que eu o algeme. 

 Ele  um idiota. 

Se no o conhecesse bem, ela pensaria que Mick estava com cime.  Voc o conhece? 

 Eu no preciso conhecer o cara para saber que ele est sendo usado. 

 Como pode dizer que algum  um idiota se no o conhece? Em vez de responder, Mick 
acusou: 

 Voc estava praticamente aos beijos com ele. 

 Isso  ridculo! Eu no me envolvo com um estranho num bar desde o tempo do colgio. 

 Talvez voc esteja cansada do papel de abstinente sexual. 

Seria puro eufemismo dizer  talvez. Ela estava realmente cansada desse papel, mas 
quando pensava em sexo, pensava nica e exclusivamente em Mick. Ryan era atraente, mas 
de fato era um estranho que ela conheceu num bar, e no se envolvia mais com estranhos 
que conhecia em bares. 

 No se perturbe com o meu celibato provocou. 

O olhar dele escorregou para boca Maddie, e continuou num movimento descendente para 
o queixo, para o pescoo, chegando ao peito. Eram mais de nove horas, ela estava com frio, 
claro. 

 Docinho, seu corpo no foi feito para o celibato.  Os mamilos intu-mescidos de 
Maddie faziam duas marcas salientes no vestido.  Ele foi feito para o sexo.  Ele a 
olhou nos olhos.  Muito sexo, intenso e trrido durante toda a noite e at a manh 
seguinte. 

Normalmente teria sido tentada a agredir um homem por ter lhe dito algo parecido. Mas 
como foi Mick que disse, Maddie sentiu uma excitao que comeou no estmago e se 
espalhou por todo o seu corpo, que ansiava por algo daquele tipo. Ela chegou a pensar em 
se candidatar  proposta de sexo trrido que ele mencionou, mas achou melhor dizer 
simplesmente: 

 O celibato  um estado de esprito. 

 ... isso explica porque voc  louca. 

 E agora quem  o idiota?  Maddie arrumou a bolsa que estava caindo do ombro. Mal 
seus dedos tocaram a bolsa, Mick prendeu suas mos ao lado da cabea na porta. 

Ela olhou para o rosto dele que estava a menos de trs centmetros do seu. 

 O que voc est fazendo? Ficou maluco? 

 Eu no vou ficar aqui e simplesmente deixar voc descarregar cinqenta mil volts em 
mim. 

Maddie tentou no sorrir, mas falhou. 


 Calma... eu s estava arrumando a bolsa no meu ombro. 

 Pode me chamar de paranico, mas eu no acredito em voc. 

 Voc realmente pensou que eu iria te liquidar desse jeito?  Liquidar com ele seria a 
ltima coisa que lhe passaria pela cabea naquele momento. 

 No? 

Ela deu uma gargalhada: 

 No! Voc  muito bonito para levar um choque de cinqenta mil volts. 

 Eu no sou bonito!  Quando ele disse isso Maddie sentiu o ar que lhe saiu pela boca 
tocar no seu rosto e no pescoo.  Voc est com um perfume de morango hoje. 

 Voc notou?  s uma loo. 

  o mesmo perfume que voc estava usando naquele dia que te encontrei na loja de 
ferramentas. Mick se aproximou e sentiu o perfume dos cabelos de Maddie e ela sentiu 
como se levasse um choque ao senti-lo to perto.  Voc sempre cheira to bem... Isso tem 
me deixado louco...  Ele pressionou o seu corpo contra o dela.  Quando eu te vi do 
outro lado do balco, quis fazer isso...  Ele baixou o rosto para o pescoo dela. 

 Pensei que voc quisesse me chutar para fora...  Como aquela situao se tornou de 
repente to excitante? Poucos minutos atrs Maddie estava com frio. Naquele momento 
sentia arrepios de calor cortando a sua pele. 

 Eu vou fazer isso... Mais tarde...  Ele soltou as mos, mas seus quadris a mantiveram 
presa contra a porta. Definitivamente Mick estava completamente excitado e uma ligeira 
dor surgiu entre as coxas de Maddie. Harriet tinha razo. Os homens da famlia Hennessy 
eram abenoados.  Primeiro eu quis sentir o seu perfume bem aqui.  Ele puxou o suter 
dela pela gola e o esticou, beijando em seguida seu ombro nu.  Aqui voc  macia e tem 
um gosto to bom... 

 ... eu gosto de estar com a pele sempre macia.  Maddie inspirou levemente, seus 
olhos se fecharam. Derrepente desejou que ele a provasse um pouco mais embaixo.   o 
meu hedonismo que me com que eu me cuide desse jeito. 

 Como voc pode ser hedonista e celibatria?  Mick perguntou enquanto lhe 
acariciava o pescoo. 

 No  fcil...  E estava ficando ainda mais difcil naquele momento. Se ela no fosse 
cuidadosa, seu lado hedonista controlaria o lado celibatrio, e ela iria cair numa enorme 
fogueira de glria orgstica. O que no parecia to ruim assim. No com Mick. Ela 
escorregou a mo sobre o rosto dele e com o polegar sentiu a barba cerrada.  
Especialmente quando voc est por perto... 

Entre nervoso e satisfeito, ele teve um acesso de riso. Quando levantou novamente o rosto 
seu olhar tinha um aspecto lnguido pelo desejo. Desejo que lhe brilhava nos olhos e fazia 
seus clios parecerem muito longos. Suas mos se moviam na direo da cintura Maddie. 

 Voc  o ltimo homem sobre a face da Terra que eu posso ter...  disse, e ergueu o 
rosto para o beijo   o que eu mais quero. 

 Essa vida  mesmo muito difcil, no ?  ele sussurrou enquanto levava os lbios aos 
dela. 

Maddie concordou e levantou os calcanhares. Ergueu os braos, enlaou-o pelo pescoo e 
beijou-o com voracidade. Por vrias batidas do corao desesperado ele se manteve 
perfeitamente imvel, enlaando-a pela cintura, desfrutando daquele beijo enlouquecedor. 
Ento ele deu um gemido profundo e escorregou uma das mos por debaixo do suter 
tocando a pele delicada das costas de Maddie. Ele a trouxe ao encontro do seu peito e 
voltou a beija-la. De maneira delicada , doce, tornou a envolv-la na nvoa do desejo. 


A bolsa de Maddie caiu no cho e ela passou a mo sobre os msculos fortes que havia nos 
braos e nos ombros dele. Ele irradiava calor e esquentava seus seios, que estavam 
pressionados contra o peito dele. Maddie nunca foi uma amante passiva, e enquanto ele 
docemente fazia amor com sua boca, seus dedos se esconderam entre os cabelos dele e sua 
mo livre percorreu os rijos contornos do peito e das costas dele. Se no fosse Mick 
Hennessy, ela teria tirado a camiseta dele de dentro dos jeans e sentido a sua pele nua. 

 Voc  a ltima mulher que eu deveria desejar  ele disse em meio  respirao 
entrecortada.  E a nica mulher em quem eu no consigo parar de pensar.  As mos 
desceram na direo dos quadris de Maddie que embalavam a ereo dele. 

 O que em voc me deixa to louco? 

Maddie se esfregava contra o corpo msculo, enquanto ele lhe esticava o suter e o puxava 
pelos braos, jogando o angor vermelho em algum lugar atrs de si. Ela j no precisava 
do suter, estava muito quente. Os dedos de Maddie afastaram a camisa e sua boca lhe 
percorreu o pescoo, sentindo na lngua aquele gosto bom dele. Sugando, explorava-lhe a 
pele que tinha sabor de carne de homem excitado. H quatro anos ela no sentia nada to 
delicioso, estava perdendo isso. Havia perdido o toque da mo de um homem, a boca 
quente, e os sons da excitao das profundezas da garganta dele. 

Os dedos dele encontraram o lao do vestido na nuca de Maddie e ele o puxou com fora 
at solt-lo. Deixou que as tiras brancas cassem e voltou novamente seus lbios para sugar 
os dela. Desta vez no havia nada suave ou doce no beijo dele. Tudo se transformou em 
necessidade carnal e de saciar a fome, em bocas e lnguas famintas. E eles saciaram-se 
completamente naquele beijo. Poderia t-lo interrompido. Mas no quis que ele parasse. 
No agora. No quando ela queria mais. A parte de cima do vestido escorregou at a altura 
da cintura, e as mos de Mick envolveram seus seios por cima do corpete sem ala. Os 
polegares dele tocaram os mamilos sensveis por cima do algodo espesso. Maddie 
pressionou o corpo contra o dele, fazendo novamente se tocarem os lugares que mais 
transpiravam toda aquela excitao. Mick gemeu enquanto lhe beijava a boca. Ela estava 
quente e atordoada, a pele ardia, os seios pareciam pesados e os mamilos dolorosamente 
retesados. H muito tempo ela no sentia tanto prazer... Ela deslizou a mo no peito 
msculo at chegar nos quadris comprimiu todo o volume daquela ereo. 

Novamente ele gemeu enquanto a beijava: 

 Isso... me toca.  Ela o tocou, enquanto os dedos dele tocavam-lhe os mamilos por 
cima do corpete, ela escorregava a mo para cima e para baixo em toda a extenso do 
membro dele, desde a parte mais baixa do zper e por toda a extenso do longo 
comprimento, to duro quanto pedra e at a extremidade volumosa. O homem era muito 
bem dotado, e aquela dor molhada que sentia entre as coxas lhe exigiu que trouxesse uma 
das mos dele para o meio de suas pernas, para envolver o seu clitris, tocando-a por cima 
da calcinha e... De repente Maddie deixou suas mos carem e pediu: 

 Pare! 

Mick levantou a cabea levemente e murmurou: 

 Daqui a pouco. 

Daqui a pouco estaria lutando violentamente contra o orgasmo. Ela virou o rosto e afastou 
as mos dele do seu corpo. 

 Voc sabe que ns no podemos fazer isso. Ns nunca poderemos transar. Maddie 
manteve seu olhar no dele enquanto amarrava o vestido atrs do pescoo.  Nunca. 

Mick balanou a cabea e seus olhos pareciam um pouco selvagens. 

 Eu estou sempre repensando isso. 


 No h nada que repensar.  Ele era Mick Hennessy e ela, Maddie Jones.  Acredite 
em mim, voc  o ltimo homem sobre a Terra com quem eu posso me envolver, e eu sou a 
ltima mulher com quem voc deveria fazer isso. 

 Neste momento eu no consigo me lembrar o porqu. 

Ela devia lhe dizer. Tudo. Quem ela era realmente e quem ele era para ela. 

 Porque...  Maddie lambeu os lbios e engoliu, de repente sua garganta ficou seca. A 
tenso sexual que havia entre eles, uma fora pulsante, quente e quase irresistvel. O 
pescoo Mick estava vermelho onde ela o marcou, e o olhar dele completamente 
iluminados pelo desejo... A ltima coisa que ela queria era ver todo aquele fogo abrasador 
substitudo por desgosto. Ento decidiu: agora no, mais tarde. 

 Porque eu estou escrevendo um livro sobre seus pais e Alice Jones, e fazer amor com 
voc no vai mudar isso. Eu s vou tornar a minha tarefa mais difcil. 

Ele deu alguns passos para trs e se sentou na borda da escrivaninha. Respirou fundo e 
passou os dedos entre os cabelos. 

Havia me esquecido desse detalhe.  Suas mos baixaram.  Por alguns minutos esqueci 
que voc est na cidade para desenterrar o passado e transformar a minha vida num inferno. 

Maddie abaixou-se e apanhou a bolsa. 

 Sinto muito.  E ela realmente sentia, mas sentir muito no mudaria nada. Ela quase 
desejou que mudasse. 

 No o suficiente para parar. 

 No.  Respondeu e alcanou a maaneta da porta atrs dela.  No a esse ponto. 

 Quanto tempo, Maddie? 

 Do qu voc est falando? Mick respirou fundo e perguntou. 

 Quanto tempo voc vai ficar na cidade atrapalhando a minha vida? 

 No sei. Talvez at a primavera. 

Maddie colocou a bolsa no ombro e o olhou sentado com os cabelos escuros despenteados, 
mas resistiu ao impulso de arrum-los. Ele levantou o olhar e sentenciou: 

 Obviamente ns no podemos ficar a trs metros um do outro. E apesar de que te pedir 
para ficar longe dos meus bares ter sido a mesma coisa que agitar uma bandeira vermelha 
na frente de um touro, eu vou pedir de novo para que voc fique longe dos meus bares. 

 Voc no vai mais me ver por aqui  assegurou. 

Em seguida abriu a porta e seguiu em direo ao bar, onde ouviu a msica country muito 
alta e o cheiro de cerveja muito forte, e trilhou o caminho na direo da mesa onde Adele 
ficara. Quando chegou ao Morts naquela noite, queria saber se Mick a jogaria para fora do 
bar com um chute no traseiro, como havia ameaado. 

Agora ela pensava se no teria sido melhor se ele tivesse cumprido o que ameaou. Mick 
fechou a porta do escritrio, debruando-se em seguida sobre ela. Fechou os olhos e com a 
mo pressionou sua ereo ansiosa. Se Maddie no tivesse interrompido, ele teria deslizado 
as mos para os quadris, tirado a calcinha dela e feito sexo com ela ali mesmo, encostado 
na porta. Ele teria se certificado de ter fechado a porta, embora no apostasse que teria tido 
presena de esprito suficiente para fazer isso. 

Ele baixou as mos e deu uma volta em torno da mesa. O suter vermelho dela estava 
jogado no cho. Ele o apanhou antes de se sentar na cadeira para olhar fixo no cofre que 
estava do outro lado do escritrio em sua frente. Mais cedo, olhando todo o bar localizou 
Maddie sentada naquela mesa, bebendo o seu martni tranqilamente, como se no tivesse 
dito a ela para ficar longe dos seus bares. Isso o havia deixado completamente perturbado. 
To perturbado quanto a arma de eletrochoque que ela carregava na bolsa. Por trs de toda 


aquela perturbao veio uma grande dose de fria e a nsia de sentir o cheiro do perfume 
no pescoo dela. 

Ao perceber que ela estava conversando com o australiano, sentiu mais alguma coisa. Algo 
como um desconforto. Alguma coisa que parecia um pouco como se ele quisesse cortar a 
cabea do homem fora. O que era absolutamente ridculo. Mick no tinha nada contra o 
australiano, e ele certamente no tinha qualquer tipo de relacionamento com Maddie 
Dupree. Mick no sentia nada por ela. Bem, exceto raiva. E um desejo que oscilava. Um 
desejo ardente de enfiar o nariz no pescoo dela, e ao mesmo tempo de enfiar a si mesmo 
em meio quelas coxas macias. Vrias vezes. 

Havia alguma coisa com relao a Maddie. Algo que no era o belo corpo e o lindo rosto. 
Alguma coisa que estava sob o perfume da pele dela e daquela boca metida a espertinha. 
Alguma coisa que fez com que o seu olhar atravessasse todo o bar at a mesa em que ela 
estava, naquele canto escuro. Alguma coisa que o fez reconhecer o contorno dela, como se 
ele a conhecesse. Alguma coisa indescritvel que o fazia beij-la, toc-la e segur-la 
apertado contra seu peito como se esse fosse o lugar ao qual ela pertencia, quando na 
verdade, ela no pertencia a lugar nenhum prximo dele. Fato que ele costumava esquecer 
quando ela estava perto dele. 

Mick levou o suter ao rosto e sentiu o perfume. Doce como morango, e o jogou sobre a 
escrivaninha. 

H algumas semanas, a vida dele era razoavelmente boa. Ele tinha planos para o futuro, que 
no inclua pensar sobre o passado. Um passado que a muito custo ele conseguiu esquecer. 

At aquele momento. At Maddie dirigir seu carro preto cidade adentro e jogar a vida dele 
para fora da estrada. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 10 

 

Maddie levou pouco mais de uma semana para localizar a amiga de sua me e que foi sua 
vizinha no Parque Roundup. Logo depois da morte de sua me, Trina Olsen-Hays vendeu 
seu trailer e se mudou para Ontrio, no Oregon. Casou-se com um bombeiro em meados 
dos anos 80, teve trs filhos e dois netos. Sentada agora em frente a ela no caf, Maddie 
teve uma ligeira lembrana da mulher rechonchuda com volumosos cabelos vermelhos, 
sardas e sobrancelhas pintadas. Lembrou-se de j ter visto aquelas sobrancelhas e de ter 
ficado um pouco amedrontada por causa delas. Ver Trina tambm trouxe de volta a Maddie 
a vaga lembrana de uma colcha de bolinhas cor-de-rosa. Ela no sabia porqu ou o que 
isso queria dizer. Apenas que se sentia quente e segura enrolada nela. 

 Alice era uma garota realmente legal  Trina falou sobre a xcara de caf e o prato com 
uma torta de noz-pec.  E era jovem. 

Maddie olhou para o gravador que estava sobre a mesa entre elas, e em seguida tornou o 
olhar para Trina. 

 Ela tinha vinte e quatro anos. 

 Costumvamos dividir uma garrafa de vinho e falar sobre o futuro. Eu queria conhecer 
o mundo. Alice s queria se casar.  Trina balanou a cabea como que triste e pegou um 
bocado de torta.  Talvez porque ela tivesse uma menininha, no sei... mas ela s queria 
encontrar um homem, se casar e ter mais filhos. 

Maddie no sabia que sua me pensava em ter outros filhos, mas sups que faria sentido. Se 
a me continuasse viva, ela teria sem dvida um irmo ou uma irm, ou mesmo um de 
cada. No era a primeira vez que ela se dava conta de como sua vida poderia ter sido 
diferente se no fosse por Rose Hennessy. Maddie amava sua vida, e a mulher em quem se 
transformou. No desejaria mudar isso por nada, mas algumas vezes quis saber quo 
diferente as coisas poderiam ter sido. 

 Voc conheceu Loch ou Rose Hennessy?  Enquanto olhava para Trina do outro lado 
da mesa, ficou imaginando se a me teria mantido o cabelo com o mesmo penteado alto e 
enrolado ou se o teria mudado de acordo com a moda. 

 Eles eram mais velhos que eu, mas eu os conhecia. Rose era... imprevisvel.  Trina 
tomou um gole de caf.  E Loch era um homem com um charme inato. No h dvidas 
do porqu de Alice ter se apaixonado por ele. Quero dizer, todo mundo sabia. Ainda que a 
maioria de ns soubesse melhor. 

 Voc sabe como o Loch se sentia com relao a Alice? 

 Sei apenas que Alice pensava que ele deixaria a esposa e a famlia para ficar com ela.  
Trina levantou os ombros.  Mas toda mulher com quem ele esteve envolvido acreditou 
nisso. S que Loc 

 Ou poderia ter sido que Alice fosse to mais jovem e mais bonita que as outras. Quem 
sabe? A coisa de que mais me lembro  da rapidez com que Alice se apaixonou por Loch. 
Voc no imagina como foi rpido at que ela estivesse loucamente apaixonada. 

Depois de ler os dirios da me, Maddie de fato podia acreditar nisso. 

Trina tomou outro gole de caf e seu olhar percorreu o rosto de Maddie enquanto ela 
mastigava. Suas sobrancelhas pintadas abaixaram e ela olhou para os olhos de Maddie. 

h nunca fez isso por ningum. Ele tinha casos, claro, mas nunca deixou Rose. 

 Ento na sua opinio o que teria feito com que o caso de Loch e Alice fosse diferente? O 
que levou Rose ao momento crtico que a fez carregar um revlver e ir ao Hennessy s 
naquela noite? 


Trina balanou a cabea. 

 Eu sempre pensei que naquela noite ela chegou no seu limite, cansou-se de saber do 
marido com outra mulher. 

Talvez. 

 Estou reconhecendo a sua boca. Voc  a filhinha de Alice, no ? Maddie fez que sim 
com a cabea. Era quase um alvio algum saber disso. Trina sorriu. 

 Nossa! Veja s isso! Eu sempre quis saber o que aconteceu com voc depois que a sua 
tia a levou embora. 

 Era minha tia-av. Fui viver com ela em Boise. Ela faleceu na ltima primavera. Foi 
ento que eu me deparei com os dirios da minha me, onde encontrei o seu nome. 

Trina alcanou o outro lado da mesa e acariciou a mo de Maddie. O toque era calmo e um 
pouco constrangido. 

 Alice estaria muito orgulhosa de voc. 

Maddie gostava de pensar assim, mas nunca saberia com certeza. 

 Mas me conte, voc est casada, tem filhos? 

 No. 

Trina acariciou a mo de Maddie uma ltima vez, depois a voltou novamente para o garfo. 

 Voc ainda  jovem. Tem tempo. Maddie mudou de assunto. 

 Eu tenho uma tnue memria de uma colcha de bolinhas cor-de-rosa. Voc se lembra de 
alguma coisa sobre isso? 

 Hmm...  Ela comeu um bocado, e olhou para o teto enquanto pensava.  Sim.  
Voltou o olhar para Maddie e sorriu.  Alice a fez para voc, ela usava para enrolar voc 
inteira dentro como... 

 Um burrito  Maddie concluiu quando a lembrana de um sussurro da me despertou 
sua memria. Voc  o meu burrito de bolinhas. Se Maddie fosse uma mulher sentimental, 
aquele pequeno aperto no corao lhe teria trazido lgrimas aos olhos. Mas ela nunca foi 
muito sentimental, podia contar em uma mo o nmero de vezes que chorou depois de 
adulta. 

Ela entrevistou Trina por mais quarenta e cinco minutos, depois guardou suas anotaes e o 
gravador e seguiu para Boise. Tinha outra sesso de prova do vestido de dama de honra 
naquela tarde, e encontrou as amigas no atelier da costureira, antes arrematar com elas um 
longo almoo e voltar para Truly. 

Ao voltar de Boise, parou na mercearia para comprar papel-higinico e refrigerante diet. A 
mercearia tinha um mostrurio de sinos de vento. Maddie escolheu um sino simples feito de 
tubos verdes. Virando-se viu uma grande variedade de garrafinhas para alimentao de 
beija-flores, e como nunca teve uma daquelas garrafinhas coloridas pegou uma para ler as 
instrues. Na verdade, era bobagem, pois muito provavelmente moraria em Truly apenas 
at vero seguinte. No tinha muita razo para transformar a casa em que morava num lar. 
Em todo caso colocou o alimentador no carrinho, ao lado do refrigerante. At porque 
sempre teria a opo de carregar com ela quando se mudasse. Comprara a casa como um 
investimento. Era uma mulher sozinha. Uma mulher sozinha no precisa de dois lares, mas 
imaginava que no havia pressa em vender. 

Carleen Dawson estava no corredor de alimentos para cachorros, prateleiras de coleiras e 
enforcadeiras, conversando com uma mulher com cabelos negros e longos. Maddie sorriu 
para elas quando passou com o carrinho. Carleen interrompeu a frase pela metade. 

  ela  ela ouviu Carleen dizer. Maddie continuou andando at que sentiu uma mo 
tocar no seu brao. 


 S um minuto. 

Maddie se virou e viu para um par de olhos verdes. Os poucos cabelos que tinha na nuca 
arrepiaram-se como se ela conhecesse aquela mulher. Ela usava um tipo de uniforme como 
se trabalhasse em um restaurante ou em algo parecido. 

 Sim? 

A mulher afastou a mo do brao de Maddie e disse: 

 Eu sou Meg Hennessy, voc est escrevendo sobre meus pais. 

Meg. De fato, ela realmente j havia visto aquele rosto, nas fotos de Rose. Se Mick era a 
imagem de Loch, Meg parecia muito com a me. O arrepio atrs do pescoo se espalhou 
pela espinha como se estivesse olhando para os olhos de uma assassina. A assassina de sua 
me, mas claro que Meg era to inocente quanto ela prpria. 

 Isso mesmo. 

 Eu li alguns de seus livros antes de voc chegar. Voc escreve sobre assassinos em serie, 
casos que so realmente impressionantes. Mas minha me no foi uma assassina em srie. 

Maddie no queria conversar sobre o assunto ali. No no meio de uma mercearia, e muito 
menos com Carleen assistindo. 

 Talvez voc queira conversar sobre isso em algum outro lugar. 

Meg fez que no com um gesto de cabea, seus cabelos balanaram por sobre seus ombros. 

 Minha me era uma pessoa boa. 

Isso podia ser aberto ao debate, mas no no meio daquela mercearia. 

 Eu estou escrevendo uma narrativa imparcial sobre o que aconteceu. E estava. Escreveu 
algumas verdades duras sobre a me de Meg que poderia ter facilmente atenuado. 

 Espero que sim. Sei que Mick no quer falar com voc sobre isso. Eu entendo como ele 
se sente, mas obviamente voc vai escrever esse livro com ou sem a nossa colaborao.  
Meg abriu sua bolsa, puxou uma caneta e um invlucro prateado de goma de mascar.  Eu 
no entendo porque voc acha que a morte dos meus pais  algo digno de uma novela, mas 
voc acha...  disse enquanto escrevia no lado branco do papel de goma.  Me ligue se 
tiver perguntas a fazer. 

Maddie no se chocava com qualquer coisa, mas quando Meg lhe entregou o papel, ficou 
to atordoada que no soube o que dizer. Olhou para o nmero de telefone e dobrou o papel 
no meio. 

 Voc provavelmente conversou com os parentes daquela garonete.  Meg enfiou a 
caneta de volta dentro da bolsa e seus cabelos negros cairam na frente da ma do rosto.  
Tenho certeza de que eles lhe contaram mentiras sobre minha famlia. 

 Alice tem apenas uma parenta viva. Uma filha. 

Meg olhou-a e jogou os cabelos para trs das orelhas.  Eu no sei o que ela poderia lhe 
contar. Ningum por aqui nem se lembra dela. Ela provavelmente se tornou exatamente 
igual  me, uma destruidora de lares. 

Maddie agarrou firme no seu carrinho de compras, mas conseguiu dar um sorriso 
agradvel. 

 Ela  to parecida com a me dela, como eu imaginei que voc fosse parecida com sua 
me. 

 Eu no tenho nada da minha me.  Meg ficou parada ereta e sua voz ficou um pouco 
mais estridente. 

 Minha me matou um marido traidor. J eu me divorciei do meu. 

  uma pena que sua me no tenha considerado o divrcio como uma opo melhor. 

 s vezes uma pessoa  levada a cometer desatinos. 


Besteira. Maddie ouviu a mesma desculpa de todo sociopata que entrevistou. A velha 
desculpa:  ela me empurrou para muito alm do que eu consegui suportar, por isso eu a 
apunhalei cento e cinqenta vezes. Guardou o papel com o telefone no bolso da cala e 
perguntou: 

 O que houve no caso do seu pai com Alice Jones que levou sua me a tal ponto? 

Maddie esperava a mesma resposta que obtinha sempre que fazia essa pergunta. Um 
encolher de ombros. Em vez disso, Meg rapidamente cavoucou de novo a bolsa, tirou um 
molho de chaves e cruzou os braos em frente ao peito. 

 No sei  respondeu balanando a cabea. 

Ela est mentindo. Maddie olhou no fundo dos olhos verdes de Meg, que desviou o olhar 
para uma variedade de pacotes de comida para cachorro na prateleira. Sem dvida, ela sabia 
alguma coisa. Alguma coisa sobre a qual no queria falar. 

 Apenas trs pessoas sabiam o que realmente aconteceu naquela noite. Meu pai, minha 
me e aquela garonete. Eles esto todos mortos.  Meg enfiou um dos dedos na argola do 
molho de chaves e com os demais cobriu as chaves.  Mas se voc quiser saber a verdade 
sobre a vida da minha me e do meu pai, me ligue. Eu vou esclarecer as coisas para voc  
disse e se virou para ir embora. 

 Obrigada. Eu vou ligar.  Maddie respondeu, embora no estivesse nem um pouco 
iludida pela nsia de que Meg a ajudaria, e duvidava de que ela revelaria toda a verdade 
sobre a vida de Rose e Loch. Meg daria a sua prpria verso que, Maddie tinha certeza, 
seria uma viso disfarada e atenuada. 

Ela empurrou o carrinho para o caixa, ps seus itens sobre o balco. Mick havia 
mencionado que a irm podia ser difcil. Ser que ela sofria da mesma instabilidade mental 
de Rose? Maddie sentiu a hostilidade de Meg e o ressentimento em relao a Alice e a ela 
prpria. Meg recusou-se a dizer o nome de Alice, mas sabia alguma coisa sobre aquela 
noite, quanto a isso Maddie tinha certeza. Seja l o que fosse, Maddie descobriria. Extrara 
segredos de pessoas muito mais perspicazes e com mais coisas a perder que Meg Hennessy. 

Quando Maddie entrou em casa depois de ter estado fora o dia todo, a carcaa de um 
camundongo morto estava a sua espera. Na ltima semana o dedetizador finalmente 
executou o servio e montou as armadilhas. Como resultado disso, Maddie continuou 
achando camundongos mortos por vrios lugares da casa. Deixou os pacotes da mercearia 
sobre o balco da cozinha, depois arrancou algumas folhas de toalha de papel. Pegou o 
camundongo pela cauda o carregou para a lata de lixo que ficava do lado de fora da casa. 

 O que voc est fazendo? 

Maddie olhou para trs para as sombras profundas formadas pelos enormes pinheiros, e seu 
olhar aterrissou em dois garotos vestidos como mini-autoridades. 

Ela lhes mostrou o camundongo e respondeu: 

 Jogando isto aqui no lixo. 

Travis Hennessy cocou a bochecha com o cano de um revlver verde. 

 A cabea dele pulou fora?, quis saber. 

 Sinto muito. No. 

 Droga! 

Maddie largou a carcaa na lixeira. 

 Minha me e meu pai esto indo para Boise  Pete disse a ela  porque os bebs que 
minha tia estava esperando, nasceram. 

Maddie se virou e olhou para Pete. 

  mesmo? Que boa notcia! 


 Daqui a pouco o meu pai vai nos levar para a casa do Travis. Ele disse que o meu tio 
Nick precisa de um trago.  Pete carregava seu rifle de plstico camuflado e um dardo de 
borracha cor de laranja.  Os nomes dos bebs so Isabel e Lilly. 

 Voc sabe se... 

Louie chamou os meninos e interrompeu Maddie. 

 A gente se v  eles disseram em unssono, depois deram no p e sumiram em meio s 
rvores. 

 Tchau!  Ela recolocou a tampa na lixeira e voltou para casa. Lavou suas mos e 
desinfetou o cho onde achou a carcaa. J passava das sete horas, estava com fome. 
Rapidamente colocou um peito de frango no grill sobre a pia e, enquanto o frango grelhava, 
fez uma salada. Teve um dia comprido. Depois do jantar pronto, sentou-se, comeu 
tranqilamente, e para acompanhar bebeu duas taas de vinho. Depois do jantar colocou os 
pratos na lavadora. Foi para o quarto, trocou de roupa. Vestiu uma cala azul larga e 
confortvel e um casaco de abrigo com capuz, subiu o zper. Finalmente puxou os cabelos 
para trs e os prendeu em um rabo de cavalo. 

Apanhou um bloco de notas amarelo que estava sobre a escrivaninha e uma caneta antes de 
acender algumas luzes e se deitar no sof para relaxar. Enquanto procurava o controle 
remoto pensava sobre Meg e sobre a conversa entre elas no meio da mercearia. Se Meg 
conseguia mentir quanto a saber ou no sobre a razo que teria levado Rose ao seu limite, 
mentiria tambm sobre outras coisas. Coisas que Maddie poderia no ser capaz de provar 
ou refutar. 

Um canal da tev a cabo transmitia uma srie de documentrios sobre a investigao de 
vrios assassinatos no-solucionados. Maddie jogou o controle remoto de lado no sof. 
Colocou os ps para cima apoiando-os na mesa de centro, e anotou suas impresses sobre 
Meg. Depois escreveu uma lista de perguntas que pretendia fazer a ela. E chegou numa 
ltima questo que seria:  De que se lembra daquela noite em que seus pais morreram? 
Logo que escreveu isso a campainha tocou. 

Eram nove e meia. Maddie olhou pelo olho mgico, e viu mais uma vez o homem que vira 
outras vezes na sua varanda na mesma posio e com o mesmo olhar. Fazia mais de uma 
semana que havia beijado Mick dentro do escritrio dele no Mort's. Oito dias desde que ele 
desamarrou seu vestido e a fez desej-lo ardentemente. Desta vez ele no estava com uma 
cara muito boa, mas o corpo de Maddie parecia no se importar. 

Sentiu uma pontada no fundo de seu baixo ventre quando abriu a porta. 

 Acabei de falar com Meg  ele disse enquanto ficou parado ali com as mos na cintura, 
como se fosse todo feito de beligerncia masculina e ebulio de testosterona. 

 Ol, Mick. 

 Pensei ter deixado claro que ficasse longe da minha irm. 

 E eu pensei ter deixado claro que eu no obedeo s ordens suas.  Maddie cruzou os 
braos e simplesmente o olhou. A primeira sombra plida de noite o pintou com uma tnue 
luz cinza e fez com que seus olhos parecessem azuis escuros. Pena que era um homem to 
prepotente. 

Eles se encararam por alguns instantes antes que ele soltasse as mos e dissesse: 

 Ns vamos ficar parados aqui nos encarando toda a noite? Ou voc vai me convidar para 
entrar? 

 Talvez.  Por fim, ela o convidou, mas no se mostrou completamente feliz e alegre 
quanto a isso.  Voc vai ser rude? 

 Eu nunca sou rude. Maddie levantou a sobrancelha. 


 Vou tentar ser agradvel. 

Maddie pensou que aquilo era meio sem sentido para se dizer... 

 Voc vai tentar e conseguir manter sua lngua fora da minha boca? 

 Isso depende. Voc vai manter suas mos longe do meu pnis? 

 Idiota!  Ela retrucou e foi para a sala de estar, permitindo que ele entrasse. 

O bloco de notas amarelo estava sobre a mesa de centro com as anotaes  mostra e ela o 
virou quando passou por ele. 

 Eu sei que Meg pediu para voc ligar para ela. Maddie pegou o controle remoto e 
desligou a televiso. 

 , ela pediu. 

 Voc no pode fazer isso. 

Ela se endireitou. Era to tpico Mick pensar que podia dizer a ela o que fazer... Ele estava 
na casa dela, daquela forma arrogante e imponente como se fosse o rei do castelo. 

 Pensei que a esta altura voc j havia aprendido que eu no obedeo as suas ordens. 

 Isto no  um jogo, Maddie.  Ele estava usando uma camiseta plo preta do Morts 
enfiada na cala abaixo da cintura.  Voc no conhece a Meg. Voc nem imagina em que 
estado ela fica. 

 Ento porque voc no me conta? 

 Certo  ele zombou.  Ento voc pode escrever sobre ela no seu livro? 

 Eu lhe disse que eu no vou escrever sobre voc nem sobre a sua irm.  Ela se sentou 
no brao do sof e ps um p sobre a mesa de centro.  Francamente, Mick, voc no  to 
interessante assim.  Deus, aquilo era uma completa mentira, ela chegava a ficar surpresa 
em ver que seu nariz no cresceu. 

Mick olhou-a e resmungou: Claro. 

Maddie colocou a mo no peito.  Eu fiquei longe da Meg como voc queria, mas ela se 
aproximou de mim. Eu no me aproximei dela. 

 Eu sei disso. 

 Ela  uma mulher crescida. Mais velha que voc, e certamente pode decidir se quer ou 
no falar comigo. 

Ele caminhou lentamente em direo  porta envidraada, olhou para o terrao e para o lago 
l embaixo. A luz da lamparina prxima do sof iluminou o ombro e o lado do rosto dele. 
 Ela pode ser mais velha, mas nem sempre  previsvel.  Ele ficou silencioso por 
alguns instantes, depois virou a cabea e olhou para Maddie sem se virar completamente. A 
voz dele mudou: o tom de exigncia havia sumido quando ele perguntou:  Como voc 
sabe que as pegadas da minha me estavam espalhadas por todo o bar naquela noite? Est 
no relatrio da polcia? 

Maddie levantou-se lentamente e respondeu: 

 Est. 

Ela mal ouviu a prxima pergunta que ele fez: 

 O que mais? 

 H fotografias das pegadas dela. 

 Deus!  Ele balanou a cabea.  Eu quis dizer, o que mais havia no relatrio? 

 O de sempre. Tudo, desde a chegada at as posies dos corpos. 

 Por quanto tempo meu pai ficou vivo? 

 Por cerca de dez minutos. 

Mick descansou o peso de seu corpo sobre um dos ps e cruzou os braos na frente do peito 
largo. Ficou calado por outros tantos segundos antes de dizer: 


 Ela poderia ter chamado uma ambulncia e talvez salvado a vida dele. 

 Poderia. 

Ele a olhou fixamente. Naquele momento um brilho de emoo iluminou seus olhos azuis. 

 Dez minutos  muito tempo para uma esposa assistir o marido sofrer e sangrar at a 
morte. 

 Maddie deu alguns passos na direo dele: 

  sim. 

 Quem chamou a polcia? 

 A sua me. Um pouco antes de atirar em si mesma. 

 Ento ela teve certeza de que meu pai e a garonete estavam mortos antes de pedir 
socorro. 

Maddie parou. 

 A garonete tinha um nome. 

 Eu sei. Um sorriso triste surgiu no rosto dele.  Durante toda a minha infncia, minha 
av sempre a chamava apenas de 'a garonete.  s um hbito. 

 Voc no sabia nada sobre isso? Mick fez que no com a cabea. 

 Minha av no falava sobre coisas desagradveis. Acredite em mim, o assunto do 
assassinato de meu pai e de Alice Jones pela minha me estava no topo da lista de coisas 
sobre as quais no podamos falar. Ele voltou seu olhar novamente para fora.  E voc tem 
fotografias. 

 Tenho. 

 Esto aqui? 

Ela pensou na resposta de decidiu contar a verdade: 

 Esto. 

 O que mais? 

 Alm dos relatrios da polcia e das fotos da cena do crime, tenho entrevistas, matrias 
de jornal, grficos e relatrios do mdico-legista. 

Mick abriu as portas envidraadas e deu um passo para fora da casa. Os enormes pinheiros 
lanavam sombras negras sobre o terrao, levando embora a suave cor cinzenta do 
anoitecer. A brisa leve trazia o odor da noite e de pinho, e levantava fios de cabelo de Mick. 
 Quando eu tinha uns dez anos fui  biblioteca, querendo dar uma olhada nas antigas 
reportagens de jornal, mas a bibliotecria era amiga da minha av. Ento fui embora. 

 Voc viu algum relato sobre aquela noite? 

 No. 

 Quer ver? 

Ele negou com um gesto de cabea: 

 No. Eu no tenho muitas lembranas de meus pais, e ler sobre o que aconteceu naquela 
noite arruinaria as poucas que ainda tenho. 

Ela tambm no tinha muitas memrias da me. Recentemente, com a ajuda dos dirios, 
algumas voltaram. 

 Talvez no. Mick riu sem humor. 

 Antes de voc aparecer na cidade, eu no sabia que a minha me assistiu meu pai 
morrer. Eu no sabia que ela o odiava tanto. 

 Provavelmente ela no o odiava. Tanto o amor quanto o dio so emoes muito 
poderosas. Os seres humanos matam as pessoas que amam a todo o tempo. Eu no entendo 
isso, mas sei que acontece. 


 Isso no  amor.  outra coisa. Ele assegurou enquanto atravessava o terrao e apoiava 
as mos sobre a cerca de madeira. Do outro lado do lago, a lua comeava a nascer por sobre 
as montanhas e refletia uma perfeita imagem espelhada nas guas tranqilas.  At voc 
vir para esta cidade, tudo estava enterrado no passado, onde  o lugar de tudo isso. Depois 
voc comeou a cavar e a se intrometer e toda e qualquer pessoa por aqui pode voltar a 
falar sobre isso. Exatamente como acontecia na minha infncia. 

Maddie andou na direo dele e encostou as costas no anteparo. Cruzou os braos sob os 
seios, e olhou o perfil sombrio do rosto de Mick. 

 Ao contrrio do que acontecia na sua prpria casa, estou lhe trazendo novamente o 
assunto de sua me e de seu pai. Um assunto to patente. 

 Pode-se dizer isso. 

 Foi por isso que voc brigou o tempo todo? Ele olhou olhou-a e riu sem alegria. 

 Talvez eu apenas gostasse de brigar. 

 Ou talvez voc no tenha gostado das pessoas dizendo coisas desagradveis sobre a sua 
famlia. 

 Voc acha que me conhece. Voc pensa que decifrou tudo em mim. Maddie levantou 
um ombro. , ela o conhecia, sim. Em alguns aspectos, ela imaginou que eles haviam 
vivido vidas muito parecidas. 

 Eu acho que deve ter sido um inferno viver em uma cidade onde todo mundo sabe que a 
sua me matou o seu pai e uma jovem amante. As crianas podem ser muito cruis. No  
s um clich,  verdade. Acredite, eu sei. Garotos so perversos. 

A brisa soprou alguns longos fios de cabelo sobre as mas do rosto de Maddie e Mick 
levantou a mo e os afastou. 

 O que elas fizeram? No te escolheram na hora do basquete? 

 Eu no era escolhida para nada, porque era meio gorducha. Ele ps o cabelo dela para 
trs da orelha.  Meio gorducha? 

 Bastante. 

 Quanto voc pesava? 

 No sei, mas na sexta srie eu ganhei um pavoroso par de botas pretas. Minhas pernas 
eram muito grossas e eu no conseguia fech-las de jeito nenhum. Ento as dobrei para 
baixo, fingindo para mim mesma que as botas deviam ser usadas daquele jeito. Como 
ningum ali era bobo, eu nunca mais usei aquelas botas. Foi naquele ano que eles 
comearam a me chamar de Maddie de Cincinnati. Inicialmente eu fiquei muito feliz, 
porque no estavam mais me chamando de Maddie Gorda. Depois descobri porque me 
chamavam daquele jeito e parei de ficar feliz. 

Pela distncia de penumbra que os separava, Mick levantou a sobrancelha num tom de 
indagao e ela explicou: 

 Eles diziam que eu era to gorda porque comi a cidade de Cincinnati. 

 Que babacas... Mick baixou a mo.  No admira voc ser to geniosa. Era geniosa? 
Talvez...  E a sua desculpa, qual ? 

Maddie sentiu o olhar dele tocar a sua face por alguns instantes, antes de ouvir a resposta: 

 Eu no sou to genioso quanto voc. 

 Ah, no?, brincou. 

 Bom, pelo menos eu no era at voc se mudar para c. 

 No seja mentiroso... Bem antes de me mudar para c voc estava levando o xerife 
Potter  loucura. 

 Crescer nesta cidade foi um inferno. 


 Posso imaginar... 

 No, no pode... Mick inspirou largamente, em seguida deixou o ar sair e continuou:  
Durante toda a minha vida as pessoas quiseram saber se algum dia eu iria perder a cabea, 
como minha me, e matar algum ou se iria crescer e ficar como o meu pai... Essa  uma 
situao muito difcil para um garoto. 

 E voc ainda se preocupa com isso? 

 No, imagine! O problema da minha me, um deles,  que ela jamais deveria ter ficado 
com um cara a traiu repetidas vezes. J o problema do meu pai era que ele nunca deveria ter 
se casado com ningum. 

 Sendo assim, a sua soluo  a de evitar o casamento. 

 Isso mesmo. Mick sentou-se sobre a cerca ao lado dela e segurou a sua mo entre as 
mos dele.  Mais ou menos do mesmo jeito que voc resolveu seu problema com seu 
corpo, evitando carboidratos. 

  diferente. Eu sou hedonista e tenho de evitar mais que apenas carboidratos. Naquele 
momento, sua natureza hedonista sentiu o calor da mo dele lhe subir pelo brao e chegar 
ao peito. 

 Voc tambm est evitando sexo... 

 Sim, e se eu ceder a coisa pode ficar feia. 

 Como assim, feia? 

Mick ficou muito prximo de repente e ela se levantou. 

 Eu me afogaria na farra... 

 No sexo? 

Maddie tentou soltar a mo, mas ele a apertou com os dedos: 

 Ou nos carboidratos. 

Com a mo livre ele segurou a parte de baixo da blusa dela. 

 No sexo? Insistiu. 

 ... acho que sim. 

Mesmo atravs da escurido que os envolvia, ele exibiu um sorriso claro e sedutor. 

 E quo feia voc vai ficar? 

Lentamente, Mick a puxou para mais perto at que ela estivesse entre suas coxas. 

A quentura das mos, o toque nas coxas e o sorriso malicioso conspiravam para atra-la, 
extrair seu desejo de resistir, e reintroduzi-la completa e perdidamente na luxria. Maddie 
sentiu os seios e a pele enrijecer. Uma implacvel nsia igual a que Mick causou na 
primeira vez que a beijou a assolou novamente... aguda, dolorosa e irresistvel. 

 Voc no vai querer saber. 

 Acho que vou sim, ele disse. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 11 

 

 Pensei que voc fosse ficar com a sua lngua fora da minha boca. 

Mick encarou Maddie com o rosto banhado em luar, pegou o zper na frente do agasalho 
que ela vestia e falou: 

 Ento acho que eu vou ter que por minha lngua em outro lugar, que no seja a sua boca. 

Ele abaixou o zper e o agasalho se abriu dando a ele um vestgio da profunda fenda que 
Maddie ostentava entre os seios. No estava usando nada por baixo. Sentiu o sangue correr 
mais rpido nas veias conforme a forma arredondada e firme dos plidos seios nus se 
revelava a poucos centmetros do rosto dele. 

 Algum vai nos ver  ela disse e agarrou o pulso dele. 

 Os Allegrezza esto em Boise.  Ele continuou puxando o zper at a sua cintura. 

 E os vizinhos do outro lado?  ela perguntou, mas no interrompeu sua aventura de 
empurrar as laterais da blusa para os lados. Os seios de Maddie eram firmes. Seus mamilos 
intumescidos tinham um perfil absolutamente sensual com aquela luz fraca. 

 No tem ningum fora de casa, mas mesmo que tivesse, est muito escuro para ver 
alguma coisa. Mick levou as mos em torno da cintura dela na parte mais estreita das costas 
e a trouxe mais perto.  Ningum vai ver a gente. Ele se inclinou para frente para beijar 
sua barriga.  Ou isso. Ele beijou a fenda entre os seios dela. 

 Mick... 

 O qu? 

Maddie passou os dedos por entre os cabelos dele. Suas unhas arranharam o couro cabeludo 
transmitindo um forte arrepio que o percorreu espinha abaixo. Com a respirao curta e 
irregular, ela disse: 

 Ns no deveramos estar fazendo isso. 

 Quer que eu pare? 

 No. 

 Que bom, eu encontrei um lugar para pr a minha lngua... Ele abriu a boca e envolveu o 
mamilo intumescido nos lbios. Essa noite ela exalava um perfume e mesmo um certo 
sabor de cookies. 

 Hmm... ela gemeu e o puxou para mais perto de si.  Isso  bom... muito bom... 
Maddie era daquelas mulheres que falam enquanto tm prazer, certamente ele podia ter 
deduzido sobre esta caracterstica dela.  No pare... ela pediu. 

Mick no tinha a menor inteno de parar. Estava fazendo com ela exatamente o que quis 
fazer desde o dia em que a encontrou na loja de ferramentas. Ele deslizou a mo que estava 
nas costas dela e comeou a acariciar-lhe os seios.  Voc  uma mulher maravilhosa...  
Recuou um pouco para olhar para o rosto delicado, os lbios entreabertos e o brilho de 
desejo que havia nos olhos escuros.  Eu quero lamber todo o seu corpo, comeando por 
aqui... e a beijou sugando e puxando de leve seus lbios e sua lngua. O corpo dela 
enrijeceu ainda mais. Ele adorou aquela sensao e aquele gosto. A mo que cobria 
delicadamente um dos seios dela moveu-se para baixo, sentindo lhe a pele macia do 
abdmen e deslizando delicadamente para dentro da cala larga. 

Desde a noite em que a beijou no Morts, ele vinha tendo fantasias arrebatadoras com 
relao ao que faria com ela se a pegasse novamente sozinha. Sua mo deslizou pelo meio 
das coxas dela e lhe cobriu completamente a calcinha macia. Maddie estava incrivelmente 
quente e molhada, e sentindo aquilo Mick sentiu o serpentear de desejo ardente na sua 
virilha e uma ansiedade de luxria que chegava quase a doer. Ele a queria, como h muito 


tempo no queria uma mulher. Tentou ficar longe dela, mas na primeira desculpa para v-
la, ali estava ele com a boca nos seios dela, e a mo percorrendo o corpo sensual. E dessa 
vez ele no sairia dali at que tivesse satisfeito aquele desejo intenso que o arrebatava. 
Maddie tambm o desejava e ele estava mais do que pronto para satisfaz-la. E no sairia 
dali at que ambos estivessem completamente exaustos. 

 Continue, Mick... ela pediu num sussurro,  me toque... O casaco dela caiu prximo 
aos seus ps. 

Mick recuou, se abaixou e o apanhou. Depois, tornando a se levantar seu olhar passou pelos 
seios at a face dela. Escorregou os dedos para dentro da calcinha dela.   aqui que voc 
quer? Perguntou tocando-a e separando com os dedos a carne umedecida. Ela estava 
incrivelmente molhada, e o fez imaginar como seria colocar ali algo muito mais adaptado 
que os dedos. 

 Isso... A respirao dela ofegava. suas mos apoiaram-se nos ombros dele. 

 Adoro saber que te deixo assim to molhada, ele disse muito prximo da boca de 
Maddie.  Estou com vontade de te lamber inteira. Disse ao tocar com os dedos o seu 
clitris.  Voc no se importa, no ? Ento Maddie balanou a cabea negativamente, e 
depois tornou a indicar que sim, misturando os movimentos, e demonstrando sua completa 
entrega. 

 Mick, ela sussurrou enquanto suas mos apertavam ainda mais os ombros dele.  Se 
voc no parar... ela inspirou fundo.  Por favor, no pare... e gemeu quando um poderoso 
orgasmo a dominou completamente. Mick a segurou passando um dos braos em torno da 
cintura dela e impedindo que ela casse, e seus dedos a tocaram, acariciavam e sentiram 
todo o prazer dela. Ele a beijou no pescoo e ansiava penetr-la, sentir as paredes apertadas 
de sua vagina o agarrando a cada pulsao. 

Depois que o momento mais intenso desse primeiro orgasmo passou, Maddie disse: 

 Eu no esperava que acontecesse to rpido... e o abraou. 

Mick tirou os dedos de dentro da calcinha dela e apertou seu quadril contra o dela, 
demonstrando suas intenes... 

 Vamos fazer de novo. Mas dessa vez vamos gozar juntos. Em seguida passou os dedos 
ainda molhados na ponta dos seios dela, e baixou a cabea para que sua boca a tocasse nos 
lbios, demonstrando toda sua necessidade, cobia e desejo incontrolveis. 

Ela o afastou evitando o beijo dele e perguntou ofegante: 

 Voc tem camisinhas? 

 Tenho. 

Nua da cintura para cima, Maddie o tomou pela mo e o levou para dentro da casa. 

 Quantas? 

Quantas... quantas... Mick mal conseguia pensar: 

 Duas. E voc, quantas tem? 

 Nenhuma! Afinal, tenho sido celibatria... Ela fechou a porta e voltou-se para olh-lo 
nos olhos.  Vamos ter de fazer com que essas duas camisinhas durem a noite toda... 

 Hmm... O que est planejando? 

Mal terminara de perguntar e Maddie o empurrou contra a porta fechada, arrancou-lhe a 
camiseta por cima da cabea e a jogou de lado: 

 Voc no devia ter comeado tudo isso...  disse enquanto tomou completamente o 
controle da situao. Sua impacincia o deixou ainda mais excitado, e ele imaginou que o 
boto de suas calas podia at mesmo estourar.  Mas uma coisa que voc vai terminar... 


 Os seios dela roaram levemente o peito musculoso, enquanto o beijava no pescoo e o 
livrava das calas e da cueca baixando-as at os joelhos, e perguntando: 

 Voc no se importa, no ? 

 Claro que no... 

Maddie sentiu o pnis lhe empurrar a barriga. Pegou-o com a mo quente e segurou-lhe as 
bolas, acariciando-as para cima e para baixo. Pressionou com o polegar o cordo 
espermtico dilatado no membro intumescido. 

 Voc  um homem admirvel, Mick Hennessy...  disse chegando  extremidade 
dilatada.  To viril... 

Ele estava a ponto de explodir de desejo. 

 Grande... 

Mick inspirou sonoramente.  Voc consegue lidar com ele e encorajou-a: 

 Eu sei que consigo...  Ela o mordeu de leve na curva do pescoo, e depois se abaixou 
lentamente, beijando seu abdmen, sua barriga at ficar de joelhos.  E voc, consegue? 

Mick no acreditava que ela estava a ponto de lhe dar prazer com aquela boca magnfica 
absolutamente sensual. Mick gemeu na afluncia de uma expirao apertada. 

 Voc no se importa que eu use a minha lngua, se importa? Maddie perguntou quando 
se ajoelhou diante dele e olhou para cima com um sorriso malicioso nos lbios vermelhos. 
 Se importa? 

 Claro que no. 

Ela o olhava nos olhos enquanto sua lngua aveludada percorria o falo volumoso. Mick 
travou os joelhos para no cair por cima dela. 

 Voc est gostando da minha lngua te acariciando aqui? 

 Gosto...  Deus, ser que ela vai falar o tempo todo?, pensou... Maddie lambeu a 
pequena fenda da cabea do pnis. 

 Gosta disso? 

Ela o estava deixando louco, mas ele tinha a impresso de que ela sabia a resposta: 

 Gosto... 

 Ento acho que voc vai adorar isto. Ela separou os lbios e o colocou dentro da sua 
boca quente e molhada, levando-o at o fundo e chegando  garganta. Mick sussurrou 
alguma coisa que nem ele mesmo conseguiu definir o que foi, e colocou as mos nos 
cabelos dela. A maioria das mulheres hesita em sentir o sabor do pnis de um homem, mas 
obviamente Maddie no era uma delas. Ela o sugou com uma voracidade que o fez desligar 
de qualquer outro contato com o mundo alm dela. No havia nada alm daquelas mos 
quentes, boca cheia de saliva morna e sua lngua macia lhe dando o mais puro prazer 
carnal. A porta de vidro estava fria contra as costas dele. Sob as plpebras cerradas, seus 
olhos se mexiam freneticamente, ele imaginou que Maddie logo interromperia aquela 
suco gulosa, as mulheres sempre paravam... Mas ela no. Ela o manteve em sua boca at 
que Mick chegou em um intenso e poderoso clmax que lhe apertou a respirao e o atingiu 
como se fosse um trem de carga. E assim ela o envolveu com sua boca at que a ltima 
poro de prazer terminasse e ele conseguisse finalmente respirar satisfeito. A maioria das 
mulheres pensava que sabia dar prazer a um homem com a boca. Algumas eram melhores 
que outras, mas nunca havia experimentado nada como o intenso prazer que Maddie havia 
acabado de lhe proporcionar. 

 Obrigado  agradeceu com a voz rouca e a respirao ainda ofegante. 

 De nada...  Maddie ficou em p na frente dele e passou o polegar num dos cantos da 
boca, como que limpando algo que escorrera.  Ento, voc gostou? 


Mick fez um esforo para alcan-la e pux-la contra si: 

 Voc sabe que gostei. 

Ela ps os braos sobre os ombros dele e seus mamilos roaram no peito rijo. 

 Bom, ento tivemos nosso primeiro orgasmo um com o outro... mas espero que voc 
no esteja planejando ir trabalhar, porque eu tenho outros planos para voc. 

Claro que ele no precisava ir para o Morts. O novo gerente que contratou estava fazendo 
um bom trabalho. Mick a beijou no pescoo e ps uma das mos sobre o seio dela. O desejo 
ardente que momentos antes fora cuidadosamente arrancado de dentro dele pegou fogo 
mais uma vez. 

Ele tambm tinha planos para ela. 

Ela no deveria ter cedido  tentao. Fazer sexo com Mick era errado sob tantos aspectos 
diferentes da parte dela, mas o tempo de parar as coisas antes que perdessem o controle j 
havia passado. Ela devia t-lo parado antes que pusesse a boca nos seios dela e levasse os 
dedos para dentro de sua calcinha. Claro que ela no o fez parar. Uma vez tendo sentido a 
boca mida e os dedos geis, ela se tornou egosta e gananciosa. Queria sentir as mos dele 
por todo o seu corpo. Senti-lo tocar em todos aqueles lugares do seu corpo nos quais no 
era tocada h tempo. Olhar dentro dos olhos dele e ver quanto ele a desejava. 

Sob a luz do abajur que se derramava por toda a colcha dourada e vermelha, Mick beijou a 
parte estreita das costas nuas de Maddie e continuou a subir pela espinha. 

 Voc sempre cheira to bem...  As mos e os joelhos dele plantados na cama nos 
lados do corpo dela e a ereo dele lhe roou a parte de dentro da coxa quando ele se 
abaixou para lhe beijar os ombros. 

No, de fato ela no devia ter cedido  tentao de transar com Mick, mas na verdade ela 
no estava nem um pouco arrependida. Pelo menos ainda no. No enquanto ele continuava 
lhe oferecendo todas aquelas sensaes maravilhosas das quais ela nem mesmo sabia que 
sentia falta. No dia seguinte se arrependeria quando pensasse em todas as maneiras como 
simplesmente complicou a vida dele. Mas aquela noite ela seria completamente egosta e se 
deleitaria com aquele homem nu na sua cama. 

Maddie se virou e olhou para os desejosos olhos azuis de Mick, circundados pelos espessos 
clios pretos. 

 Voc parece bem  ela disse enquanto suas mos percorriam os braos fortes e 
atravessavam os msculos rijos de seus ombros.  Voc me faz sentir bem. 

Mick se curvou para baixo, mordeu levemente a curva dos ombros dela, e seu pnis a tocou 
entre as pernas. 

 Me diga todas as maneiras como voc pretende usar o meu corpo. Maddie virou a 
cabea e disse prximo ao ouvido dele:   surpresa. 

 Ser que tenho que ficar com medo? 

 S se voc no conseguir acompanhar o meu ritmo... Mick pressionou sua ereo contra 
o corpo dela. 

 Ento acho que no vamos ter problemas. De fato no tiveram. Ele a beijava, provocava 
e torturava com as mos e com a boca, levando-a quase ao clmax, mas recuando em 
seguida. Quando ela j estava a ponto de pensar em amarr-lo  cama, e subjug-lo pulando 
sobre ele, ele pegou a camisinha que estava sobre o criado-mudo. Maddie a tomou das 
mos dele e a colocou, enquanto lhe beijava o abdmen. Em seguida ele a deitou e a 
pressionou contra a cama, ajoelhou-se entre as suas coxas, com a mo levou a cabea larga 
do pnis  vagina mida e o pressionou. Sentindo-o, quente e forte, Maddie emitiu um som 
forte, mas abafado pelo puro prazer daquela invaso. 


 Tudo bem? 

 Tudo bem. Adoro essa parte...  ela disse. 

Ouvindo isso ele continuou, puxando para fora e depois investiu um pouco mais fundo. 

 Qual parte, essa? 

Ela passou a lngua mida pelos lbios e fez que sim com a cabea. Enrolou uma das pernas 
em torno da cintura dele e o forou a penetr-la mais fundo. Enquanto se movimentava para 
fora e para dentro suas narinas se abriam levemente, o movimento era to intenso que os 
dois deslocavam seus corpos unidos para o topo da cama. 

Maddie demonstrava em voz alta, a dor ou o prazer intensos que sentia. Ela no conseguia 
definir muito bem que sensao era aquela, s que no queria que aquilo terminasse mais. 

 Desculpe...  Ele distribua beijos por todo o rosto dela.  Pensei que voc estivesse 
pronta. 

 Estou...  ela disse num gemido.  Faa isso de novo.  E ele fez, vrias vezes... 
Apesar de estar h muito tempo sem sexo Maddie no se lembrava de ter sido to bom. Mas 
com certeza se alguma vez tivesse sido to bom quanto desta vez, no teria desistido disso 
por tanto tempo. 

Ento foi a vez de Mick gemer profundamente, gemeu do fundo do peito e ps a mos no 
rosto dela. 

 Parece que voc est apertada em torno de mim.  Ele a beijou nos lbios e disse:  
Isso  to bom... 

O calor corou a pele dela, irradiando exatamente do lugar por onde eles estavam unidos, e 
ela correu os dedos pelos ombros quentes e cabelos desalinhados de Mick. 

 Mais rpido...  sussurrou. Ela adorou a sensao que o toque dele lhe causou por 
dentro, a cabea volumosa do seu pnis tocando o ponto-G, e empurrando-lhe o colo do 
tero. Adorou a presso que a pele mida dele fez sobre a dela e o intenso tom de azul que 
seus olhos emitiam. 

Sem alterar o ritmo dos quadris, ele ps sua mo por baixo das coxas dela e a puxou suas 
pernas na sua direo sussurrando: 

 Ponha essa perna em torno das minhas costas.  Ele pressionou a testa contra a dela. 
Sua respirao a fazia sentir leves pancadas no rosto. E assim ele fez aumentar a velocidade 
e a intensidade do movimento, cada vez mais. 

Enquanto ele se movimentava continuamente murmurou:  Mick...  e conforme se 
aproximava o clmax, quase sem som disse:  No pare... 

 No vou parar... 

Como um claro de fogo, o calor se espalhou do cume das coxas dela por todo o corpo. Ela 
estava completamente entregue a Mick e ao prazer do corpo dele. Chamou o nome dele 
uma vez mais, duas, talvez trs vezes, tentando mostrar como e quanto se sentia bem, 
quanto adorara e sentia falta de sexo... Mas suas palavras saram fracas e abreviadas, e ele 
continuou implacavelmente os movimentos dentro dela, levando-a violentamente a um 
prazer to intenso que ela chegou a abrir a boca para gritar. Mas o som lhe morreu na 
garganta quando a fluncia que se segue  deliciosa sensao do orgasmo repercutiu em 
seus msculos vaginais que pulsavam e se contraam, envolvendo com fora o pnis dele. O 
movimento continuou ainda no mesmo ritmo. Maddie sentia a respirao acelerada e 
quente dele bater no seu rosto, at que ele arremeteu uma ltima vez, liberando um longo 
gemido de prazer que foi abafado em sua garganta. 

 Que delcia...  Maddie disse quando conseguiu recuperar a respirao. 

 ...  Ele se apoiou nos cotovelos e olhou para o rosto dela. 


 No me lembrava que sexo era to bom. 

 Normalmente no  to bom...  ele empurrou uns poucos fios de cabelo que estavam 
sobre o rosto dela  de fato, no me lembro de j ter sido to bom. 

 No tem de qu...  ela disse com um sorrisinho nos lbios. Ele riu. Suas covinhas 
marcaram-lhe as bochechas. 

 Obrigado!  Quando ele percebeu que ela no retribuiu, levantou as sobrancelhas. 

Maddie sorriu e tirou as pernas do entorno dele. 

 Obrigada! 

Mick saiu de cima dela e foi para o banheiro, dizendo: 

 De nada! 

Maddie rolou para um dos lados da cama e fechou os olhos. Suspirou e se sentiu protegida 
por uma delicada e confortvel bolha de prazer. No tinha um s msculo do seu corpo que 
estava tenso, e no conseguia se lembrar de j ter estado to relaxada no passado. 
Certamente seria bom fazer sexo com mais freqncia, funcionava como um tipo de 
antiestresse. 

 Quem  Carlos? 

Maddie abriu os olhos e a bolha de prazer estourou. 

 O qu? 

Mick sentou-se na cama e voltou seu olhar para ela: 

 Voc me chamou de Carlos... Ela no se lembrava daquilo. 

 Quando? 

 Enquanto estava gozando. 

  mesmo? 

 Isso mesmo. De Carlos. 

Um calor subiu pelo pescoo at as bochechas dela. 

 Sabe, eu nunca fui chamado pelo nome de outro homem.  Ele pensou por um 
momento e depois continuou:  Acho que no gostei dessa parte... 

Maddie se sentou. 

 Sinto muito. 

 Quem  Carlos? 

Ele obviamente no ia deixar passar. Maddie foi forada a confessar: 

 Carlos no  um homem. 

Ele piscou e a encarou por algum tempo. 

 Como assim,  uma mulher? 

Ela riu e apontou para criado-mudo ao lado. 

 Abra a primeira gaveta. 

Ele se inclinou, pegou no puxador da gaveta e a abriu. Suas sobrancelhas baixaram, ento 
ele levantou a testa lentamente. 

 Isso  um...? 

 , esse  o Carlos. Mick olhou-a incrdulo. 

 Voc deu um nome pra ele? Maddie se sentou. 

 Pensei que j que somos intimamente familiarizados um com o outro ele deveria ter um 
nome. 

 Ele  roxo! 

 Isso mesmo! Ele  roxo e brilha no escuro. Ele riu muito e fechou a gaveta. 

 E  grande! 

 No to grande quanto o seu... 


 , mas eu no posso...  ele cocou o queixo.  O que ele faz? 

 Ele pulsa, vibra, lateja e esquenta. 

 Tudo isso e ainda... brilha no escuro.  Mick apoiou as mos na cama. 

 Voc  melhor que o Carlos.  Ela ajoelhou atrs dele e baixou as mos sobre o peito 
musculoso e o acariciou.  Te garanto que prefiro passar o meu tempo com voc. 

Mick olhou para o rosto dela: 

 Mas eu no brilho no escuro... 

 No brilha, mas os seus olhos ficam completamente sensuais, e eu adoro a maneira 
como voc me beija e me toca.  Ela pressionou seus seios contra as costas dele.  Voc 
faz com que eu vibre e me esquenta. 

Ele se virou e a empurrou para que se deitasse na cama: 

 Voc faz com que eu me sinta como da ltima vez que estive nesse quarto. Como se 
nunca ficasse satisfeito. Como se tivesse quinze anos e pudesse transar a noite toda. 

Um cacho dos cabelos escuros dele lhe caiu sobre a testa, e ela o afastou. 

 Este quarto est muito diferente desde a ltima vez que voc esteve aqui com... qual era 
mesmo o nome dela? 

 Brandy Green.  Ele olhou por todo o quarto.  Para falar a verdade, no me lembro 
de como era antes. 

 Porque faz muito tempo? Mick a encarou. 

 No, porque eu estava muito ocupado para notar.  Ele sorriu e algumas linhas se 
formaram perto de seus olhos.  Brandy era mais velha e eu ainda estava na escola, e 
ficava o tempo todo tentando impression-la. 

 Conseguiu? 

 Impression-la?  Ele pensou por um momento, depois balanou a cabea.  No sei. 

 Bom, a mim voc impressionou... 

 Eu sei.  Ele passou por cima dela, deitou-se de costas depois a puxou para cima do seu 
peito. 

 Como  que voc sabe? 

 Voc geme muito... 

Maddie empurrou os cabelos para trs dos ombros. 

 Ah ? 

 . Mas no fique preocupada, eu gosto  disse enquanto acariciava o brao de Maddie 
em movimentos para cima e para baixo.  Assim eu fico sabendo qual  a sua reao s 
coisas que eu fao. 

Ela encolheu os ombros. 

 Eu gosto de sexo. Desde a minha primeira vez no segundo ano da universidade, quando 
perdi a virgindade com meu primeiro namorado, Frankie Peterson. 

A mo dele parou: 

 Nossa! Ento voc esperou at os... quantos anos, vinte? 

 Bom, eu era a Maddie de Cincinnati, lembra? Mas depois que me mudei da casa da 
minha tia e fui para a faculdade, perdi vinte e sete quilos, em virtude de ser to pobre que 
no tinha dinheiro nem para comer. Naquela poca eu tambm fazia muito exerccio fsico. 
Eu fazia tanto exerccio que consegui reduzir meu peso sozinha, e agora me recuso a suar 
fazendo qualquer tipo de coisa dolorosa e maante. Dizendo isso, Maddie deslizou os dedos 
pela a fina linha de plos que ele tinha no abdmen. 

 Mas voc no precisa de exerccio mesmo ele disse deslizando uma das mos das costas 
at o traseiro dela.  Voc  perfeita. 


 Que nada, eu sou muito mole. 

 Voc  uma mulher. As mulheres tm que ser moles. 

 Mas eu sou... 

Mick a forou a se deitar de costas e a encarou. 

 Olhando para voc deste ngulo no vejo nada que me faa no ter vontade de ficar com 
voc. O olhar de Mick percorria o rosto dela.  At que eu tentei ficar longe. Tentei 
manter as minhas mos longe de voc... mas no consigo. E olhando-a nos olhos:  Talvez 
depois desta noite eu consiga... 

A respirao de Maddie ficou presa no peito. No queria apenas uma noite, queria vrias 
noites... Mas ele era Mick Hennessy e ela, Maddie Jones. Ela teria de lhe contar logo. Logo. 

 Ento  melhor a gente fazer tudo bem feito hoje disse escorregando a mo pela nuca 
dele e percorrendo com os dedos o cabelo curto.  Amanh voc vai poder voltar a ficar 
louco comigo, e eu vou poder voltar a minha abstinncia. Enfim, tudo voltar a ser 
exatamente da maneira como era antes. 

Ele inquiriu.  Voc acha? Ela fez que sim com a cabea. 

 Nenhum de ns est procurando amor, nem mesmo um compromisso que continue alm 
deste quarto, queremos a mesma coisa, Mick. Ela trouxe a boca dele para baixo para 
encostar na sua, e sussurrou bem prximo aos lbios dele:  Sem amarras. E com a 
durao de uma noite apenas. J que esta era a ltima vez ela faria sexo antes de retornar 
sua vida celibatria, Maddie quis ter certeza de que seria memorvel. 

Ela se levantou e foi at o banheiro, ligou o jato da banheira para ench-la, derramou na 
gua uns sais de banho com um extico perfume de manga. Depois voltou ao quarto, tomou 
as mos dele e o levou para o banho. Mergulhados na banheira cheia de espuma e de bolhas 
brincaram. E no momento certo ela sentou-se sobre o corpo dele e comearam novamente a 
se satisfazer. 

Mas dessa vez, quando chegou ao orgasmo, ela assegurou-se de cham-lo pelo nome certo. 

Depois de muito prazer e satisfao, Maddie adormeceu com as costas protegidas pelo peito 
dele, e uma das mos dele encaixada em seu seio. Mick ficou algum tempo falando sobre 
um assunto qualquer, ela aninhou seu traseiro na virilha dele, e acabou caindo no sono. 
Pretendia acordar na manh seguinte, vestir um robe e lev-lo at a porta. Havia muito 
tempo que ela no se sentia segura e protegida. Claro que tudo no passava de iluso. 
Desde o comeo foi apenas uma iluso. Ningum, alm da prpria Maddie, poderia faz-la 
sentir-se segura e protegida. Mas aquela era uma sensao muito boa. 

Quando acordou de manh, estava sozinha. Do jeito que queria, sem amarras. Sem 
compromisso, sem exigncias. Ele nem mesmo se despediu. 

Ela virou para o lado e olhou para a luz da manh escalando a parede, colocou a mo sobre 
o travesseiro ao lado do dela, e o apertou. Era melhor assim. 

Mesmo que ela jamais contasse a ele quem era, se ela simplesmente partisse da cidade e 
nunca mais colocasse seus olhos sobre ele, algum dia ele descobriria. Talvez quando o livro 
chegasse s lojas. 

, foi melhor ele ter sado sem se despedir. Uma noite j era muito grave, qualquer coisa 
alm dessa noite seria simplesmente impossvel. 

 

 

 

 

 


Captulo 12 

 

A voz de Trina Olsen-Hays enchia o escritrio enquanto Maddie escrevia rapidamente 
anotaes em fichas, na tentativa de criar algum tipo de seqncia da conversao que foi 
gravada. 

Logo que terminasse de transcrever toda a informao pertinente, esta seria misturada s 
outras fichas feitas com a inteno de delinear a cronologia dos acontecimentos. Esta 
cronologia seria afixada na parede do escritrio. Maddie aprendera depois de seu primeiro 
livro que era mais fcil movimentar acontecimentos ou idias no texto se estivessem 
organizados em fichas e fossem comparadas com uma linha do tempo que mostrasse todos 
os acontecimentos passo a passo. 

Depois de escrever anotaes por uma hora, desligou o gravador e se inclinou no encosto 
da cadeira. Bocejou, juntou as mos acima da cabea. Era domingo e Maddie imaginou que 
os cidados de Truly estavam saindo da igreja naquele exato momento. Maddie no foi 
iniciada em nenhuma religio. Como tudo na infncia e na adolescncia, quando Maddie ia 
 igreja era por uma razo completamente arbitrria e dependente dos volveis caprichos da 
tia ou de um dos programas que ela assistia. Se a tia-av Martha visse um episdio de uma 
daquelas sries de tev voltadas  religio, isso a lembrava de que havia uma possibilidade 
de estar destruindo o trabalho do ministrio de Deus, e se enfiava com Maddie em uma 
igreja qualquer. Assim, no caminho para casa teria conseguido provar para si mesma que 
era uma boa tutora. Depois de alguns domingos, Martha se esquecia da igreja e de Deus, e 
se preocuparia com alguma outra coisa qualquer. 

Se Maddie tivesse que escolher uma religio, provavelmente escolheria o catolicismo. Por 
nenhuma outra razo alm dos vitrais, das contas dos teros e do Vaticano. 

Maddie havia visitado o Vaticano h vrios anos. Sem sombra de dvida, era um lugar 
formidvel, mesmo para uma paga como ela. Mas se fosse catlica, teria de ir  igreja e 
confessar os muitos pecados que havia cometido no contato com o corpo de Mick 
Hennessy. Se ela entendesse o ato da confisso iria se sentir arrependida, mas no o 
entendia. Provavelmente fugiria mentindo para ao padre, mas no a Deus que tudo v. 

Maddie levantou-se e foi  sala de estar. Teve alguns momentos maravilhosos com Mick na 
noite anterior. Fizeram um tipo de sexo muito bom, e agora estava acabado. Maddie sabia 
que devia estar se sentindo mal por no ter contado a ele que sua me era Alice Jones. Mas 
na verdade no se sentia mal. Talvez um pouco, mas provavelmente no tanto quanto 
deveria. Sentiria-se pior se mantivesse algum tipo de relacionamento com Mick, mas isso 
estava fora de cogitao. At mesmo uma amizade. E se ela se sentia mal com relao a 
alguma coisa, era exatamente pelo fato de que jamais poderia ser amiga de Mick. Isso seria 
bom e ela gostaria que acontecesse, no s pelo sexo, mas porque realmente gostava dele. 

Levantou-se e caminhou at as portas envidraadas que davam para a varanda. Olhou para 
o lago l fora. Pensou em Mick e na irm dele. Pensou na insistncia dele para que ela no 
falasse com Meg. Por qu? Meg era uma mulher crescida. Uma me que sozinha sustentava 
a si mesma e ao filho. O que Mick temia que acontecesse? 

Miau. 

Maddie olhou para os ps. Do outro lado da porta de vidro havia um gatinho sentado. Ele 
era completamente branco e tinha um olho azul e outro verde. Sua cabea parecia 
desproporcionalmente grande para o corpo, o que parecia um problema congnito ou algo 
similar. Maddie o olhou nos olhos, apontou na direo dele e disse a ele em voz alta: 

 V para casa! Miau. 


 Eu odeio gatos!  Gatos eram criaturas detestveis. Eles se espalhavam pelas roupas, 
deixavam a moblia em pedaos por causa das garras e dormiam o dia todo. 

Miau. 

 Nem pense nisso! 

 Ela se virou e andou pela casa. Foi at o quarto. No cho havia uma pilha de roupas, 
incluindo lenis, fronhas e edredom. Maddie carregou tudo para a lavanderia do lado de 
fora da cozinha. Precisava tirar todas as lembranas de Mick de dentro da casa. No queria 
rastros dele nos travesseiros, invlucro vazio de camisinha sobre o criado-mudo. Mick 
devia ser encarado como um cheesecake. Por isso ela simplesmente no podia ter por perto 
nada que a lembrasse de quanto gostava e sentia falta de cheesecake. Especialmente porque 
foi to bom que ela acabou se empanturrando na noite anterior, como se tudo fosse um 
sonho. 

Encheu a mquina de lavar com os lenis e as fronhas, ps sabo em p, ligou. Quando 
fechou os olhos, a campainha tocou e seu estmago parece que ficou ao mesmo tempo leve 
e pesado. Alm do dedetizador, s uma pessoa tinha tocado a campainha daquela casa. Ela 
tentou ignorar a sensao no estmago, e a repentina acelerao das suas pulsaes 
enquanto se aproximava da porta da frente. Olhou para suas roupas, short preto e camiseta 
verde, e confirmou que eram meras roupas velhas e confortveis, e no outro tipo de roupa 
que pudesse provocar algum tipo de desejo incontrolvel. Embora o agasalho e a cala 
larga que usara na noite passada tambm no fossem nem um pouco provocativos, mas 
Mick pareceu no ligar para isso. 

Olhou pelo olho mgico. No era Mick, mas Meg quem estava parada na varanda. Ela 
usava culos escuros. Maddie ficou imaginando como a mulher descobrira onde ela 
morava. Talvez de Travis. Tambm pensou no que Meg poderia querer com ela num 
domingo  tarde. A resposta bvia era que veio falar sobre o livro, mas Meg se parecia 
tanto com a me que outra resposta passou pela cabea de Maddie. Pensou que poderia ter 
vindo para algum tipo de confronto. Ento Maddie pensou se devia apanhar a arma de 
eletrochoque, mas odiaria ter que desferir cinqenta mil volts contra Meg, especialmente se 
ela tivesse vindo apenas para conversar sobre o que havia acontecido h vinte e nove anos. 
Isso no seria nada bom, seria contraproducente visto que queria ouvir o que Meg tinha a 
dizer. Ento, depois daqueles segundos tomados por tantos pensamentos e preocupaes, 
finalmente abriu a porta. 

 Ol, Madeline. Espero no estar te incomodando.  Meg comeou.  Eu acabei de 
deixar o Pete na casa vizinha, e quis saber se poderia conversar com voc por alguns 
minutos. 

 Os Allegrezza j voltaram? 

 Sim eles chegaram nesta manh. 

Uma leve brisa brincou com as pontas dos cabelos escuros de Meg. Ela no parecia agitada 
ou louca, e Maddie deu um passo para trs e convidou: 

 Entre, por favor. 

 Obrigada.  Meg tirou os culos e os levou para o alto da cabea. Usava uma saia caqui 
e uma blusa preta de manga curta. Parecia tanto com a me que chegava a ser assombroso, 
mas ocorreu a Maddie que no era justo julg-la pelo comportamento de sua me, da 
mesma forma que no seria justo julgar Maddie pelo estilo de vida de Alice. 

 Como posso ajud-la?  Maddie perguntou enquanto as duas andavam para a sala de 
estar. 

 Meu irmo esteve aqui na noite passada? 


Os passos de Maddie vacilaram um pouco antes que continuasse sua travessia pela sala de 
estar, e ficou pensando no que havia trazido Meg a sua casa. Certamente no passou por sua 
cabea que Meg viera para falar sobre a devassido da noite anterior... Talvez Maddie 
precisasse da arma de eletrochoque afinal de contas. 

 Sim  respondeu. Meg suspirou. 

 Eu disse a ele para no vir. Eu sou adulta e posso lidar com tudo isso e de mim mesma 
sozinha. Ele est preocupado que eu fique perturbada por falar com voc sobre meus pais. 

Maddie sorriu aliviada. 

 Por favor, sente-se  disse apontando para o sof.  Voc gostaria de beber alguma 
coisa, um refrigerante ou uma gua, talvez? 

 No, obrigada.  Meg sentou-se no sof e Maddie, na cadeira.  Sinto muito que Mick 
tenha sentido necessidade vir a sua casa e dizer a voc que no falasse comigo. 

Ele havia feito bem mais que isso, pensou. 

 Assim como voc, eu sou adulta e no obedeo as ordens do seu irmo.  Exceto 
enquanto estivam na banheira, e ele a olhou com seus lindos olhos e mandou que ela se 
sentasse no colo dele. 

Meg deixou sua bolsa na mesa de centro. 

 Mick no  m pessoa. S  excessivamente protetor. Durante a infncia e a 
adolescncia teve uma vida muito difcil por causa do que aconteceu, por isso no gosta de 
falar sobre nossos pais. Se voc o tivesse conhecido em circunstncias diferentes tenho 
certeza de que gostaria dele. 

Maddie gostava dele mais do que era perceptvel na atual circunstncia. Nem mesmo queria 
pensar em quanto poderia gostar de se sentar no colo dele se ele no fosse um Hennessy. 

 Tenho certeza que sim. 

Uma ruga marcou a testa de Meg, e ela disse: 

 H um rumor na cidade de que ser feito um filme a partir do seu livro. 

  mesmo? 

 . Carleen foi me procurar ontem no lugar onde trabalho, e disse que Angelina Jolie 
faria minha me e Colin Farell, meu pai. 

Colin Farrell fazia um pouco de sentido, afinal ele  irlands. Mas Angelina Jolie? 

 No recebi nenhuma oferta da indstria cinematogrfica.  De fato, ela no havia 
contato sobre o livro nem mesmo para o seu agente.  Pode dizer a todos que no vai 
chegar nenhuma equipe de filmagem por aqui de uma hora para outra. 

 Isso  um alvio!  Meg disse. Depois voltou a ateno para as portas envidraadas, 
dizendo:  Acho que o seu gato quer entrar. 

 No  meu. Deve estar perdido.  Maddie balanou levemente a cabea e se inclinou na 
cadeira. 

 Quer um gatinho? 

 No... na verdade no gosto de animais de estimao. Eu prometi ao meu filho que lhe 
daria um cachorro se ele se comportasse por um ms  ela sorriu.  Mas no creio que v 
ter que cumprir essa promessa to cedo. 

Rindo, Meg se parecia um pouco com Mick. 

 Eu tambm no sou muito de animais de estimao  Maddie confessou, enquanto 
pensava se Meg tinha vindo a sua casa para falar sobre animais de estimao ou para ter 
uma conversa sobre seus pais.  Eles exigem muito do nosso tempo. 

 Na verdade no me preocupo exatamente com isso... No sou muito afeita aos animais 
de estimao porque eles morrem... 


No entendimento de Maddie essa era a nica coisa boa com relao aos gatos... 

 Durante a infncia tivemos uma poodle chamada Princesa. Ela era mais do Mick que 
minha. 

Mick teve uma poodle7. Ela no s no conseguia imaginar Mick sendo dono de uma 
poodle, e muito menos conseguia v-lo lhe dando o nome de Princesa, sorriu e quis saber: 

 Foi ele que escolheu o nome? 

 Foi. Mas ela morreu quando ele tinha uns treze anos. A nica vez que vi Mick chorar foi 
no dia em que ele enterrou aquela cachorra. At mesmo no funeral dos nossos pais ele se 
comportou como um homenzinho firme.  Meg balanou a cabea.  Perdi muitas 
pessoas que morreram durante a minha vida. Por isso prefiro no ficar ligada a um 
animalzinho de estimao, para depois o ver morrer perto de mim. A maioria das pessoas 
no entende isso, mas  assim que eu sinto. 

 Entendo...  E ela realmente entendia, mais do que Meg poderia imaginar, ou mesmo 
saber. Pelo menos por enquanto. 

 Voc provavelmente est imaginando porque foi que eu apareci por aqui, em vez de 
esperar que voc entrasse em contato comigo. 

 Confesso que estou ansiosa para conversar com voc sobre seus pais e sobre o que 
aconteceu naquela noite de agosto. 

Meg aquiesceu com a cabea e encaixou mechas do cabelo trs das orelhas. 

 Eu no sei porque voc quer escrever sobre o que aconteceu, s voc sabe. Mas acho 
que deveria ouvir a histria contada pela minha famlia. Como Mick no vai falar com voc 
sobre isso, eu mesma vou ter que falar. 

 Voc se importa se eu gravar nossa conversa? 

Meg demorou um longo tempo antes de responder, Maddie ficou imaginando que ela iria 
recusar, mas ao final Meg disse: 

 Acho que tudo bem. Contanto que eu possa pedir para desligar, se me sentir 
desconfortvel. 

 Perfeitamente.  Maddie se levantou da cadeira. Foi  escrivaninha onde estava o 
gravador, substituiu a fita com o depoimento de Trina por uma fita nova, pegou algumas 
folhas de papel e uma caneta, e voltou para a sala de estar.  Voc no precisa dizer nada 
que no queira, disse, embora fosse parte do seu trabalho arrancar de Meg todas as 
informaes possveis. Maddie segurou o gravador em frente  boca, falou o nome de Meg 
e a data, e depois o colocou na beirada da mesa de centro. Meg olhou para o gravador e 
perguntou: 

 Por onde eu comeo? 

 Se sentir confortvel, por que no fala sobre coisas relativas aos seus pais de que se 
lembra?  Maddie sentou-se mais para trs na cadeira e descansou as mos levemente 
sobre o colo. Pacientemente e de forma no-ameaadora, tentou incentivar Meg a comear 
seu depoimento, dizendo:  Lembre-se dos bons momentos que viveu com eles.  Depois 
que Meg falasse sobre esses bons momentos, viriam os maus momentos. 

 Tenho certeza de que voc ouvir falar que meus pais brigavam muito. 

 , ouvi sim. 

 Eles no brigavam o tempo todo, s que quando eles brigavam...  Meg interrompeu a 
frase, olhou para baixo, para sua saia e recomeou:  Minha av costumava dizer que eles 
eram apaixonados, e que brigavam e amavam com mais paixo que as outras pessoas. 

 Voc acredita nisso? 

Uma ruga sulcou a testa de Meg e ela cruzou as mos sobre o colo. 


 S sei que meu pai era... uma pessoa maravilhosa. Estava sempre feliz, sempre 
cantando. Todo mundo o adorava, porque ele tinha uma forma de ser toda especial.  Meg 
levantou o olhar e seus olhos verdes encontraram os de Maddie.  E minha me ficava em 
casa com Mick e comigo. 

 Sua me era feliz? 

 Ela... ela ficava melanclica s vezes, mas isso no significa que era uma me ruim. 

Meg continuou a falar sobre piqueniques maravilhosos, festas de aniversrio e grandes 
reunies de famlia. Falou sobre Rose lendo histrias na hora de dormir. Enfim disse coisas 
que fizeram sua famlia parecer um modelo perfeito de felicidade. 

Isso tudo era besteira. Depois de cerca de trinta minutos ouvindo Meg selecionar apenas a 
melhor parte das suas histrias, Maddie perguntou: 

 O que acontecia quando sua me ficava melanclica? 

Meg acomodou-se na poltrona e cruzou os braos.  Bem, no  segredo que as coisas 
desmoronaram. Tenho certeza de que o xerife Potter lhe contou sobre o tempo que minha 
me jogava as roupas do meu pai no fogo. 

De fato, o xerife no havia mencionado isso. 

 Ah... 

 Ela sempre controlava a fogueira em que fazia aquilo. No havia necessidade de os 
vizinhos chamarem a polcia. 

 Talvez eles estivessem preocupados porque esta  uma rea de floresta, que no precisa 
de muito fogo para que um incndio comece e se alastre. 

Meg encolheu os ombros, mostrando indiferena. 

 Era maio, no era estao de grandes incndios. A estao de fogo  mais tarde. 

Isso no significava que o fogo no poderia ter causado srios danos, mas Maddie 
considerou intil e contraproducente continuar argumentando. J era o momento de 
encaminhar as coisas para as questes que realmente importavam. 

 De que voc se lembra da noite em que seus pais morreram? Meg olhou para a tela da 
televiso desligada do outro lado da sala. 

 Lembro-me de que aquele foi um dia muito quente, e que a mame levou Mick e eu at 
a praia para nadar. Meu pai geralmente ia conosco, mas naquele dia ele no foi. 

 Voc sabe porqu? 

 No. Imagino que estivesse com a garonete. 

Maddie no se incomodou a ponto de lembr-la de que a garonete tinha nome. 

 Depois que vocs foram para a praia o que aconteceu? 

 Voltamos para casa e jantamos. O papai no estava em casa, o que no era to fora do 
comum, com certeza estava no trabalho... Lembro-me de que era o dia da semana da 'noite 
de vale-tudo', o que significava que podamos comer qualquer coisa que quisssemos no 
jantar. No final da noite, chupamos sorvete enquanto assistimos Donny & Mary, um seriado 
do qual gostvamos muito... Eu me lembro de que assistimos isso porque o Mick era 
completamente louco por esse seriado. Depois ele podia assistir O Incrvel Hulk. Mais 
tarde minha me nos colocou na cama, mas em algum momento em torno da meia-noite 
acordei com o som da minha me chorando. Levantei e fui ao quarto dela. Encontrei-a 
sentada na cama e toda vestida para sair. 

Maddie inclinou-se para frente: 

 Por que ela estava chorando? Meg virou-se para ela e disse: 

 Por que meu pai estava tendo mais um caso. 

 Ela contou isso para voc? 


 No, claro que no, mas eu tinha dez anos de idade. Eu sabia a respeito dos casos do 
meu pai.  O olhar de Meg estreitou-se.  O papai no teria nos deixado por ela. Eu sei 
que ele no faria isso de verdade. 

 Alice pensava que ele iria deixar a famlia para ficar com ela. 

 Todas pensaram isso.  Meg riu sem humor.  Pergunte a elas. Pergunte a Anna Van 
Damme, Joan Campbell, Katherine Howard e Jewel Finley. Todas elas pensaram que ele 
deixaria minha me para ficar com elas. Mas ele nunca fez isso, nunca a deixou, e tambm 
no a deixaria pela garonete. 

 Alice Jones.  Maddie quase se sentiu triste por Meg dizer rapidamente os nomes das 
amantes do pai. 

 . 

 Jewel Finley, no era amiga da sua me? 

 Ah, sim!  Meg zombou:  Que amiga! 

 Aconteceu alguma coisa fora do comum naquele dia? 

 Acho que no. 

Maddie colocou os antebraos sobre os joelhos, inclinou-se para frente, e olhou dentro dos 
olhos de Meg. 

 Em geral, quando se v uma mulher outrora saudvel matar o marido e depois a si 
mesma,  sinal de que alguma coisa acrescentou tenso ao relacionamento entre eles. 
Normalmente  o fato de que a pessoa que sente a maior parte da tenso se sente impotente, 
como se estivesse perdendo tudo, e assim no havia mais nada a perder... Se no era a 
infidelidade do seu pai, ento deveria haver alguma outra coisa. 

 Talvez ela simplesmente planejou assust-los com a arma. Talvez quisesse amedront-
los, mas as coisas mudaram no meio do caminho. 

Normalmente essa era uma desculpa, mas muito raramente era a realidade. 

 Voc acredita nisso? 

 Acredito. Talvez ela os tenha encontrado nus. 

 Ambos estavam vestidos. Alice estava atrs do balco do bar e seu pai na frente. Eles 
estavam a pelo menos trs metros de distncia um do outro. 

 Bom...  Meg mordeu a unha do polegar  eu ainda acho que ela foi at l para 
assustar o papai, e as coisas acabaram saindo do controle. 

 Voc imagina que tenha sido isso, mas no sabe ao certo. 

Meg baixou as mos e se levantou.  Minha me amava meu pai. Eu simplesmente no 
acho que ela tenha ido l com a inteno de matar algum. Em seguida pendurou a bolsa no 
ombro e arrematou:  Preciso ir para casa. 

Maddie levantou-se. 

 Bem, obrigada por sua ajuda  disse enquanto caminhava lentamente em direo  
porta.  Foi muito bom ter conversado com voc. 

 Se eu puder esclarecer mais alguma coisa, me ligue. 

 Ligarei. 

Depois que Meg saiu, Maddie voltou para a sala de estar e desligou o gravador. Sentia-se 
triste por Meg. De verdade. Meg foi uma vtima do passado, exatamente como ela prpria. 
Mas Meg era mais velha que Mick e Maddie, e se lembrava de mais coisas daquela noite 
horrvel. E certamente Meg se lembrava tambm de outras coisas, sobre as quais no queria 
falar. Lembrou-se de algo mais do que gostaria que Maddie soubesse. Mas por enquanto 
estava bom. Maddie escreveu o primeiro captulo do livro, mas parou para trabalhar na 
linha do tempo. Quando chegava numa idia para a seqncia... 


Miau. 

Maddie inclinou as costas. 

 Pelo amor de Deus!  Ela foi at a porta para olhar para o gatinho do outro lado.  V 
embora! 

Miau. 

Maddie puxou a corda das persianas verticais e as fechou de forma que no pudesse mais 
ver aquele gato inoportuno. Foi para a cozinha, preparou um jantar evitando como sempre 
os carboidratos, e comeu em frente  televiso, ligada com o som muito alto. Depois do 
jantar, tomou um longo banho e besuntou toda a pele com um esfoliante corporal de 
baunilha. Sobre o balco e prximo a uma toalha havia um frasco branco de leo corporal 
de espuma de marshmallow. Ela havia recebido o tal frasco pelo correio, em sua casa em 
Boise no dia anterior e o havia jogado na bolsa. 

Nossa! Foi no dia anterior que encontrou Trina, foi a Boise para a prova do vestido de dama 
de honra, e transou com Mick? Maddie tirou a tampa do ralo e se levantou. Percebeu que 
andava muito ocupada ultimamente. 

Enxugou-se, espalhou a loo cremosa na pele, vestiu as despojadas calas largas e uma 
camiseta qualquer. Depois foi para a sala de estar e pegou o gravador que permanecia sobre 
a mesa de centro. Um ruidoso comercial de telefone celular a fez pegar o controle remoto e 
desligar a televiso. Ela queria ouvir novamente as recordaes de Meg sobre a noite em 
que sua me havia matado duas pessoas e depois a si mesma. 

Miau. 

 Droga!  Maddie puxou a corda da persiana e l estava o seu tormento sentado como 
uma pequena bola de plo em meio s sombras escuras da noite. Levou as mos ao quadril 
e olhou feio para o gatinho pelo vidro.  Voc est me dando nos nervos! 

Miau. 

Estava alm do entendimento de Maddie como uma boca to pequena podia fazer uma 
algazarra to grande. 

 V embora!  Como se entendesse, o gato se levantou, andou em crculo, depois se 
sentou exatamente no mesmo lugar de antes. 

Miau. 

 Chega!  Maddie foi  lavanderia, meteu os braos numa jaqueta jeans, depois voltou 
pisando duro na direo das portas envidraadas. Abriu-as com certa violncia e pegou o 
gatinho. Ele era to pequeno que todo o seu comprimento cabia em uma das mos dela.  
O pior de tudo  que provavelmente voc tem pulgas e problemas de pele  ela disse. 

Miau. 

Segurou o gatinho longe do corpo. 

 A ltima coisa que preciso  de um gato com um defeito congnito. Miau. 

 Xiii... Vou arrumar um bom lar para voc.  O maldito gatinho comeou a ronronar 
como se estivessem se tornando amigos ou algo do gnero. To silenciosamente quanto 
pde, Maddie desceu os degraus, atravessou a grama fria na ponta dos ps na direo do 
jardim dos Allegrezza. Uma luz se acendeu na cozinha e pela porta deslizante de vidro, ela 
viu Louie fazendo um sanduche.  Voc vai adorar essa famlia  sussurrou. 

Miau. 

  verdade. Eles tem um garoto, e voc sabe que as crianas adoram gatos. Seja bonzinho 
que eles te levam para dentro.  Ela o deixou ali, no terrao, depois tratou de correr bem 
rpido de volta para casa. Fechou a porta, trancou e baixou as persianas como se estivesse 
fugindo do demnio. Sentou-se no sof e jogou a cabea para trs. Silncio, Graas a Deus. 


Fechou os olhos e pensou consigo mesma que havia feito uma boa ao, afinal ela podia t-
lo enxotado jogando alguma coisa na direo dele. O pequeno Pete Allegrezza era um 
garoto legal, ele provavelmente iria gostar de ter um gato e lhe daria um bom lar. 
Obviamente ele no comia h um bom tempo, mas sem dvida Louie o ouviria e o 
alimentaria com um pedao de carne que sobrou do almoo. Maddie estava se sentindo a 
prpria Madre Teresa de Calcut. Miau. 

 No  possvel, voc deve estar brincando comigo!  Ela se sentou e abriu os olhos. 

Miau. 

 Est bem. Eu tentei ser legal com voc.  Ela foi rapidamente para o quarto, calou 
suas sandlias de dedo pretas.  Gato estpido!  Depois voltou  sala de estar, abriu 
violentamente a porta, pegou o gatinho e o segurou em frente ao rosto, olhando ferozmente 
para aqueles olhos assustados.  Voc  muito estpido para saber que eu encontrei um 
bom lar para voc. 

Miau. 

Isso era um carma. Carma ruim. Definitivamente estava pagando por alguma coisa que fez. 
Com a mo que estava livre pegou a bolsa, acendeu as luzes de fora da casa prximo  
porta da lavanderia. J fora de casa o transponder na bolsa destrancou a porta do carro. 

 Nem pense em arranhar o banco de couro  disse quando sentou o gato no assento do 
passageiro. Era domingo  noite e o abrigo de animais estava fechado. Jogar simplesmente 
o gato para fora do carro no era uma de suas opes. Se ela dirigisse para o outro lado do 
lago e o deixasse nos degraus da frente da porta de algum por ali, aquela coisinha 
insignificante no conseguiria encontrar o caminho de volta. 

Apertou o boto no cmbio. No era completamente insensvel. No teria coragem de 
despej-lo em algum lugar que podia ter um enorme pit bull acorrentado no jardim. Ela no 
queria carregar aquele tipo de carma. 

Engatou a marcha  r e olhou para o gatinho sentado no assento de couro do carro olhando 
para frente.  Hasta Ia vista, baby, pensou. 

Miau. 

Mick entrou com a caminhonete no estacionamento do mercado e estacionou numa vaga 
que ficava a poucas fileiras das portas da frente. Saindo do carro, viu o carro preto de 
Maddie estacionado debaixo de uma das vrias luzes fortes. Embora nunca tivesse visto o 
carro dela, todo mundo na cidade sabia que Madeline Dupree dirigia aquele carro preto que 
mais parecia o carro do Batman. Para dentro das janelas que tinha vidros levemente 
coloridos, Mick podia ver apenas o contorno da cabea e do rosto dela. Andou at o carro, 
bateu na janela do lado do motorista e, com um mnimo de barulho, o vidro baixou 
centmetro por centmetro, fazendo com que a luz do estacionamento iluminasse o carro por 
dentro. De repente estava encarando novamente os olhos castanhos escuros da mulher que o 
havia  torturado durante toda a noite passada anterior. 

 Bonito gato!  Ele disse. 

 Obrigada. Miau. 

Mick olhou mais para baixo, para uma pequena bola de plo acomodada no colo dela. 

 Porque razo, Maddie, voc tem um gato no seu... 

 No diga nada... Ele riu e perguntou: 

 Quando voc adotou esse gato? 

 No  meu. Eu odeio gatos! 

 Ento por que ele est no seu... colo? 


 Eu no consegui ir embora...  Ela se virou para frente e olhou para as mos agarradas 
no volante, respirou e contou:  Eu tentei encontrar uma casa para ele do outro lado do 
lago. At escolhi uma casa bonita com persianas amarelas... 

 O que aconteceu? 

Maddie balanou a cabea. No sei. Eu estava andando sorrateiramente pela varanda, 
pronta para deixar o gato e correr, mas esta coisa ronronou e esfregou a cabea no meu 
queixo. Quando olhou para Mick ele percebeu uma ruga de preocupao entre suas 
sobrancelhas:  E aqui estou eu, pensando naquela infinidade de comerciais de comida de 
gato da tev, e querendo saber se eu devo comprar uma marca ou a outra... 

Mick perguntou.  Qual  o nome dele? 

 No  ele... acabo de descobrir que  uma fmea  explicou tentando dissuadi-lo da 
pergunta. 

 Ah,  uma menina... zombou  E qual  o nome dela? Maddie fechou os olhos e 
sussurrou: 

 Bola de Neve. 

Ele continuou rindo. Ela abriu os olhos e o olhou de modo penetrante: 

 O que foi? 

 Bola de Neve? 

 Ela  branca! Miau. 

  to... sei l, parece coisa de menina. 

 Isso  surpreendente vindo de uma pessoa que batizou a sua poodle de Princesa. 

Mick parou de rir. 

 Como voc sabe sobre a Princesa? 

Maddie abriu a porta do carro, ele deu um passo para trs. 

 Sua irm me contou.  Levantou o vidro da janela, estendeu a mos, pegou a gata e 
saiu do carro.  E antes que voc fique todo nervoso, sua irm apareceu em casa hoje tarde 
querendo falar comigo sobre seus pais. 

 O que ela disse? 

 Um monte de coisas. Bateu a porta e a travou.  Muito embora eu pense que ela queria 
que eu pensasse que quando pequenos vocs todos eram muito felizes, at que Alice Jones 
se mudou para a cidade. 

 Voc acreditou nela? 

 Claro que no.  Maddie ps a gata dentro de um dos bolsos internos da jaqueta, e 
pendurou a bolsa no ombro. A mesma bolsa grande onde carregava sua arma de 
eletrochoque.  Especialmente quando ela deixou escapar que a sua me jogou uma pilha 
de roupas do seu pai no fogo. 

 ... eu me lembro disso.  Certamente no era segredo.  Lembro de que a grama no 
jardim da frente no cresceu por um bom tempo.  Provavelmente Mick tinha cinco anos 
na poca, aquilo um ano antes de a me perder completamente o discernimento. 

 Ah! Outra coisa, fique avisado desde j que no haver nenhum filme com Colin Farrell 
e Angelina Jolie baseado no crime, como andam alardeando por a. 

Mick ouvira o rumor sobre o filme e se sentiu melhor por saber que no era verdade. 

 Voc est de pijama? 

Quando Maddie olhou para baixo para checar sua roupa o gatinho ps a cabea para fora da 
jaqueta. 

 Acho que ningum vai perceber. 

 Eu percebi. 


 , mas eu estava usando cala de pijama como essa na noite passada. Ela olhou-o e um 
sorrisinho sensual brincou nos lbios dela.  Pelo menos no incio da noite. 

Ela no pensava que fariam sexo novamente. Certo. 

 Esse perfume est vindo de voc?  ele perguntou. 

 O qu? 

 Estou sentindo cheiro de festa de flocos de arroz.  Ele deu um passo na direo dela e 
abaixou a cabea.  Claro que  voc. 

 Ah!  o meu leo corporal de espuma de marshmallow. 

 leo corporal?  Ser que ela tinha alguma iluso de que eles no terminariam juntos 
de novo na cama?  Pensei em voc o dia todo.  Ele ps a mo no pescoo dela e 
pressionou sua testa contra a testa dela.  Nua.  Sob o polegar ele sentiu a pulsao nas 
veias de Maddie, quase to forte quanto as batidas do seu prprio corao. 

 Voltei  abstinncia. 

 Voltou a ser um tipo mais ou menos celibatrio? 

 Voltei. 

 Posso fazer voc mudar de idia.  Mick estava fazendo uma coisa que jamais fazia, 
tentando convencer uma mulher a ficar com ele. Quer as mulheres quisessem ou no. 

 Dessa vez, no  ela disse, embora no parecesse muito convencida disso. 

Mas quando se tratava de Maddie nada era muito normal. 

 Voc adora o jeito como eu beijo e toco o seu corpo. Lembra? 

 Eu... ah...  gaguejou. 

Em geral Mick no ficava o dia todo atormentado por causa de uma mulher. No ficava 
querendo saber o que ela estava fazendo, se estava trabalhando ou enfrentando 
camundongos mortos, nem pensava numa estratgia para tirar novamente a sua roupa. 

 Voc j est pronta para dormir...  Ele roou a boca na dela de maneira provocante. 
Em geral Mick no perdia tempo porque sempre havia outras mulheres que ele no 
precisava seduzir e convencer.  Voc sabe que voc quer. 

Miau. 

Maddie deu um passo atrs e ele baixou a mo. 

 Tenho que comprar comida para a gata. 

Mick baixou o olhar para a cabea branca e peluda que estava para fora da jaqueta de jeans 
de Maddie. Aquela gata era puro problema. Maddie afagou a cabea da gatinha e disse: 

 Seja uma boa menina, Bola de Neve, virou novamente para o rosto para Mick, o 
encarou, e depois se voltou novamente para a gatinha e a alertou: 

 Tome cuidado com ele. Ele  um homem muito mau. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 13 

 

Eram cerca de trs horas da tarde quando Maddie andou at a sua caixa de 
correspondncias, e dentro dela encontrou uma coleirinha que tinha brilho cor-de-rosa e um 
pequenino sino tambm cor-de-rosa. No havia nenhuma nota ou carto, s a coleira. 

Mick era a nica pessoa que sabia sobre Bola de Neve. Ela no contou para nenhuma de 
suas amigas por temer que elas se matassem de rir. Maddie Jones, dona de um gato? 
Impossvel! Depois de passar a maior parte da vida odiando gatos, aqui estava ela, com 
uma cole ira cor-de-rosa na mo, olhando para baixo, para aquela pequena bola de plo 
branca enrolada na cadeira do escritrio. 

Pegou a gatinha e a trouxe na altura do rosto. 

- Essa cadeira  minha! Eu fiz uma cama para voc. - E dizendo isso, carregou a gata para a 
lavanderia e a colocou sobre uma toalha enrolada dentro de uma caixa de papelo. - Regra 
nmero um: eu sou a chefe. Regra nmero dois: voc no pode subir em cima dos meus 
mveis, nem deix-los cheios de plos. Ela se ajoelhou e ps a coleira no pescoo de Bola 
de Neve. 

Miau. 

Maddie franziu as sobrancelhas. 

Miau. 

- Ok... Voc est muito graciosa de coleira... - Levantou-se e apontando o dedo indicador 
na direo da gata concluiu: - Regra nmero trs: eu deixei voc entrar e te dei comida. E  
s isso. Eu no gosto de gatos.  Dito isso, deu meia-volta e saiu da lavanderia. O tinido do 
sino a seguiu para a cozinha. 

Maddie olhou para os ps, suspirou e puxou uma lista telefnica para fora de uma das 
gavetas do armrio. Abriu, folheou, mas no encontrou o que procurava, ento trocou pelas 
pginas amarelas. Ali estava! Pegou o celular, apertou sete nmeros. Ouviu o toque e 
finalmente: 

- Mort's - um homem atendeu, mas no era Mick. 

- Posso falar com Mick? 

- Ele normalmente no vem antes das oito horas. 

- Voc poderia dar um recado a ele? 

- Sim, vou pegar uma caneta. - Houve uma pausa e depois: - Ok. 

- Mick, obrigada pela coleira cor-de-rosa. Bola de Neve. 

- Voc disse Bola de Neve? 

- Sim, assine Bola de Neve, ok? 

- Ok. 

- Obrigada! - Desligou e fechou a lista telefnica. Dez minutos depois das oito da noite, 
enquanto Maddie passava os olhos numa revista especializada em crimes, o telefone tocou. 

- Al. 

- O seu gato me ligou. 

S o som da voz de Mick foi suficiente para faz-la sorrir, o que era um pssimo sinal. 

-  mesmo? E o que ela queria? 

- Agradecer pela coleira. 

Maddie olhou para Bola de Neve e a pegou em flagrante deitada na cadeira vermelha, 
lambendo uma das patas, desrespeitando a regra nmero dois. 

- Ela tem boas maneiras. 

- O que vai fazer hoje  noite? 


- Vou ensinar Bola de Neve que garfo usar em cada prato. 

Mick riu. 

- E a que horas ela vai pra cama? 

Ela virou a pgina da revista e olhou atentamente um artigo sobre um homem que havia 
matado trs de suas esposas como se fossem trofus. 

- Por qu? 

- Porque eu quero te ver. 

Maddie tambm queria v-lo. Isso era ruim, era um problema. Ela no queria se sentir toda 
feliz s porque ouvira a voz dele ao telefone. Ela no queria v-lo num estacionamento e se 
lembrar do toque das mos e dos lbios dele. 

Quanto mais o via, mais pensava nele, mais o queria e mais suas vidas ficavam 
emaranhadas. 

- Voc sabe que eu no posso - ela disse virando vrias outras pginas da revista. 

- Encontre-me no Hennessy's e, por favor, traga sua cmera. 

Ao ouvir aquilo, sua mo ficou imvel. 

- Voc est me dizendo que vai me deixar tirar fotos do seu bar? 

- Isso. 

Maddie normalmente no tirava fotos para seus livros, mas no seria um problema se 
tirasse. 

- Quero ver voc. 

- Voc est me subornando? 

Houve uma pausa na linha, depois Mick perguntou: 

- Isso  um problema? 

Era? 

- S se voc achar que eu vou transar com voc em troca de algumas fotos. 

- Docinho - ele disse num tom que parecia de irritao, - Eu queria que fazer voc tirar a 
roupa fosse assim to fcil, mas no. 

S porque ela ia ao Hennessy's para tirar umas fotos no significava que algum terminaria 
sem roupa. Maddie passou quatro anos sem sexo. Obviamente que ela tinha auto controle. 

- Por que no vai para l por volta da meia-noite? Vai estar vazio, assim voc pode tirar 
quantas fotos quiser. 

Indo ao Hennessy's, estaria usando a inegvel atrao entre eles para conseguir o que 
queria. Da mesma forma que Mick estava usando ao liberar as fotografias no interior do bar 
para conseguir o que queria. Ela ficou pensando que seria melhor declinar da oferta 
tentadora e fazer prevalecer a sua conscincia. Mas como acontecia de tempos em tempos 
na vida dela, quando surgia alguma dvida entre a qualidade de seu trabalho e seus 
escrpulos, sua conscincia se calava. 

- Estarei l! - Depois que desligou o telefone respirou fundo e segurou o ar. Entrar naquele 
bar no seria o mesmo que visitar qualquer cena de crime que visitou e explorou 
minuciosamente. Tratava-se de um assunto pessoal. 

Deixou sair o ar confinado nos pulmes... Lembrou -se das fotos da cena do crime que viu e 
dos relatrios que leu. Depois de vinte e nove anos de o fato ter ocorrido, no seria um 
problema enfrentar a cena daquele crime. Maddie sentou-se de frente com vrios 
assassinos, separada apenas por uma barreira de malha. Houve ocasies em que os 
criminosos lhe disseram friamente o que fariam com o seu corpo se tivessem alguma 
oportunidade. Em comparao com aquelas cenas dignas de pesadelo, ir ao Hennessy's 
seria caf pequeno, ainda que amargo. 


O Hennessy's foi pintado de um cinza indescritvel e seu espao era bem maior do que se 
poderia imaginar olhando de fora. Por dentro, o comprido bar comportava numa das 
extremidades duas mesas de sinuca e na outra uma pista de dana. No meio, trs degraus 
levavam a um plano inferior delimitado por uma cerca branca, onde havia dez mesas 
redondas. 

O Hennessy's nunca teve a reputao comprometida pelo tipo de garotas indisciplinadas 
que freqentavam o Mort's. Era mais tranqilo, reconhecido por ter bebida e msica de boa 
qualidade e, por algum tempo, por ter sido palco de assassinatos. O Hennessy's conseguiu 
finalmente se reabilitar desse passado, pelo menos at que uma certa escritora sobre crimes 
verdicos chegou  cidade. 

Atrs do balco do bar, Mick ps gim numa coqueteleira. Olhou-a e reparou que uma luz 
brilhava no cabelo de Maddie, ressaltando alguns fios castanho-avermelhados no rabo de 
cavalo. Voltando o olhar para a garrafa comprida e clara nas suas mos, disse: 

- Meu bisav construiu este bar em 1925. 

Maddie deixou a cmera sobre o balco e olhou em volta. 

- Durante a Lei Seca? 

- Isso mesmo! - E apontando para o centro do bar cujo nvel do cho era mais baixo, falou: 
- Aquela parte era uma sala onde funcionava um restaurante. Ele fazia e vendia lcool de 
cereais l nos fundos. Lembrou dos grandes olhos castanhos de Maddie olhando-o quando a 
beijou no pescoo, e de como aquele olhar tornou tudo mais quente e sensual. Ali, naquele 
momento, seus olhos estavam um tanto arregalados, como se estivesse vendo fantasmas. 

- Ele nunca foi pego? Maddie perguntou, enquanto olhava mais uma vez por todo o bar. 
Claramente, ela no tinha inteno nenhuma de tentar dominar a conversa. 

Quando abriu a porta dos fundos e a viu ali parada, ela parecia to tensa que ele refreou sua 
fantasia de empurr-la contra a parede e beij-la at que ela ficasse completamente sem 
flego. 

Mick mudou de idia. Ambos sabiam que ela estava l para tirar fotos. Ficou surpreso com 
a maneira como ela parecia perturbada por estar dentro daquele bar. Pensou que ela Maddie 
ficaria feliz, afinal estava facilitando o seu trabalho, mas ela no parecia feliz. Parecia estar 
prestes a desmontar. Mick continuou: 

- Naquela poca a cidade era to pequena e insignificante... Alm disso, meu bisav era 
muito querido por todo mundo. Quando a Lei Seca acabou, ele esvaziou todo este lugar e o 
transformou num bar. E, fora umas pequenas reformas de manuteno e outras poucas 
mexidas necessrias para a renovao de equipamento, tudo aqui est exatamente igual 
desde aquela poca. 

Mick acrescentou um borrifo de vermute e tampou a coqueteleira, e sinalizando com a 
cabea, acrescentou: 

- Meu av transformou aquela rea ali numa pista de dana, e depois meu pai trouxe as 
mesas de sinuca. - Chacoalhou a mistura com uma das mos enquanto esticava a outra para 
debaixo do balco. - Decidi mant-lo igual. 

- Colocou um copo de martni sobre o balco, depois outro. Acrescentou algumas azeitonas 
espetadas em palitos. Enquanto servia, olhou para o rosto de Maddie, percorrendo-lhe 
depois o pescoo e chegando  blusa branca. O boto de cima parecia estar perigosamente a 
ponto de estourar e permitir uma excelente viso daquele colo farto. 

- Investi meu dinheiro e minha energia no Mort's. Na prxima semana meu amigo Steve e 
eu temos uma reunio com alguns investidores para falar sobre o incio de um negcio de 
passeios de helicptero por esta regio. Quem sabe no d resultado? Eu sei trabalhar com 


bares, mas de fato pretendo ampliar meus negcios, criar outros interesses. S assim vou 
me sentir saindo deste estado de estagnao que sinto vivo. Finalmente empurrou o copo de 
martni para a frente de Maddie e ficou imaginando se ela estava pelo menos ouvindo o que 
ele dizia. 

Os dedos tocaram a haste. 

- Por que se sente estagnado? 

Ouvindo aquilo concluiu que ela estava escutando. 

- No sei. Talvez porque quando criana eu ansiava por sair daqui e ir at o inferno se 
necessrio. - Pegou um dos palitos no copo e mordeu a azeitona. 

- Mas aqui estou. 

- Mas  porque sua famlia est aqui... Eu no tenho famlia, exceto por algumas primas que 
encontrei umas poucas vezes. Se tivesse um irmo ou irm, imagino que iria querer viver 
perto deles. 

Mick lembrou-se de que a me de Maddie havia morri do quando ela era pequena. 

- Onde est o seu pai? 

- No sei, eu nunca o conheci. - Ela mexeu o martni com uma das azeitonas. 

- Como voc sabe o que eu gosto de beber? 

Ele ficou pensando se Maddie no teria mudado de assunto de propsito. 

- Eu conheo todos os seus segredos. - Ela olhou-o um pouco assustada. Ele riu: Me lembro 
do que voc estava bebendo na primeira noite que te vi. 

Depois, andando at o final do balco, sentou-se de frente para Maddie. Ele colocou um dos 
ps no apoio de p do banco dela, entre os ps dela. Maddie usava uma saia preta que o 
joelho dele fez subir at as coxas macias dela. 

-  mesmo? - Ela pegou a bebida e olhou-o por sobre o copo. Tomou metade do contedo, 
engolindo o gim como se fosse gua. Se no fosse cuidadosa, Mick teria que lev-la para 
casa. O que no seria m idia... 

- Estou surpresa de que se lembre de qualquer coisa alm da tentadora oferta da Daria, de 
lhe mostrar o traseiro. 

- Lembro de que j naquela primeira noite notei esse seu lado mordaz. - Pegou a mo dela e 
passou o polegar pelo n de seus dedos. - E me perguntei como seria beijar essa boca 
mordaz. 

- Agora voc j sabe. 

Os olhos dele perscrutaram todo o rosto. As mas, a mandbula, os lbios molhados... 
Depois se fixaram novamente nos olhos. 

- Pois  e agora que eu sei, fico pensando em todos os lugares que eu no cheguei a beijar 
na outra noite... 

Maddie deixou o copo no balco. 

- Uau! Voc  bom nisso, hein? 

- ... sou bom num monte de coisas... 

-  mesmo, especialmente em dizer a coisa certa para seduzir uma mulher. 

Mick baixou a mo. 

- Voc acha que no estou falando a verdade? 

Maddie pegou a cmera, girou sobre o banco em que estava sentada. Mick tirou o p e ela 
se levantou. 

- Tenho certeza de que voc est falando a verdade. Virou-se de costas e levantou a cmera. 
- Voc diz isso para toda mulher. 

Mick pegou seu copo e tambm se levantou. 


- Voc acha que eu j disse isso a alguma outra mulher? 

Maddie ajustou o foco e bateu uma foto das mesas vazias. O flash disparou e ela disse: 

- Claro! 

Aquilo o ofendeu, especialmente porque no era verdade. 

- Bom, docinho, parece que voc no d muito crdito a si mesma, no ? 

- Claro que dou muito crdito a mim mesma! - Outro dique, outro flash, ento acrescentou: 
- Mas eu sei como so as coisas... 

Mick bebeu um gole. O gim fresco esquentou-lhe a garganta. 

- Ok, ento me diga o que voc acha que sabe. 

- Eu sei que no sou a nica mulher com quem voc passa o seu tempo. - Ela abaixou a 
cmera e caminhou at uma das extremidades do balco. 

- Voc  a nica mulher que estou vendo atualmente. 

- Claro, atualmente. Mas voc vai querer se livrar de mim logo, logo. Tenho certeza de que 
ns todas somos meras alternativas para satisfazer o seu desejo. 

Mais uma vez o flash disparou. Mick andou para o lado oposto. 

- No achei que voc tivesse problemas com isso... - Chegou a um canto escuro e encostou 
o quadril na jukebox. 

- No tenho nenhum problema com isso... S estou dizendo que tenho certeza de que no 
escuro ns todas somos exatamente a mesma coisa. 

Mick estava comeando a ficar muito irritado com aquela conversa, mas parece que era 
exatamente isso o que ela queria, irrit-lo, e ficou imaginando porque diabos Maddie iria 
querer que ele a visse de maneira to ruim. Parece que acreditou nas fofocas que ouviu 
sobre a vida amorosa dele... Mas e da? E se acreditou? Mick quis entender por que estava 
se sentindo to incomodado pelo fato de ela querer falar nisso. Talvez o melhor fosse 
esquec-la de uma vez e procurar outra mulher. O problema era que ele no tinha vontade 
de ligar para mais ningum. Mais uma coisa que o incomodava, quase tanto quanto a 
atitude dela. 

Maddie tirou vrias fotos do cho em frente ao bar de diferentes ngulos, depois disse: 

- Voc est errado. Nem todas as mulheres so iguais no escuro. 

 Depois se virou e olhou bem no fundo dos olhos dele. Ele quis ofend-la, mas era tpico da 
Maddie no agir como as outras mulheres. Pelo contrrio, ele respirou fundo e deixou que o 
ar sasse lentamente. 

- Voc est querendo me deixar maluca? 

- Parece justo, afinal voc tambm est tentando me deixar maluco. 

Ela pensou por um instante e depois confessou: 

-  verdade. 

- Por qu? 

- Talvez porque eu no queira pensar no que estou fazendo. - Ela foi para a outra ponta do 
balco. Olhou para a superfcie antiderrapante no cho e bateu mais algumas fotos e em 
seguida baixou a cmera. Depois de um longo suspiro, audvel o suficiente para que ele 
ouvisse, disse: 

- Isso  mais difcil do que eu pensei que seria. 

Ele se endireitou. 

- So o mesmo balco, espelhos, luzes e a velha caixa registradora.  Colocou a cmera no 
balco e se apoiou. - As nicas coisas que esto diferentes so o sangue e os corpos. 

Mick andou na direo dela, largou o copo quando passou pelo balco. 


Havia algo estranho em sua voz quando Maddie disse: - Ela morreu aqui. Como voc pode 
viver com isso? 

Ele colocou suas mos nos ombros dela. 

- Eu no penso mais nisso. 

Ela se virou e o olhou. Seus olhos estavam rasos. 

- Como  possvel? Sua me matou seu pai bem no topo destes degraus! 

-  s um lugar. Quatro paredes e um telhado. - Ele escorregou as mos para os braos dela. 
- Isso aconteceu h muito tempo e, como j te falei, eu no penso nisso. 

- Eu penso. - Ela mordeu o lbio, virou a cabea e secou os olhos. Mick nunca havia 
encontrado uma escritora antes de Maddie, mas parecia que ela estava terrivelmente 
comovida para uma mulher que estava escrevendo um livro sobre pessoas que nem mesmo 
conhecia. 

- Isso foi muito mais difcil do que eu pensei que seria. Eu geralmente no tiro as fotos para 
os meus livros, e pensei que conseguiria fazer isso com tranqilidade. 

Talvez, como escritora tivesse que mergulhar nos detalhes e senti-los e para depois poder 
escrever sobre eles com mais profundidade. Afinal, o que sabia a respeito? Ele sequer lia 
livros com tanta freqncia. 

Maddie o olhou e disse: 

- Preciso ir embora. - Pegou a cmera de cima do balco, andou desviando dele, e no 
caminho para fora, pegou a jaqueta e a bolsa que havia colocado sobre um dos bancos 
quando chegou. 

A noite havia se transformado em algo ruim e ele nem mesmo sabia porque, nem sabia o 
que fez ou deixou de fazer para que as coisas acontecessem assim. Mick pensou que ela 
tiraria umas fotos, eles tomariam uma bebida, conversariam e depois, claro, acabariam 
transando. Ele seguiu Maddie para os fundos do bar. 

- Voc est bem para dirigir? - ele perguntou enquanto saam pela porta dos fundos. 

Maddie parou sob um pequeno foco de luz enquanto colocava a jaqueta. Fez que sim 
balanando a cabea. Sua bolsa caiu no cho, mas em vez de abaixar-se e peg-la, cobriu o 
rosto com as mos. 

- Por que no me deixa lev-la para casa? - Ele andou na direo dela, abaixou -se e pegou 
a bolsa. Apesar de ter sido criado por mulheres, ele no entendia Maddie Dupree. Ela era 
muito diferente. - Voc parece muito perturbada para dirigir por a. 

Ela o olhou com os olhos cheios de gua. Uma lgrima transbordou e escorregou pelos 
clios inferiores. 

- Mick, eu preciso te contar uma coisa a meu respeito. Uma coisa que eu devia ter contado 
logo que te conheci, semanas atrs. 

Ele no estava gostando daquele tom... No se conteve, e colocando a bolsa no teto do 
carro, arriscou: 

- Voc  casada! 

Maddie negou balanando a cabea, depois tentou esclarecer: 

- Eu... eu sou ... - Jogou para fora o ar que tinha nos pulmes e limpou as lgrimas. - Eu no 
... estou com medo... no posso... - Em seguida cruzou os braos ao redor do pescoo de 
Mick e seus corpos se juntaram. - Eu no consigo tirar aquelas fotos da cena do crime da 
minha cabea... 

S isso? Era por isso que estava to perturbada? Ele no soube o que dizer, nem o que 
fazer. Sentiu-se intil, acariciou levemente as macias costas depois escorregou as mos para 
a cintura e a segurou. Apesar de toda aquela situao de desespero e do choro, Mick sentiu 


um prazer lhe subir pelas calas. E ele sabia exatamente o que estava com vontade de fazer. 
S no sabia se era o momento apropriado, em vista do estado em que Maddie estava. 
Lembrou -se que ela tinha capacidade de ler sua mente, e pensou se desta vez ela 
conseguiria. De fato, aquela excitao era culpa dela. Ela no devia ter jogado seu corpo 
contra o dele e se pendurado no seu pescoo. Hoje ela cheirava novamente a baunilha. 

Ele voltou a acarici-la nas costas. Segur-la era to bom quanto sexo. 

- Mick? 

- H? 

- Quantas camisinhas voc tem a com voc tem hoje? 

As mos dele pararam. Havia comprado uma caixa no dia anterior. 

- Doze, l na caminhonete. 

- Hmm... Deve ser suficiente... 

Ele deu um passo para trs para olhar para o rosto dela, o perfil dela brilhava com a luz dos 
fundos do Hennessy's. 

- Maddie Dupree, eu no te entendo. 

- Ultimamente nem eu me entendo. - Dizendo isso, correu os dedos pelos cabelos dele e 
puxou-o para junto de si. - E com relao a sua preocupao, de fato parece que no estou 
fazendo a coisa certa. 

 

No final da manh seguinte, na cozinha, Maddie levou uma xcara de caf quente aos 
lbios. Usava um roupo de banho branco e seus cabelos molhados estavam presos para 
trs. Na noite anterior ela quase conseguiu contar a Mick que Alice Jones era sua me. 
Devia ter contado, mas cada vez que abria a boca no conseguia pronunciar as poucas 
palavras que a libertariam de uma vez por todas do seu segredo. No foi o medo de contar, 
mas alguma outra razo a impediu simplesmente. Talvez o momento ideal tivesse passado. 
Seria melhor esperar por um outro momento. 

Quando a lembrana das horrveis fotos do crime lhe invadiram inesperadamente a cabea, 
deixaram-na em estado tal, que s o corpo dele pde ajud-la a esquecer a aquelas imagens. 
Em visita  sepultura da me no sentiu desespero igual quele de ter pisado no exato lugar 
onde a me morrera. Era como se algum lhe tivesse invadido o interior do peito e tentasse 
arrancar seu corao. Quem sabe se no tivesse visto as fotos da me na cena do crime, 
toda ensangentada, nas quais os cabelos loiros estavam tingidos pelo sangue de marrom 
escuro, talvez ela no tivesse ficado em tal estado. 

Maddie odiava ficar emotiva, especialmente na frente de outras pessoas. E ainda mais na 
frente de Mick. Mas ele estava l, viu tudo aquilo e ela precisou de algum em quem se 
agarrar quando tudo parecia to desequilibrado. Ele a seguiu at em casa. Assim que 
entraram, Maddie pegou-o pela mo e o levou para o quarto. Ele a beijou em todos aqueles 
lugares que mencionou ter pensado. Mick transformou cada nervo do seu corpo em focos 
de fogo. Maddie sabia que devia se sentir mal por terem ficado juntos mais uma vez. Era 
errado. Mas estar com ele lhe dava tanto prazer que no conseguia se sentir to mal. 

Miau. 

Bola de Neve entrelaou-se entre seus ps ronronando, e Maddie olhou para a gata. 

- Como foi que minha vida chegou a este ponto? Um gato dentro da minha casa, se 
enroscando nas minhas pernas, e um Hennessy na minha cama... 

Ps a xcara no balco e foi  dispensa apanhar o pacote de rao. Encontrou um 
camundongo sem vida cado no cho. Bola de Neve cheirou a cauda do morto. Havia 


mudado o veneno de lugar depois que decidiu ficar com a gatinha, o que no significava 
que o camundongo no tivesse mordido a isca. 

- No coma isso, seno vai ficar doente. 

Ela apanhou Bola de Neve e a carregou para a lavanderia. A gata ronronava e roava a 
cabea no queixo de Maddie. 

- A propsito, eu sei que voc no dormiu na sua cama. Encontrei pelo branco na cadeira 
do escritrio. - Ela deixou a gatinha na sua caixa de papelo e ps comida dentro de um 
pequeno prato. 

- Eu no quero andar por a com plo branco na minha bunda. - Bola de Neve pulou para 
fora da caixa e atacou a comida como se no comesse h uma semana. Na noite anterior, 
quando Mick saiu do banheiro, limpo e com um sorriso de satisfao nos lbios, a gatinha 
se aproximou, atravessou sorrateiramente o carpete e atacou suas pernas. 

- Que  isso? - Mick reclamou e pulou de um lado para o outro, enquanto Bola de Neve 
correu para debaixo da cama. - No acredito que gastei dinheiro comprando uma coleira 
para esse monstrinho. 

Maddie riu e bateu de leve na cama. 

- Vem c. Vou fazer voc se sentir melhor depois de ter sido atacado por esse gato grande e 
malvado. 

Quando acordou naquela manh, estava sozinha de novo. Teria sido bom acordar e ver o 
rosto dele e os olhos azuis a olhando, sonolento e satisfeito. Mas era melhor assim. Melhor 
manter distncia, embora na ltima noite tenham estado o mais prximo que duas pessoas 
podiam ficar fisicamente uma da outra. 

Enquanto Bola de Neve mastigava, Maddie apanhou o camundongo com um pedao de 
papel toalha e o levou para a lata de lixo do lado de fora da casa. Em seguida ligou para o 
veterinrio local e marcou uma consulta para a primeira semana de agosto. Havia marcas de 
dentes do lado de fora da caixa de barras de cereais com baixo teor de carboidrato... Mas as 
barras pareciam intactas. Maddie pegou uma, abriu, deu uma mordida. Parecia normal. 
Mais uma mordida e a campainha tocou. 

Olhou atravs do olho-mgico e viu Mick na varanda, de banho tomado, barbeado e bem 
relaxado, vestindo cala jeans e uma camisa, cujas mangas foram cortadas por cima da 
camiseta regata. Maddie ignorou um certo nervosismo que lhe causou uma leve reviravolta 
no estmago e abriu a porta. 

- Dormiu bem? - Perguntou enquanto um sorrisinho astuto lhe surgiu das covinhas. 

Maddie abriu mais a porta para ele entrar e disse: 

- Acho que eram mais de trs horas da manh quando eu finalmente desmaiei. 

- Eram trs e meia - Ele corrigiu ao entrar. Ela fechou a porta atrs dele. - Onde est a sua 
gata? - Perguntou no caminho para a sala de estar. 

- Tomando o caf da manh dela. No acredito que voc est com medo de uma gatinha? 

- Aquilo no  uma gatinha  uma bola de plo da Tasmnia disse puxando um ratinho de 
pano do bolso da frente da cala. - Trouxe um brinquedinho para ela ficar mais mansinha. - 
Ele jogou o ratinho sobre a mesa de centro e perguntou: - Quais so seus planos para hoje? 

Ela planejava trabalhar... 

- Por qu? 

- Pensei que podamos pegar a estrada at o lago Redfish e almoar por l. 

- Como se fosse um encontro entre namorados? 

- Isso mesmo - disse se esticando para alcanar o cinto felpudo do roupo e pux-la para 
perto dele. - Por que no? 


Porque eles no estavam namorando, e sequer deviam estar transando. No poderiam 
namorar, independentemente de quanto seu estmago revirasse ou sua pele arrepiasse. 

- Estou com fome, e achei que voc tambm devia estar. - Mick baixou a cabea at o 
pescoo dela e a beijou. 

Maddie encostou a cabea no ombro dele. De qualquer forma ela teria de comer alguma 
coisa... 

- Por que o lago Redfish? 

- Por que l tem um timo restaurante que fica num hotel, e eu quero passar o dia inteiro 
com voc. - Ele beijou mais uma vez o pescoo dela.  Diga que sim... 

- Ok, vou me vestir - concordou puxando o cinto da mo dele, e saiu. Quando chegou ao 
quarto perguntou: - Quanto tempo de viagem at o lago Redfish? 

- Cerca de uma hora e meia - Mick respondeu da porta do quarto. 

No esperava que ele viesse atrs dela at o quarto, e o olhou enquanto pegava uma 
calcinha na gaveta. Mick encostou-se no batente da porta e ficou olhando-a atentamente. 
Seu olhar pareceu muito ntimo e os olhos ficaram com aquele azul todo sensual. Mais 
ntimo do que quando ele beijou a parte de dentro das suas coxas. ntimo como se eles fosse 
um casal, como se para ele fosse normal assisti-la se vestir. Parecia que o relacionamento 
entre eles era mais do que realmente era. E mais do que seria algum dia. Como se houvesse 
alguma chance de o relacionamento entre eles se modificar no futuro. Maddie levantou as 
sobrancelhas e numa tentativa de faz-lo sair dali falou: 

- Importa-se? 

- Voc no vai ficar toda recatada, vai? Depois da noite que passamos?  Ela continuou a 
encar-lo at que Mick suspirou e se afastou do batente da porta. 

- Est bem... Vou se consigo fazer sua gata gostar de mim... 

Depois que ele saiu, Maddie tentou no pensar no futuro. Vestiu rapidamente um vestido de 
vero cor-de-rosa, puxou os cabelos para trs e os prendeu com um elstico. Depois foi 
para a frente do espelho, aplicou no rosto um protetor solar, um pouco de rmel nos olhos e 
gloss nos lbios. 

 luz do dia, com o desejo sexual satisfeito e as emoes completamente controladas, 
Maddie sabia que precisava contar a ele que era Madeline Jones. Mick tinha o direito de 
saber. 

Logo que o pensamento de contar a ele veio a sua cabea, sentiu uma presso no estmago. 
Mas, afinal de contas ele teria que saber. Ela podia no ter sido muito diplomtica na ltima 
noite, quando mencionou as outras mulheres. Claramente ela o havia deixado louco, mas o 
fato era que Mick Hennessy no era homem de uma mulher s tanto quanto o pai dele havia 
sido. Ou o av. Mesmo que ele no tivesse vendo mais ningum no momento, algum dia 
ele se cansaria de Maddie e a faria circular mais cedo ou mais tarde. Ento porque contar a 
ele hoje? 

Se acontecesse alguma coisa, ela esclareceria seu acesso de se mortificar na noite passada. 
Ela no era mulher de ficar toda chorosa, de chorar nos braos de um homem. Talvez no 
tenha se desmanchado como algumas mulheres o fariam, mas para ela, aquela cena 
significou uma perda de controle que a deixava envergonhada. Ainda que doze horas 
tivessem se passado, Maddie continuava envergonhada por aquilo. 

Durante o caminho para Redfish, Maddie decidiu esclarecer: 

- Me desculpe pela noite passada - disse mais alto que a msica country que se ouvia na 
cabine da caminhonete de Mick. 


- Desculpar por qu? Voc no tem nada por que se desculpar. Acho que voc ficou um 
pouco alterada, mas eu gosto disso em voc. - Ele deu um sorriso malicioso e olhou atravs 
das lentes azuis espelhadas dos culos de sol. - s vezes eu no entendo tudo que voc 
diz... - disse voltando o olhar para a estrada - ...mas voc fica muito sensual quando diz 
essas coisas meio sem sentido. 

Por alguma razo, Maddie suspeitou de que eles no estavam falando sobre a mesma coisa, 
ento esclareceu: 

- Eu estava falando sobre ter perdido o controle - Ahhh... - O polegar dele bateu de leve no 
volante, no tempo da msica que tocava no CD player. - No se preocupe com isso. 

Maddie desejou poder seguir o conselho dele, mas no era assim to fcil para ela. 

- Existem alguns modelos de garotas que eu nunca gostaria de ser. Uma delas  a garota que 
perde o controle que chora o tempo todo. 

- Eu no acho que voc  uma garota emotiva. - O ar que saa das ventoinhas do carro 
tocavam os cabelos escuros prximos  testa dele. - Mas quais so as outras garotas? 

- O qu? 

Sem tirar os olhos da estrada, Mick desligou o CD player enquanto perguntava: 

- Voc disse que h alguns modelos de garotas que voc nunca gostaria de ser... - e na 
cabine j silenciosa continuou: - uma  a garota emocional... e quais so as outras? 

- Ahh! - Maddie contou nos dedos. - Nunca quero ser a garota estpida. Nem a garota 
bbada que perde completamente a compostura. A que vive caando ou a garota traseiro... 

Mick olhou-a sorrindo. 

- A garota traseiro...? 

- ... e no me faa explicar isso... 

Ele voltou o olhar para a estrada e sorriu. 

- Imagino que voc no esteja falando de uma garota com bunda grande... 

- No. 

- Oh, ento eu acho que eu nunca vou... 

- Pode esquecer... 

Ele riu. 

- Algumas mulheres dizem que gostam... 

- Claro! Algumas mulheres dizem que gostam de apanhar, mas eu nunca vou entender qual 
 o prazer que elas podem sentir nesse tipo de coisa. 

Mick segurou a mo dela: 

- E o que voc acha de ser amarrada numa cama? 

- Hmm... At que essa idia me atrai... 

- Ento acho que j sei o que vamos fazer depois que eu voltar do trabalho. 

Maddie sorriu e passou a contemplar a paisagem da estrada, os pinheiros, o intenso feixe de 
luz e a bifurcao sul do rio Payette. Idaho podia ser famosa pelo cultivo de batatas, mas 
tinha tambm reas selvagens espetaculares. No hotel, eles sentaram-se numa mesa de onde 
se podia apreciar a gua azul do lago Redfish e os picos cobertos de neve das montanhas 
Sawtooth. 

Enquanto almoavam, conversaram sobre algumas pessoas de Truly. Ela contou a ele sobre 
as amigas, sobre o casamento de Lucy no ano passado e as iminentes npcias de Clare. 
Enfim conversaram sobre uma infinidade de coisas, desde a previso do tempo at eventos 
mundiais, de esportes at a erupo de um novo vrus a oeste do rio Nilo. 

Mas no falaram sobre tudo, porque no falaram sobre a verdadeira razo que a levou a se 
mudar para Truly. Como se tivessem um acordo tcito, evitaram falar sobre o livro que 


Maddie estava escrevendo e sobre a noite em que Rose havia matado duas pessoas e a si 
mesma. 

Foi um dia relaxante e divertido. Durante aqueles momentos especiais em que Maddie 
olhava para os olhos dele, sua conscincia a lembrava de que ele no ficaria com ela se 
soubesse quem era realmente. Ao longo do dia preferiu afastar e ignorar essa idia. Enfim, 
fez-se de surda para sua conscincia. No caminho de volta para casa havia enterrado sua 
conscincia to fundo, que restara apenas um sussurro dbil que pde ser facilmente 
ignorado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 14 

 

Naquela noite, depois de sair do trabalho, Mick apareceu na soleira da porta de Maddie 
com uma gravata de seda em uma das mos e na outra, mais um ratinho de brinquedo. 
Enquanto Mick amarrava os pulsos de Maddie, Bola de Neve saracoteava atrs do 
camundongo por toda parte e, evidentemente, mais tarde violou as regras e desmaiou na 
cadeira do escritrio. Desrespeitar as regras estava se tornando um hbito ruim de Bola de 
Neve. Da mesma forma que Mick Hennessy se tornava um hbito para Maddie. Um hbito 
que no final das contas ela teria que interromper. Mas havia um problema. Ela gostava de 
passar seu tempo com ele, quer na cama ou fora dela. E isso criara outro problema, porque 
ela j no estava escrevendo seu livro. No havia terminado as anotaes, nem ou 
completado a linha cronolgica, e realmente precisava fazer isso antes de comear a 
escrever o segundo captulo. Precisava se lembrar porque estava em Truly, e voltar ao 
trabalho, em vez de deixar tudo de lado para passar aquele tempo gostoso com Mick. Mas 
quando ele ligou na noite seguinte e pediu que ela o encontrasse no Mort's depois de fechar, 
Maddie no pensou duas vezes.  meia-noite e meia ela bateu na porta dos fundos usando 
um sobretudo vermelho, escarpins com saltos de dez centmetros, e uma gravata azul de 
Mick aninhada entre seus seios nus. 

- Gostei da gravata - Mick disse quando ela abriu o sobretudo. 

- Achei melhor devolv-la. 

Ele ps as mos nos seios nus de Maddie e a trouxe contra o seu corpo. 

- Voc tem uma coisa, Maddie... - disse enquanto olhava nos olhos dela, - alguma coisa que 
vai alm da maneira como voc faz amor... alguma coisa que me faz pensar em voc 
quando estou servindo drinques ou assistindo o Travis jogar Tee ball. 

Ela ps os braos em torno do pescoo dele e seus mamilos roaram a camiseta plo que 
ele vestia. Encostando-se na plvis de Maddie ele mostrou que estava excitado e pronto 
para o sexo. Este seria o momento em que ela deveria deixar claro que tambm pensava 
nele, mas no podia. No por no ser verdade, ela tambm pensava nele o tempo todo. Mas 
era melhor deixar aquele sentimento platnico at que tudo mudasse de rumo. 

Em vez de falar, preferiu beij-lo enquanto sua mo escorregou para o sexo dele. O que 
havia comeado como uma transa de uma noite transformou-se em vrias noites, ele quis 
v-la mais vezes. Ela tambm queria v-lo mais vezes... Mas no era amor. Ela no o 
amava. Gostava muito de todo o corpo dele, de estar perto dele. Especialmente quanto ele a 
prostrava no bar e ela via de relance, no espelho entre as garrafas de lcool, o corpo forte e 
rijo se mexendo, forando e a levando ao alvio do orgasmo que a fazia sentir-se 
completamente dominada por ele. 

Era s sexo. Ironicamente, o tipo de relacionamento que ela esperava encontrar durante os 
ltimos quatro anos, nada alm disso. E se, por algum momento se esquecesse disso, 
precisava apenas se lembrar de que embora conhecesse intimamente o seu corpo, sequer 
sabia qual era o nmero do telefone da casa dele ou onde ele morava. Mick podia dizer at 
mesmo que havia alguma coisa diferente na relao com ela, mas o que quer que fosse essa 
coisa, no era o suficiente para quer-la na vida dele. 

 

Na manh da consulta de Bola de Neve no veterinrio, Maddie colocou a gatinha no 
transporte e dirigiu at a cidade. Agosto era o ms mais quente do vero, e a metereologia 
previu que o vale esquentaria e chegaria a uma abrasadora temperatura de trinta e quatro 
graus. 


Maddie ficou dentro da sala de exame e assistiu enquanto o veterinrio John Tannasse 
examinava sua gatinha. John era um homem alto com msculos fortes sob o avental de 
branco e um bigode parecido com o de Tom Selleck. Sua voz era to profunda que soava 
como se lhe sasse dos ps. Ele olhou dentro das orelhas de Bola de Neve com gestos 
amveis, depois checou o traseiro para notificar que o animalzinho era de fato uma menina. 
Tirou a temperatura e deu a Maddie um carto de sade em branco. 

 

Depois enquanto fazia cafun entre as orelhas da gatinha, falou: - Parece que a 
heterocromia ocular no afeta a viso dela, no. - E apontou para um outro defeito gentico: 
- E a ocluso defeituosa no est to ruim a ponto de prejudicar a mastigao. 

Maddie entendeu perfeitamente o que o doutor quis dizer quando falou em heterocromia, 
mas: - Ocluso defeituosa? perguntou. 

- ... significa que os dentes superiores da sua gatinha se projetam de maneira anormal ou 
exagerada sobre os dentes inferiores. 

Maddie nunca ouvira falar de tal coisa sobre um gato, e nem mesmo acreditava que isso 
fosse possvel at que o doutor inclinou a cabea de Bola-de-Neve para trs e mostrou que 
sua mandbula superior era um pouco mais longa que a inferior. Por alguma estranha razo, 
esse problema da gatinha fez com que Maddie gostasse um pouco mais de Bola de Neve. 

- Nossa,  mesmo... - Maddie disse espantada: Ela  uma dentua. Ela marcou uma nova 
consulta que Bola-de-Neve fosse castrada e que no tivesse outros gatos cabeudos e 
dentuos. Saindo do veterinrio Maddie e Bola de Neve passaram na mercearia. 

- Comporte-se! - Alertou enquanto entravam no estacionamento. 

Miau. 

- Se voc se comportar eu trago aqueles biscoitinhos em formato de corao para voc. A 
gata miou quando Maddie desceu do carro e trancou a porta. Ser verdade o que acabou de 
dizer? Biscoitinhos em formato de corao? Estava com vergonha de si mesma... Enquanto 
atravessava o estacionamento, pensou se estava destinada a se tornar uma daquelas 
mulheres completamente loucas por gatos, que contam histrias chatas sobre seus gatos 
para pessoas que no do a mnima. 

Entrando na mercearia, pegou alguns pedaos de peito de frango, algumas folhas para uma 
salada e duas garrafas de refrigerante diet. Como no conseguiu encontrar os tais 
biscoitinhos em formato de corao para a gata, procurou at encontrar alguma outra coisa 
diferente na prateleira. Em seguida levou o carrinho para a parte da frente da loja, e parou 
em frente  registradora de nmero cinco. Uma gerente chamada Francine passava os 
produtos no leitor de cdigo de barras enquanto Maddie procurava alguma coisa na bolsa. 

- Quantos anos o seu gato tem? 

Maddie olhou para o comprido rosto de Francine circundado por cabelos que pareciam 
vindo diretor dos anos oitenta, estilo Flashdance. 

- No tenho certeza. Ela apareceu h pouco tempo no terrao e no queria ir embora. Eu 
acho que ela tem um problema congnito. 

- Ah, ? Isso acontece muito por aqui. 

Os olhos de Francine eram ligeiramente esbugalhados, e Maddie ficou pensando se estava 
falando de gatos ou de si mesma. 

- Ouvi dizer que h um segundo suspeito no seu livro, Francine disse enquanto passava os 
peitos de frango. 

- Como? 


- Ouvi dizer que voc encontrou um segundo suspeito. Que talvez Rose no tenha atirado 
em Loch e na garonete e depois em si mesma. Que talvez algum tenha chegado e matado 
todos os trs. 

- No sei onde voc ouviu isso, mas posso garantir que no  verdade. No h outro 
suspeito. Rose atirou em Loch e em Alice Jones, depois apontou o revlver e matou a si 
mesma... 

- Oh. Francine olhou um pouco desapontada, mas aquilo podia ser s um efeito dos seus 
olhos diferentes. - Ento suponho que o xerife no vai reabrir a investigao e convocar 
todo aquele show que aparece num daqueles seriados de tev. 

- No. No h um segundo suspeito. Nem vai haver um daqueles shows da tev, e muito 
menos acordo para rodar um filme, ou seja, Colin Farrell no vir  cidade. 

- Ah... Ouvi dizer que era Brad Pitt... disse enquanto passava o ltimo item e encerrava a 
conta. 

- Meu Deus! Maddie entregou a ela a quantia exata, pegou as compras. E enquanto 
colocava os pacotes no branco de trs do carro ainda riu... - Brad Pitt! 

Quando chegou em casa, alimentou Bola de Neve com uma comida em formato de 
peixinhos coloridos, e preparou um almoo para si mesma. Depois sentou e trabalhou na 
linha do tempo do livro, e arrolou os eventos, como se desenrolaram minuto a minuto, 
movendo-os e os pregando na parede atrs da tela do seu computador. 

Naquela noite s dez horas, Mick telefonou e pediu que ela o encontrasse no Mort's. Seu 
primeiro instinto foi dizer a ele que sim. Afinal era sexta-feira  noite, seria bom sair um 
pouco e esfriar a cabea depois de trabalhar a tarde toda. No entanto, alguma coisa a 
impediu, e essa coisa tinha tudo que ver com a sensao que sentiu no estmago quando 
ouviu o som da voz dele. 

- No estou me sentindo muito bem: mentiu. Ela precisava colocar um tempo e distncia 
maior entre eles. Um certo espao entre seus encontros, para quebrar um pouco o ela temia 
que estava virando mais do que sexo casual. Pelo menos da parte dela. 

Ao fundo ela podia ouvir o som abafado da jukebox competindo com vrias dzias de 
vozes exaltadas. 

- Voc vai ficar bem? 

- Vou. J estou indo dormir para descansar. 

- Eu poderia ir at a mais tarde e checar se voc est bem. Sem segundas intenes, s para 
levar uma sopinha quente ou algum medicamento se voc precisar. 

- No, mas obrigada. Falou apesar de ter gostado daquela delicadeza. 

- Ok, ento amanh em torno do meio-dia eu ligo para saber como voc est. 

No dia seguinte, em vez de ligar, Mick apareceu no pequeno cais atrs da casa dela. Vestia 
uma camiseta branca de uma marca de cerveja, uma sunga azul marinho, e dirigia um barco 
de vinte e ps. 

- Como est se sentindo hoje? - perguntou quando entrou na casa dela pelas portas 
envidraa das. 

Ele tirou os culos e Maddie olhou calmamente para o rosto bonito. 

- Como assim, do que est falando? 

- Voc disse que no estava muito bem ontem  noite... 

- Ahh... - Havia esquecido. - No era nada. J estou melhor. 

- Que bom. Ele a segurou contra o peito e beijou sua testa. - Vista a sua roupa de banho e 
venha comigo. 


Ela nem pensou em perguntar aonde eles iam ou quanto tempo ficariam fora. Desde que 
estivesse com Mick, no se importava. Vestiu um mai colorido e amarrou uma canga na 
altura dos quadris. 

- Voc ainda no est cansado de mim? - perguntou a ele enquanto caminhavam em direo 
ao barco branco e amarelo. 

As sobrancelhas de Mick baixaram, ele a olhou como se a pergunta fosse completamente 
fora de propsito. Por fim, respondeu: 

- No, ainda no. 

Mick levou-a para um tour pelo lago. Mostrou-lhe algumas casas realmente espetaculares, 
que no podiam ser vistas da estrada. Maddie sentiu-se muito bem explorando aqueles 
recantos escondidos ao lado dele. Mas depois de uma hora naquele cu completamente sem 
nuvens de agosto, o sol quente e implacvel esquentou a pele de Maddie. Gotas de suor 
escorreram entre seus seios e da nuca. Maddie odiava suar. O suor era uma das razes pelas 
quais ela no fazia exerccio. Alm disso, ela no acreditava na mxima que diz que  sem 
esforo no h conquista. Pelo contrrio, acreditava que - no sentir dor ou desconforto  
uma coisa muito boa. Lembrando-se de vrios desses detalhes, sobre os quais ela j havia 
falado, Mick preparou-se antes do passeio. E logo que percebeu seu desconforto abriu o 
refrigerador pegou um refrigerante diet para Maddie, e uma garrafa de gua para ele. 

Mick jogou a ncora numa enseada, tirou a camiseta e disse: 

- Bem antes de os irmos Allegrezza desenvolverem economicamente esta rea, ns 
costumvamos vir aqui todo o vero para nadar. - Dizendo isso, ficou no meio do barco 
olhando para a costa arenosa, agora salpicada de grandes casas, com seus cais repletos de 
barcos e jet skis. - Eu me lembro de um monte de biqunis e dos leos de beb, da areia nos 
meus shorts e do meu nariz que sempre descascava. Chutou os chinelos e foi para a parte 
traseira do barco. - Eram bons aqueles tempos... 

Maddie tirou a canga, foi at ele. Eles ficaram lado a lado na plataforma de natao. 

- Areia nos shorts no so exatamente a parte boa da histria... 

Mick riu. 

- No, mas a Vicky Baley usava um biquni que sempre escorregava quando ela saa da 
gua. E ela tinha um traseiro to surpreendente que... 

Maddie o empurrou, ele balanou e quando estava prestes a cair agarrou o pulso dela e 
ambos caram dentro do lago. Ele voltou  superfcie com um sonoro reclamando da 
temperatura da gua, e Maddie voltou tentando recuperar o flego. A gua gelada a deixou 
sem ar. Ela se agarrou  escada da popa do barco. 

A gargalhada de Mick tocava na superfcie ondulada da gua enquanto ele nadava na 
direo dela. 

Maddie afastou os cabelos molhados dos olhos. 

- O que  to engraado? 

- De voc, com cimes de Vicky Baley... 

- Eu no estava com cimes. 

- Claro que no! - Mick agarrou a borda da plataforma de natao e disse: - O traseiro dela 
no era to bonito quanto o seu. 

- Oh! Obrigada. ela respondeu com ironia. 

Pequenas gotas de gua caram de uma mecha de cabelo na testa dele e corriam pelo 
pescoo. 

- Voc no tem razo para ficar com cime de ningum, seu corpo  maravilhoso. 

- No precisa dizer isso, meus peitos no so... 


Mick colocou um dedo nos lbios dela. 

- No faa isso. No rejeite o que eu sinto como se eu estivesse dizendo alguma coisa s 
para te levar para a cama. Voc sabe que no  isso. Eu j estive na sua cama, voc  
surpreendente. Ele passou a mo por trs da cabea dela e lhe deu um beijo com os lbios 
gelados. As gotas de gua e as lnguas macias deslizaram suavemente. 

Quando ele a beijava daquele jeito, Maddie sentia-se assombrada. 

- Senti sua falta ontem  noite, ele admitiu enquanto se afastou.  Gostaria de no ter que 
trabalhar at tarde da noite, mas tenho... 

Ela lambeu os lbios dele. 

- Eu entendo... 

- Eu sei que voc entende. Na verdade acho que essa  uma das razes pelas quais eu gosto 
tanto de voc. Mick sorriu, e uma covinha apareceu no rosto dele. Isso fez com que ela 
sentisse um aperto no peito que lhe tirou o flego. Maddie sabia que tinha de resolver 
aquele problema enorme e terrvel, descobrindo a maneira certa de contar seu segredo. E 
enquanto pensava nisso sentiu-se como que se afogando nos olhos profundos dele. 

Ela afundou na gua e voltou usando o movimento do corpo para levar os cabelos para trs. 

- Ns dois trabalhamos em um horrio um tanto inconveniente, ela disse. Subiu pela escada 
de popa do barco, parou ali para espremer a gua dos cabelos. - Mas para ns funciona, 
porque somos noturnos e conseguimos dormir tarde. 

- E tambm porque voc me quer. - disse ao sair da gua. 

Maddie olhou com o canto dos olhos para os msculos do peito forte e para o contorno dos 
seus plos escuros e molhados sobre o abdmen definido, e que desaparecia sob a sunga. 

-  verdade. 

- E Deus sabe que eu tambm te quero. - Mick puxou a ncora e a colocou em um 
compartimento lateral, depois foi para a cadeira do capito e olhou para ela enquanto ela 
amarrava a canga nos quadris. 

- O que foi? 

Ele balanou a cabea e ligou o motor, ouviu-se a agitao da hlice profunda e grave. O 
barco balanou para os lados. Maddie sentou-se no assento do acompanhante. Por mais 
alguns segundos, Mick olhou para ela antes de finalmente olhar para frente e empurrar o 
acelerador. 

Enquanto eles atravessavam o lago, Maddie segurou os cabelos com uma das mos. Uma 
conversa em meio quele barulho seria impossvel, de qualquer forma, ela no teria sabido 
o que dizer. O comportamento de Mick estava um pouco estranho. Ela pensava que j sabia 
ler a maioria de suas expresses. Sabia como ele ficava quando estava zangado, quando 
estava provocando ou fazendo charme. E certamente sabia como ele ficava quando queria 
sexo. Mas ele estava estranhamente calado, como se estivesse pensando em alguma coisa. E 
assim prosseguiram sem dizer muita coisa at que aportaram no cais da casa dela, uns vinte 
minutos mais tarde. 

- Se eu no tivesse que ir para o trabalho hoje  noite, ficaria aqui e me divertiria com voc 
- ele disse ao chegar no topo da escada que levava ao terrao. 

- Voc pode voltar mais tarde. 

Mick sentou-se na espreguiadeira de madeira de frente para ela e lhe puxou a canga dos 
quadris, que caiu no cho. 

- Ou voc poderia vir at mim mais tarde, depois que eu sair do trabalho. 

Ele colocou as mos na parte de trs das coxas dela e a trouxe para perto, encaixando-a 
entre seus joelhos. 


- No Mort's? 

Ele balanou a cabea negativamente e mordiscou a lateral da perna dela. 

- No... Ponha algumas roupas numa sacola e venha para minha casa. Eu sei que voc gosta 
de adormecer e saber que vou ter sado quando acordar, mas acho que chegamos num ponto 
em que no podemos continuar fingindo que tudo isso  s sexo. Voc no concorda? 

Ela concordava? No podia ser mais. Nunca poderia ser mais. Ela fechou os olhos e passou 
os dedos por entre os cabelos dele. 

- Sim. 

Mick mordeu levemente o lado de fora da coxa dela. 

-  melhor que eu te pegue aqui, assim voc no precisa dirigir  noite. 

Isso parecia to bom, era uma grande regalia, mas parecia errado: 

- Eu posso dirigir. 

- Eu sei que pode, mas eu venho pegar voc. 

De algum lugar atrs de Maddie, uma vozinha perguntou: 

- O que vocs esto fazendo? 

Mick levantou a cabea e congelou. - Travis. Ele deixou cair as mos e se levantou. - Hei, 
cara. O que aconteceu? 

- Nada. O que vocs estavam fazendo? 

Maddie se virou para ver o sobrinho de Mick parado no topo da escada. 

- Eu estava ajudando a Maddie com o mai dela. 

- Com a boca? 

Maddie ps a mo no rosto e riu. 

- Bem, hmm... - Mick parou e olhou para Maddie. Era a primeira vez que ela o via aturdido. 
- Tinha uma linha solta aqui, ... - disse apontando vagamente para a coxa dela, - e eu tive 
que morder para arrancar. 

- Ah... 

- E voc, o que est fazendo aqui? - Mick perguntou. 

- A mame me deixou aqui para brincar com Pete. 

Mick olhou na direo do terrao dos vizinhos. - A sua me ainda est na casa dos 
Allegrezza? 

Travis fez que no balanando a cabea. - J foi. E olhando para Maddie, perguntou: 

- Tem mais camundongos mortos? 

- Hoje no. Mas arranjei uma gata, e logo ela vai ter idade suficiente para matar todos eles. 

- Voc tem uma gata? 

- Tenho, o nome dela  Bola de Neve. Ela tem os olhos de cores diferentes, e ocluso 
defeituosa 

Mick olhou ansioso para Maddie: 

- Srio? 

- Srio! Venham, vou mostrar para vocs. 

- O que  uma ocluso defeituosa? Travis perguntou enquanto os trs entravam na casa. 

 

* * * 

 

Mick chegara em casa meia hora antes de sua irm bater na porta. Meg no esperou que ele 
atendesse a porta. Bateu e foi entrando. 

- Travis me contou que viu voc beijando o traseiro de Maddie Dupree, ela disse enquanto 
entrava na cozinha, onde o encontrou montando um sanduche antes de sair para o trabalho. 


Ele a olhou com os cantos dos olhos: 

- Oi, Meg, tudo bem? 

-  verdade? 

- Eu no estava beijando o traseiro dela. - De fato, ele beijou a coxa dela. 

- O que voc estava fazendo l? Travis viu o seu barco parado atrs da casa dela. O que est 
havendo entre vocs dois? 

Apesar de no ter gostado nem um pouco da maneira como Meg invadiu sua casa e sua 
vida, respondeu para acabar logo com toda aquela sindicncia: 

- Eu gosto dela... cortou o sanduche de presunto e o colocou em um prato que estava sobre 
a pia - e  s isso. 

- Ela est escrevendo um livro sobre mame e papai. - E vendo que ele no estava dando 
ateno, Meg pegou no pulso dele: 

- Ela vai fazer com que ns todos pareamos ser pessoas ms. 

- Maddie disse que no pretende fazer com que ningum parea bom ou mau. Ela quer 
simplesmente retratar os fatos de maneira imparcial. 

- Mentira! Ela est fuando nas nossas vidas, procurando escndalos para ganhar dinheiro 
s custas da nossa dor e do nosso sofrimento. 

Mick olhou no fundo dos olhos da irm: 

- Meg, eu sou diferente de voc. Eu no vivo no passado. 

- No! Ela gritou e soltou o pulso dele. 

- Voc prefere simplesmente no pensar sobre isso, e fingir que no aconteceu. 

Mick pegou metade do sanduche, deu uma mordida e depois de algumas mastiga das 
continuou: 

- Eu sei o que aconteceu, mas eu no quero viver pensando nisso todo dia como voc. 

- Eu no vivo pensando nisso todo dia. 

Mick engoliu e tomou um longo gole de cerveja de uma garrafa sobre o balco. 

- Talvez no todo dia, mas toda vez que eu penso que voc finalmente mudou, alguma coisa 
acontece e  como se voc voltasse a ter dez anos de idade. Tomou outro gole. - Eu no 
quero viver assim, quero viver minha vida no presente, Meg. 

- E voc pensa que eu no quero que voc viva a sua vida? Eu quero! Quero que encontre 
algum especial, voc sabe que eu quero. Mas no ela. 

- Voc foi conversar com ela, no foi? Ele estava ficando cansado da conversa. Gostava de 
Maddie, gostava de tudo nela, e ia continuar a v-la. 

- Fui conversar com ela, porque quis que ela soubesse que a nossa me no era louca. 

Mick tomou mais um gole da cerveja e deixou a garrafa sobre o balco. 

- Mas a mame era louca. 

- No! Meg balanou a cabea e segurando no ombro dele o virou de frente. 

- No diga uma coisa dessas. 

- Por que outra razo ela teria matado duas pessoas e depois a si mesma? Por que ela teria 
deixaria seus dois filhos rfos de pai e me? 

- Ela no queria que tudo isso tivesse acontecido. 

- Voc diz isso, mas pense bem, se ela s queria assust-los, porque carregou o revlver? 

Meg abaixou a mo. 

- No sei. 

Mick ps o sanduche de volta no prato e cruzou os braos na frente do peito. 

- J passou pela sua cabea se ela dedicou a ns dois um s segundo de seu pensamento 
naquele dia? 


- Claro que dedicou! 

- Ento por que matar o papai e a si mesma foi mais importante que seus prprios filhos? 

Os olhos de Meg pararam como se ela olhasse para um lugar muito distante. 

- Ela nos amava, Mick. Voc no est se lembrando das coisas boas, s das ruins. Mas ela 
nos amava e o papai tambm. Ele no tinha memria ruim. Lembrava-se tanto das coisas 
boas quanto das ruins. 

- Eu nunca disse que ela no nos amou. S acho que no nos amou o suficiente. Voc pode 
t-la idolatrado por mais vinte e nove anos, mas eu nunca vou entender porque ela sentiu 
que sua nica opo era matar o papai e a si mesma. 

Meg olhou para os prprios ps e disse num sussurro: 

- Eu nunca quis que voc soubesse, mas... voltou os olhos para o irmo  o papai ia nos 
abandonar. 

- O qu? 

- O papai ia nos deixar para ficar com aquela garonete. Depois de dizer isso, engoliu seco, 
e como se as palavras estivessem entaladas na garganta despegou: 

- Eu ouvi a mame falando sobre isso ao telefone com uma das amigas dela. Ela riu num 
tom amargo. - Possivelmente com uma das amigas que no tinha dormido com o papai. 

O pai planejara deixar a me. Mick achou que sentiria alguma coisa ruim, como raiva e 
ultraje, talvez, mas no sentiu. 

- Ela suportou tanta coisa dele Meg continuou. - A humilhao na frente de toda a cidade, 
que sabia de todos os casos srdidos dele. Ano aps ano... 

Meg balanou a cabea. - Ele ia deix-la por uma garonete do bar que tinha vinte e quatro 
anos de idade. Mame no pde suportar isso. No pde deix-lo fazer isso a ela. 

Mick olhou para os belos olhos da irm e para seus cabelos negros. A irm que o havia 
protegido e a quem ele tambm havia protegido, tanto quanto foram capaz de proteger um o 
outro. 

- Durante todos esses anos voc sabia disso e no me contou? 

- Voc no entenderia. 

- O que eu no entenderia? Eu entendo que ela preferiu mat-lo a se divorciar dele. Eu 
entendo que ela era doente. 

- Ela no era doente! Ela foi impelida a fazer o que fez. Ela o amava. 

- Isso no  amor, Meg. - Mick pegou o prato e a garrafa de cerveja, e caminhou para fora 
da cozinha. 

- Como se voc soubesse. 

Ouvindo aquela frase ele parou, se virou e olhou para a irm pequena sala de jantar. 

- Voc j amou algum, Mick? J amou tanto algum que s o pensamento de perd-la lhe 
fez sentir ns no estmago? 

Pensou em Maddie, no seu sorriso, no seu humor seco e na gatinha dentua que ela acolher 
em casa mesmo depois de ter admitido que odiava gatos. - Eu no tenho certeza... Mas 
tenho certeza de uma coisa. Se alguma vez amar uma mulher desse jeito, eu no vou 
mago-la. E tenho absoluta certeza de que no magoaria os filhos que eu porventura tivesse 
com ela. Eu posso no saber muito sobre amor, mas isso eu sei. 

- Mick - Meg caminhou na direo dele com as mos para cima - desculpe, eu no devia ter 
dito isso. 

Ele deixou o prato sobre a mesa. 

- Deixa para l... 


- Eu quero o melhor pra voc. Quero que voc se case e tenha uma famlia, porque eu sei 
que voc vai ser um bom marido e um timo pai. E eu sei disso pela maneira como 
demonstra seu amor por mim e pelo Travis. 

Meg o abraou e descansou a face no ombro dele. 

- Mas quero que saiba que mesmo que encontre algum, sempre vai ter a mim. 

Mick inspirou fundo, embora ainda estivesse se sentindo ainda sufocado. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 15 

 

Maddie sentou-se no sof. Sem demora, Bola de Neve pulou no seu colo, se enrolou e ficou 
encarando a tela preta da televiso. O estmago de Maddie doa e seu peito parecia to 
apertado que at mesmo respirar estava difcil. Se continuasse desse jeito, certamente 
ficaria doente. Pensou em ligar para uma das amigas e pedir um conselho, mas no 
conseguia. Ela era forte, a mais corajosa do grupo, mas naquele momento no se sentia to 
forte e corajosa, muito pelo contrrio. 

Pela primeira vez em muito tempo, Maddie Ienes sentiu medo, no tinha como negar. Ela 
podia ter chamado isso tudo de apreenso e se livrado rapidamente da sensao. Mas tudo 
era muito real, profundo e aterrorizante. Muito pior do que se sentar de frente para um 
assassino em srie. 

Ela sempre considerou que se apaixonar era como bater de frente contra uma parede de 
tijolos. As pessoas, de maneira geral, apesar de saberem disso prosseguiam at levar um 
pontap e finalmente concluir: Meu Deus, acho que estou apaixonada! Mas no foi o que 
aconteceu com Mick. Tudo comeou sorrateiramente dentro dela antes mesmo que ela 
percebesse. Tudo aconteceu a cada sorriso e a cada toque. Um olhar, um beijo, uma cole ira 
cor-de-rosa de gata, um aperto no corao, uma respirao acelerada aps a outra at que 
ficou profundamente envolvida, e no pudesse mais negar. Isso tudo no tinha volta. No 
dava mais para mentir sobre o que sentia. 

Maddie baixou a mo para acariciar as pequenas costas de Bola de Neve, sem se importar 
que os plos da gata se prendessem em sua camisa preta e no colo. Ela sempre pensou que 
no conseguia mentir para si mesma sobre nada, mas ao que tudo indicava, havia adquirido 
essa nova habilidade de enganar a si mesma. 

A campainha tocou. Maddie olhou para o relgio na prateleira sobre a televiso. Eram oito 
e meia. Mick estava no trabalho, no esperava v-lo at meia-noite ou uma hora da manh. 

Ela ps Bola de Neve no cho e caminhou na direo da porta. A gatinha foi no seu 
encalo, e Maddie achou melhor peg-la novamente para evitar pisar nela. Olhou pelo olho 
mgico e sentiu aquele estmulo de calor familiar logo que o reconheceu na varanda usando 
jeans e a polo do Mort's. Evidentemente fugiu do trabalho. Abriu a porta e o olhou ali 
parado sob as primeiras sombras da noite que o banhavam com uma luz cinza, fazendo com 
que seus olhos azuis brilhassem muito. Ele a encarou de muito perto. Aquela pequena 
distncia fez colidirem o entusiasmo e o desespero em seu corao, e mexeu com seu 
estmago. 

- Eu precisava te ver... - ele disse e atravessou a soleira da porta. Passou um dos braos em 
torno da cintura de Maddie, levou a outra mo para trs da cabea dela e lhe deu um longo 
beijo inebriante que a fez sentir vontade de se prender a ele e nunca mais deixar que ele se 
afastasse. 

Mick deu um passo atrs e olhou para o rosto dela: 

- Eu estava no trabalho servindo cerveja e ouvindo as mesmas velhas histrias, mas s 
conseguia pensar era em voc e na noite em que transamos no bar. Eu no consigo tirar 
voc da minha cabea ... - Por um segundo parou de falar, e depois sugeriu suavemente: - ... 
pe essa gata no cho, vai? 

Maddie se abaixou e soltou Bola de Neve, enquanto ele bateu a porta atrs de si. - Eu no 
queria ficar l, queria vir para c... 

Ela voltou a se levantar e olhou para o rosto dele. Nunca na vida sentira um amor assim. 
Um tipo de amor que causava aquela sensao no estmago e aquela comicho na pele. 


Que a fazia querer segurar para sempre a mo dele, e se pregar no corpo dele, de forma que 
no soubesse mais onde o seu corpo terminava e o dele comeava. - Estou feliz que tenha 
vindo... 

- Mas ela precisava contar a ele que era Maddie Jones. Agora. 

Mick tirou o cabelo dela detrs da orelha. 

- Aqui, com voc, eu consigo respirar. 

Pelo menos um deles podia... Passou seu rosto na mo dele e antes de contar quem era, e o 
perder para sempre, envolveu-o nos braos e o beijou pela ltima vez, jogando todo o 
corao e a alma nesse beijo. Sua dor, seu prazer, mostrando a ele, mesmo sem palavras, 
como se sentia com relao a ele. Ela o beijou na boca, na face, no pescoo... Depois 
passou suas mos pelo corpo dele, tocando-o para memorizar a sensao de t-lo sob o tato 
de suas mos. Mick passou as mos quentes pelo traseiro dela e depois na parte de trs de 
suas coxas. Levantou-a para que ela enroscasse as pernas em torno de sua cintura. Um 
profundo gemido vibrou do peito dele enquanto devolvia-lhe os beijos famintos e a 
carregava para o quarto. 

Maddie contaria para ele, claro que contaria... Daqui a pouco... Chegando ao quarto suas 
pernas escorregaram da cintura dele, que em seguida arrancou a camisa dela pela cabea. 
Ela queria apenas mais alguns minutos... Quanto mais o beijava e despejava toda sua 
emoo em cada beijo, mais ele a queria, e mais lhe arrancava a respirao dos pulmes 
deixando-a entorpecida. Mick acariciava seu corpo todo com volpia... at que ela percebeu 
que no estava vestindo nada alm do suti, j aberto nas costas. 

Ofegante, Mick interrompeu a seqncia de beijos e recuou por um instante. Olhou-a de 
maneira penetrante e lentamente puxou as tiras do suti, fazendo-o escorregar suavemente, 
tocando-lhe nos mamilos antes de cair no cho. 

- Ns nos conhecemos h pouco tempo... Ele deslizava delicadamente a ponta dos dedos 
nos mamilos arrepiados, a respirao dela se tornou rpida. - ...mas parece que faz tanto 
tempo ... Por que ser? - Ele deu a volta em torno dela e parou abraando-a pelas costas. 
Olhando para baixo, Maddie viu as grandes mos dele envolvendo seus seios, tocando-a, 
apertando seus mamilos rijos. Ela curvou as costas, levantou os braos, e suas mos 
seguraram o rosto. Ela trouxe-o para junto de si e lhe deu um beijo quente e cobioso 
enquanto inclinava os quadris e o pressionava contra o quadril dele. Mick gemeu 
profundamente, mas de forma quase inaudvel enquanto brincava com os seios dela. Ele 
ainda estava vestido, e a sensao do tecido surrado da sua cala jeans e do algodo macio 
da camisa contra a pele dela extremamente sensual. Lentamente os dele foram descendo 
traando um rastro de beijos quentes pelo pescoo, ao mesmo tempo em que uma de suas 
mos percorria-lhe num movimento descendente a pele macia do abdmen. Mick colocou 
um de seus ps entre os dela, depois escorregou a mo para o espao entre as coxas abertas 
e a tocou no clitris. Ela sentiu-se derreter por dentro, movendo a plvis lentamente e se 
permitindo sentir mais uma vez o sabor do nico homem que ela amou. Ela sempre se 
perguntou se existiria alguma diferena entre fazer sexo e fazer amor. Agora ela sabia. O 
que levava a fazer sexo era puramente um desejo fsico. Mas o que levava a fazer amor 
tinha incio no mago das pessoas, era um sentimento simplesmente indescritvel. 

Maddie no sabia o que aconteceria depois disso, depois que contasse a ele quem ela era. 
Quem sabe ele nem se importasse... Ela se virou e o encarou enquanto suas mos 
perambulavam pela cintura at a barra da camisa que ele ainda vestia. Puxou o tecido de 
algodo para fora da cala, Mick levantou os braos para que ela arrancasse a camisa pela 
cabea, e displicentemente a jogasse de lado. Dos olhos azuis cheios de paixo, Maddie 


baixou o olhar para o peito forte, que as pontas dos seus seios tocavam logo abaixo dos 
mamilos escuros e achatados dele, e para aquela trilha de plos que lhe percorria peito 
abaixo sumindo sob as calas. 

A voz dele estava rouca e transmitia um desejo ardente: 

- Por que ser que eu sempre pensei que iria me cansar de voc? 

Maddie abriu o boto da braguilha e colocou as mos no pnis dele por cima da cueca. 

- Eu nunca vou enjoar de voc, Mick. Acontea o que acontecer, eu sempre vou te querer. 
Dizendo isso, Maddie fechou os olhos e o beijou no pescoo. - Sempre, ela sussurrou. 

Maddie ouviu a respirao sair violentamente dos pulmes dele, quando ela escorregou a 
mo para dentro da cueca e lhe envolveu o pnis. Ele alcanou a carteira no bolso traseiro 
da cala e a jogou sobre a cama. 

- Eu nunca vou enjoar do jeito como voc se sente na minha mo  ela sussurrou. - Ao 
mesmo tempo excitado e tranqilo. Nunca vou esquecer esta sensao de tocar em voc do 
jeito que estou tocando agora... 

- Quem disse que voc vai precisar esquecer? - Ele a levou para a lateral da cama e 
delicadamente empurrou os ombros dela para que ela se sentasse. 

Ele mesmo iria, Maddie pensou. Ela se sentou e o assistiu se despir rapidamente at que 
aquele homem alto e maravilhoso ficou completamente nu. Maddie estendeu a mo e o 
puxou para cima de si. A cabea voluptuosa do pnis quente a tocou no meio das pernas. 
Ela se esfregou no corpo dele e cochichou: 

- Eu adoro estar assim junto de voc. Lambeu o lbulo da orelha e distribuiu pequenas 
mordiscadas pelo pescoo e ombro dele. 

Mick deitou-a de costas. 

- Temos muito tempo para ficar juntos. Ele beijou o queixo e o pescoo delicado - Muito 
mais tempo. Com a boca quente sugou o mamilo, enquanto sua mo deslizava na pele 
macia dos quadris... Enquanto Maddie desfrutava daquelas sensaes enlouquecidas, uma 
emoo crua lhe pulsava nas veias. Aquele era o Mick, o homem que a podia fazer se sentir 
maravilhosa e desejada. O homem que ela amava, e que provavelmente perderia. 

Mick levantou a cabea e o ar fresco da noite roou os seios dela onde os lbios dele 
haviam deixado uma umidade brilhante. Ele pegou a carteira, tirou uma camisinha e a 
abriu, mas Maddie tomou-a e, sensual colocou-a em toda a extenso do membro dele. 

Maddie mexeu a plvis enquanto levantou um pouco depois baixou novamente. A cabea 
do membro dele a acariciou por dentro, fazendo com que ela liberasse um gemido 
profundo. Ela se movia para cima e para baixo, inclinando os quadris na cavalgada. Um 
calor trmulo flua visivelmente das partes do corpo em que ele a tocava. - Mick ... gemeu. 
- Mick se movia ao mesmo tempo, juntando poderosos impulsos do prprio corpo aos 
movimentos dela, at que todas aquelas sensaes a encharcaram completamente. Ela jogou 
a cabea para trs quando o orgasmo quente e mido percorreu todo o seu corpo, 
comeando na plvis e se espalhando at chegar nos seus dedos das mos e dos ps. 

- Mick, eu te amo, sussurrou quando novas emoes envolveram seu corao disparado, 
apertando seu peito com alcance abrasador. 

Logo que o clmax acabou, Mick a abraou pelas costas e a envolveu. Virou-a deitando 
sobre o corpo macio. Ele ainda estava dentro dela. Automaticamente ela Maddie passou as 
pernas em torno da cintura dele, como sabia que ele gostava e comearam novamente o 
delicioso jogo do amor, com beijos molhados e selvagens, enquanto ele mexia para dentro e 
para fora novamente. Maddie se agarrou a ele e juntos danaram, voaram, at que ele a 


levou a um segundo orgasmo. Maddie gemeu alto quando seu corpo fez transbordar lquido 
e prazer pela segunda vez. 

O peso dele transmitiu a Maddie uma sensao de cumplicidade. Ele beijou o seu ombro e 
descansou o rosto no travesseiro ao lado da cabea dela. 

- Maddie? - ele perguntou, sem flego. 

- O qu? Ela passou as mos pelas costas dele. 

Mick se apoiou nos cotovelos e olhou para o rosto dela, com a respirao ainda pesada. 

- No sei o que foi diferente desta vez, mas este foi o sexo mais fantstico que eu fiz. 

Maddie sabia o que estava diferente. Ela ao amava. Sentiu seu rosto ficar quente e 
empurrou os ombros dele. Ela o amava e lhe contou isso. 

Ele saiu de cima dela e se deixou de costas. 

Ela se arrastou para fora da cama. 

- Preciso de gua - disse e se levantou, foi para o closet e pegou um robe. Seus ouvidos 
zumbiam por causa do constrangimento que a assolou. 

- Onde est a sua gata? - Mick perguntou. 

- Provavelmente na cadeira do escritrio. - Baixou os olhos e olhou para suas mos 
trmulas enquanto amarrava a tira felpuda em torno da cintura. - Se ela me atacar eu vou 
dop-la. 

Maddie no fazia idia do que ele queria dizer com aquilo. 

- Ok - disse ainda dentro do closet. 

- Eu tenho mais camisinhas nos bolsos da minha cala, ele avisou, enquanto ia para o 
banheiro. - Mas voc vai ter de me dar algum tempo para eu conseguir me reerguer de 
novo. 

Enquanto Mick estava no banheiro, Maddie foi  cozinha, abriu o refrigerador e puxou uma 
garrafa de refrigerante diet. Encostou a garrafa nas bochechas quentes e fechou os olhos. 
Talvez ele no tivesse ouvido. Ele disse no caminho para Redfish que s vezes ele no 
entendia o que ela dizia durante o sexo. Talvez ela no tenha falado to claramente quanto 
pensava. 

Tirou a tampa da garrafa e tomou um longo gole. Realmente esperava que ele no tivesse 
ouvido, que no conseguira ouvir o que ela disse. O maior problema voltava a aparecer na 
sua frente: negro, devastador e inevitvel. 

Mick veio do quarto para a cozinha. Vestia apenas a cala jean desabotoada e os cabelos 
totalmente desarrumados. - Voc ficou embaraada por causa de alguma coisa? - Ele ficou 
atrs de Maddie e passou seus braos em torno dela. 

- Por qu? 

Ele tomou a garrafa das mos dela a levou aos lbios. 

- Voc praticamente fugiu do quarto e as suas bochechas esto coradas.- Deu um longo 
gole, depois lhe devolveu a garrafa. 

Ela olhou para os prprios ps e perguntou: 

- Por que eu ficaria embaraada? 

- Porque voc gritou: - .eu te amo. durante um orgasmo... 

- Oh, Deus. - Ela cobriu o rosto com a mo que estava livre. 

Mick a virou, colocou os dedos sob o queixo dela, e forou que ela o olhasse nos olhos, 
dizendo: 

- Est tudo bem, Maddie. 

- No, no est. Eu no pretendia me apaixonar por voc. Ela balanou a cabea e insistiu - 
Eu no quero estar apaixonada por voc. - Ela sentia que seu peito estava em carne viva. 


Lgrimas represadas lhe faziam doer os olhos. Ela pensava no ser possvel haver uma dor 
pior que aquela. - Minha vida  uma merda! 

- Por qu? Ele a beijou nos lbios docemente e disse: - Eu tambm estou apaixonado por 
voc. Nunca pensei que sentiria por uma mulher o que sinto por voc. Nestes ltimos dias, 
fiquei imaginando como voc se sentia com relao a mim. 

Maddie deu alguns passos para trs e as mos dele baixaram para os lados do seu corpo. 
Este deveria ser o melhor, mais eufrico momento da vida dela. No era justo que as coisas 
fossem assim, mas descobriu quando ainda era uma criana de cinco anos de idade, que a 
vida no  justa. Maddie abriu a boca e forou a verdade a passar pelo horrvel n que havia 
em sua garganta. 

- Madeline Dupree  um pseudnimo literrio. 

As sobrancelhas dele se elevaram: 

- Madeline no  o seu nome verdadeiro? 

Ela fez que sim com um gesto de cabea: 

- Sim, Madeline  meu nome, mas Dupree no . 

Ele inclinou a cabea para um dos lados: 

- Qual  o seu nome? 

- Maddie Jones. 

Mick permanecia olhando-a, e seus olhos pareciam ter clareado. Em seguida ele levantou 
um dos ombros e disse: 

- Ok. 

Por nenhum segundo ela acreditou que ele quisesse realmente dizer  ok como se ele 
estivesse - ok com aquela revelao. Ele no estava ligando os pontos. Maddie umedeceu 
os lbios secos. 

- Minha me era Alice Jones. 

Um leve franzir de sobrancelhas vincou o rosto de Mick. Ele fez um movimento brusco 
para trs como se algum tivesse lhe dado um tiro. Seu olhar percorria o rosto dela como 
que tentando ver alguma coisa que ele nunca notara antes: 

- Diga que isso  uma piada, Maddie. 

Ela balanou a cabea: 

-  verdade. Alice Jones no era s um rosto em um artigo de jornal que chamou minha 
ateno. Ela era minha me. 

Em seguida estendeu a mo na direo dele, mas a abaixou novamente, logo que percebeu 
que ele deu um passo para trs. No pensava que a dor que sentia pudesse piorar, mas 
estava errada. 

Mick a encarou nos olhos. Era como se aquele homem que acabou de dizer que a amava 
tivesse ido embora. Ela j havia visto Mick zangado, mas nunca o havia visto friamente 
furioso. 

- Espere a, deixe-me ver se eu estou entendendo direito. Meu pai transou com a sua me, e 
acabei de transar com voc.  isso o que voc est me contando? 

- Eu no vejo esta situao por esse prisma. 

- No h outra maneira de ver isso. - Ele se virou e saiu da cozinha. 

Maddie o seguiu pela sala de estar para o quarto. 

- Mick... 

- Voc teve algum prazer doentio com tudo isso? - ele interrompeu enquanto pegava a 
camisa e enfiava os braos nas mangas. - Quando veio para esta cidade, era sua inteno 


desde o incio mexer totalmente com a minha cabea? Isso  algum tipo de revanche pelo 
que minha me fez a sua? 

Ela balanou a cabea e sentiu a ameaa de um mar de lgrimas lhe encher seus olhos, mas 
se recusou a desabar. No choraria na frente de Mick. 

- Eu no pretendia me envolver com voc. Nunca. Mas voc continuou pressionando. Eu 
quis te contar. 

- Besteira. - Ele enfiou a camisa na cabea e baixou-a at a cintura. - Se voc quisesse me 
contar, teria encontrado uma maneira. Voc no teve problemas em dividir qualquer outro 
detalhe da sua vida. Eu sei que voc cresceu gorda, perdeu a virgindade com vinte anos, sei 
que a cada dia usa uma loo com fragrncia diferente, e que voc tem um vibrador 
chamado Carlos no criado-mudo ao lado da sua cama. - Curvou-se para frente e apanhou as 
meias e os sapatos. - Pelo amor de Deus, eu sei at que voc no  uma garota-traseiro. 
Lembrou enquanto apontava um dos sapatos para ela. Depois continuou: 

- E devo acreditar que voc no podia tentar contar a verdade em qualquer conversa em 
algum momento antes desta noite! 

- Eu sei que isso no serve de consolo, mas eu nunca quis te magoar. 

- Eu no estou magoado. Ele se sentou na borda da cama e enfiou os ps dentro das meias. - 
Estou com nojo. 

Maddie sentiu sua prpria raiva aumentar e assombrou-se ao perceber que conseguia sentir 
algo alm da dor profunda e mortal no peito. Por vrias vezes lembrou a si mesma que ele 
tinha todo o direito de estar furioso. Mick tinha o direito de saber mais cedo com quem 
estava se envolvendo, em vez s saber depois do fato consumado. 

- Isso  muito cruel. 

- Querida, voc no sabe o que  crueldade. - Ele olhou para ela, depois olhou para baixo 
enquanto punha as botas e as amarrava. - Hoje  noite passei uma hora tentando defend-la 
para minha irm. Ela tentou me dizer para no me envolver com voc, mas eu no estava 
pensando. - Ele parou por um instante para olh-la de cima a baixo. - E agora eu vou ter 
que ir contar para ela o que acabei de saber sobre voc. Preciso contar para ela que voc  a 
filha da garonete que arruinou a vida dela, e depois v-la cair em pedaos. Ele podia ter 
mais direito de estar zangado do que ela, mas ouvi-lo chamar a sua me de - a garonete, e 
v-lo se preocupando mais com a irm que com ela, lhe causou emoes cruis e a 
empurrou para acima do limite suportvel. 

- Voc. Voc. Voc. Eu estou cansada de ouvir de voc e sua irm. E eu? - Ela apontou 
para si mesma. - A sua me matou a minha me. Quando eu tinha cinco anos, eu me mudei 
com minha tia-av que nunca gostou de crianas. Que mostrava mais amor e afeto por seus 
gatos que jamais mostrou por mim. A sua me fez isso com a minha vida. Eu nunca recebi 
nem mesmo um segundo do seu pensamento ou da sua famlia. Ento eu no quero ouvir 
mais nada sobre voc ou sobre a sua irm. 

- Se a sua me no ficasse dormindo por a... 

- Se o seu pai no ficasse dormindo por a no teria suscitado vingana de nenhuma mulher 
geniosa com uma saudvel dose de psicose, ento seramos todos felizes como mariscos, 
no seramos? Mas o seu pai estava dormindo com a minha me e a sua me carregou uma 
pistola e os matou. Essa  a nossa realidade. Quando eu me mudei para Truly, esperava 
odiar a voc e a sua irm pelo que sua famlia fez a mim. Voc se parece tanto com o seu 
pai que eu esperava detest-lo  primeira vista, mas no foi isso que aconteceu. E quando 
eu te conheci, percebi que voc no  nada parecido com Loch. 


- Eu costumava acreditar nisso at esta noite. Se voc herdou alguma coisa da sua me, 
ento eu entendo porque o meu pai estava pronto para sair pela porta e nos deixar para ficar 
com ela. As mulheres da famlia Jones tiram a roupa e os homens da famlia Hennessy 
tornam-se completamente estpidos. 

- Espere! - Maddie levantou uma das mos e o interrompeu. - O seu pai estava indo 
embora? Com a minha me? - A me de Maddie estivera certa sobre Loch. 

- Sim. Eu acabei de descobrir. Acho que voc tem alguma coisa mais para colocar no seu 
livro. - Ele sorriu, mas no um sorriso minimamente agradvel. 

- Eu sou exatamente como meu pai, e voc, exatamente como a sua me. 

- Eu no sou parecida com minha me em nada, e voc no  parecido com seu pai em 
nada. Quando olho para voc, eu vejo apenas voc.  assim e  por isso que me sinto 
apaixonada por voc. 

- No interessa o que voc v, porque quando olho para voc, eu sei quem voc . - Ele se 
levantou. - Voc no  a mulher que pensei que fosse. Quando olho para voc agora, eu 
sinto nojo de ter transado com a filha da garonete. As mos de Maddie se fecharam. - O 
nome dela era Alice, e ela era minha me! 

- Eu no dou a mnima para isso. 

- Eu no te conheo. - Ela saiu violentamente do quarto e foi para o escritrio. Poucos 
instantes mais tarde retomou com um arquivo e uma fotografia. 

- Esta era ela. - Ela segurou na frente do rosto dele a antiga foto emoldurada. - Olhe para 
ela. Tinha vinte e quatro anos, era linda e tinha toda a vida pela frente. Era briguenta e 
imatura, e fez escolhas horrveis durante sua vida curta. Especialmente quando se tratava de 
homens. - Ela puxou a foto da cena do crime dos arquivos. - Mas ela no merecia isso. 

- Meu Deus! - Mick virou a cabea para o lado. 

Maddie derrubou tudo sobre a cmoda. 

- A sua famlia fez isso a ela e a mim. O mnimo que voc deveria fazer era dizer o nome 
dela, quando se referisse a minha me! 

Mick olhou para Maddie, suas sobrancelhas baixaram sobre seus lindos olhos. 

- Eu passei a maior parte da minha vida no falando e no pensando nela, e agora vou 
passar o resto da vida no pensando em voc. - Ele pegou a carteira sobre a cama e saiu do 
quarto. 

Maddie ouviu a porta da frente bater mais alto que as batidas do seu corao e se encolheu. 
Acabou pior do que imaginou. Ela imaginou que ele ficaria zangado, mas com nojo? 
Aquilo a havia atingido como um soco no estmago. 

Caminhou at a porta da frente e atravs do olho mgico viu a caminhonete dele sair pela 
estrada. Fechou a porta  chave, passou a tranca, e apoiou-se contra a porta slida. As 
lgrimas que havia se recusado a derramar na frente dele enchiam seus olhos agora. Um 
som que quase no reconhecia como vindo dela mesma arrebentou os limites da emoo 
que havia em seu peito. Como uma marionete cujos cordes so cortados, ela escorregou 
at se sentar no cho. 

Miau. 

Bola de Neve pulou no colo dela e escalou a frente de seu robe. Sua pequena lngua cor-de-
rosa lambeu as lgrimas do queixo entorpecido de Maddie. Como era possvel machucar 
tanto, e se sentir absolutamente oca por dentro? 

 

 

 


Captulo 16 

 

Meg levou os dedos s tmporas e pressionou, como fazia quando criana. As barras do 
roupo encostavam em seus tornozelos enquanto atravessava a pequena cozinha. Eram 
nove horas da manh e por sorte era seu dia de folga. Travis havia passado a noite com Pete 
e por sorte no tinha conscincia da agitao que havia se passado na sua casa. 

- No deveria ser permitido que ela morasse aqui - Meg dizia.  Nossas vidas estavam bem 
at que ela apareceu. Ela  igual  me, que se mudou para a cidade para atrapalhar nossas 
vidas. 

Depois que Mick deixou a casa de Maddie, ele foi para o trabalho e tentou ignorar a raiva e 
o caos que restaram na sua alma. Mesmo depois que o bar fechou ele continuou l. 
Examinou cuidadosamente os registros bancrios, conferiu os cheques da folha de 
pagamento, verificou o inventrio e fez anotaes do que ele precisava ordenar. Depois que 
o relgio bateu oito horas foi at a casa da irm. 

- Algum tem que fazer alguma coisa. 

Mick deixou seu caf sobre a velha mesa de carvalho onde havia jantado quando criana e 
se sentou numa cadeira: 

- Prometa que voc no vai fazer nada. 

Meg parou e olhou-o: - Fazer o qu? 

- O que eu poderia fazer? 

- Prometa que voc no vai chegar perto dela. 

- O que voc est pensando que eu vou fazer? 

Simplesmente por olh-la, ela pareceu diminuir diante dos olhos dele. 

- Eu no sou como a mame. No vou machucar ningum. No, apenas a si mesma. 

- Prometa. - Ele insistiu. 

- Est bem. Vou fazer com que voc se sinta melhor. Eu prometo que no vou queimar a 
casa dela. - Ela riu ironicamente e se sentou na cadeira que estava prxima a dele. 

- Isso no  engraado, Meg. 

- Talvez no, mas ningum ficou machucado naquela noite, Mick. 

Exclusivamente porque ele apareceu em tempo de tir-la de dentro da casa da fazenda em 
tempo, na noite em que a incendiou. Ela sempre havia insistido que no estava tentando se 
matar. Mas at o presente, ele no tinha certeza se acreditava nela. 

- Eu no sou louca, voc sabe. 

- Eu sei - ele disse automaticamente. 

Ela balanou a cabea. 

- No, voc no sabe. s vezes voc olha para mim e pensa ver a mame. Isso estava to 
perto da verdade que ele nem mesmo se importou em negar. 

- Eu penso apenas que s vezes as suas emoes ficam alm dos limites. 

- Para voc elas so, mas h uma grande diferena entre ser uma pessoa emocional que 
conversa e vocifera em comparao com ser uma pessoa que pega um revlver e mata a si 
mesma ou mais algum. 

Ele pensou que chamar os acessos da irm de - ser uma pessoa emocional era uma maneira 
suave de mencionar aquele assunto, mas no quis argumentar. 

Levantou-se, foi at a pia, e disse: 

- Estou cansado, vou para casa. 

E jogou o resto de caf no ralo. 

- Durma um pouco - a irm aconselhou. 


Ele pegou suas chaves de cima da mesa da cozinha e Meg se levantou para se despedir. 

- Obrigado por vir me contar tudo. 

Ele no havia contado tudo a Meg. Ele no havia mencionado que havia transado com 
Maddie, nem que havia se apaixonado por ela. 

- Diga ao Travis que volto amanh de manh para lev-lo para pescar. 

- Ele vai gostar. - Ela se levantou e o levou at a porta. - Voc tem estado to ocupado com 
trabalho ultimamente que vocs dois tm passado pouco tempo juntos. 

Ele havia estado ocupado, mas principalmente ocupado perseguindo Maddie Dupree. Ou 
melhor, Maddie Jones. 

- Tome um banho - ela gritou para ele enquanto ele caminhava na direo da caminhonete. 
- Voc est horrvel! 

Mick imaginou que ento estava tudo perfeito, j que ele se sentia horrvel. Ele pulou 
dentro da caminhonete e dez minutos mais tarde estava andando pelo seu quarto, pensando 
como a vida pde chegar ao completo inferno em que estava agora. 

Tirou a camisa e sentiu o cheiro de Maddie. Na ltima noite ela cheirava a coco e limo. 
Esta manh foi a primeira vez desde que a conheceu que em vez de querer enterrar seu 
rosto no pescoo dela, ele teve vontade de torcer o pescoo dela. 

Mick jogou a camisa no cesto de roupa suja no closet e tirou os sapatos. A lembrana da 
noite anterior e do exato momento em que ficou parado em p na cozinha de Maddie, 
quando descobriu quem ela era realmente, o atingiu como um soco nas tmporas. Como se 
tudo aquilo no fosse suficiente, Maddie lhe mostrou a foto da me, o que o atingiu como 
um chute no estmago. Sentia-se como se tivesse levado uma grande surra e ido a nocaute. 

Terminou de se despir. Sentia-se um idiota. Pela primeira vez na vida, havia realmente se 
apaixonado por uma mulher, e de maneira to forte que sentia o peito como que corrodo 
por algum tipo de cido. S que ela no era quem o fez acreditar que fosse. Era Maddie 
Jones, filha da ltima namorada do pai. Nem importava se ela via ou no Lock quando 
olhava para Mick, ou que ela prpria no se parecesse em nada com Alice. Na verdade nem 
importava se ela mentiu para ele. Pelo menos no importava tanto quando saber quem ela 
era realmente. Mick passou a maior parte da vida lutando para se libertar do passado, e 
acabou se apaixonando por uma mulher profundamente envolvida com esse passado. 

Mick foi para banheiro e abriu o chuveiro. Evidentemente era mais parecido com Loch do 
que havia pensado, e aquilo o incomodava muito. Desde o comeo, sabia que havia alguma 
coisa em Maddie. Alguma coisa que o atraa. No sabia o que era ao certo, nem podia 
imaginar. Agora entendia, e a sensao era como se lhe tivesse cado chumbo quente no 
estmago. Ele entendia que devia ser a mesma atrao que o pai sentiu pela me dela. A 
mesma fascinao que o fazia querer ver o seu sorriso, v-la sorrir e ouvi-la sussurrar o 
nome dele quando ele lhe dava prazer. O mesmo tipo de calma que o pai deve ter sentido 
quando estava perto da me dela. Como se tudo mais casse por terra e sua viso clareasse, 
e ele visse apenas o que queria mesmo antes de saber que queria alguma coisa. 

Ele ficou em p sob o chuveiro e deixou a gua quente cair sobre a cabea... Para o pai ter 
estado planejando deixar a me por Alice Jones, Loch deve ter estado realmente 
apaixonado por ela. Mick tambm entendia aquilo. Estava apaixonado por Maddie Jones. 
Odiava admitir isso naquele momento, e estava envergonhado e embaraado, mas quando 
ela abriu a porta na noite passada e a viu ali segurando a gata, seu corao sentiu como se o 
solo tivesse aquecendo por dentro. E ele soube, como era para um homem amar uma 
mulher. Soube isso com todas as clulas do corpo e a cada batida do seu corao. Depois 


ele a carregou para a cama, e soube o que era fazer amor com uma mulher, e ficou 
completamente surpreso. 

E depois de tudo isso ela arrancou seu corao de dentro do peito. 

Mick inclinou a cabea para trs e fechou os olhos. Ele havia visto e feito coisas na vida 
que lamentava. Experimentou uma dor de arrancar o corao quando lhe morreram os 
companheiros soldados. Mas as coisas que havia feito e experimentado no foram to ruins 
quanto a tristeza e dor que sentia por amar Maddie. 

Havia apenas uma coisa a fazer. Como dissera a Maddie, ele no pensou sobre a me dela e 
no pensaria nela. Isso era exatamente o que planejava fazer. Esqueceria tudo o que viveu 
com Maddie Jones. 

Meg havia tomado um banho e acabava de secar o cabelo quando abriu a porta da frente e 
olhou nos olhos calmos de Steve Castle: 

- Ol, Steve, tudo bem? e emendou mostrando-se um pouco ansiosa: 

- Desculpe t-lo chamado aqui, mas no consegui pensar em ningum mais que pudesse 
chamar... 

- Estou feliz que tenha me chamado. 

Ele entrou e a seguiu at a cozinha. Usava jeans e uma camiseta. Diante de um bule de caf 
fresco Meg exps a Steve o que Mick havia contado. 

- A cidade inteira vai descobrir, e eu no sei o que fazer. 

Steve envolveu a caneca com sua mo grande e a levou a boca: 

- No parece que h alguma coisa que voc possa fazer, exceto se segurar. - disse, depois 
deu um gole. 

- Como eu poderia fazer isso? - A ltima vez que falara com Steve sobre Maddie Dupree 
Jones, Steve havia lhe dado um bom conselho e a fez se sentir melhor. - Isso vai fazer com 
que todos voltem a falar sobre o que a minha me fez, e sobre todos os casos do meu pai. 

-  provvel que sim, mas o que eles fizeram durante a vida deles no foi sua culpa. 

Meg levantou-se e se moveu na direo ao bule de caf. 

- Eu sei, mas isso no vai impedir as pessoas de falar sobre mim.  Pegou o caf, encheu 
novamente a caneca de Steve e a sua. 

- No. No vai impedir, mas enquanto eles estiverem falando, tenha em mente que voc no 
fez nada errado. 

Ela pousou novamente o bule e encostou um quadril contra o balco. 

- Posso me convencer disso, mas talvez isso no faa com que eu me sinta melhor. 

Steve apoiou as mos sobre a mesa e se levantou. 

- Se voc realmente acreditar que no tem culpa, vai se sentir melhor, sim. 

- Voc no entende o que eu estou sentindo...  to humilhante. 

- Olha, Meg, se tem alguma coisa sobre a qual eu entendo  sobre humilhao. Quando 
voltei do Iraque, minha esposa estava grvida e todo mundo sabia que o beb no era meu - 
disse enquanto andava ligeiramente coxo na direo dela. - No apenas eu tive que lidar 
com a perda da minha perna, e da minha esposa, mas tambm tive de lidar com o fato de 
ela ter sido infiel a mim com um companheiro do exrcito. 

- Meu Deus! Sinto muito, Steve. 

- No sinta. Minha vida foi um inferno por algum tempo, mas agora ela  boa. s vezes 
voc tem que experimentar as coisas amargas para conseguir apreciar as coisas doces. 

Pensativa, Meg, ficou imaginando se aquilo seria algum tipo de ditado do exrcito. 

Steve pegou na mo dela. 


- Mas voc no consegue apreciar o acar at que todo o gosto amargo acabe. - Ele passou 
de leve o polegar sobre a parte de dentro do pulso de Meg e os plos do seu braos 
arrepiaram. - O que seus pais fizeram no teve nada que ver com voc, que era uma criana. 
Assim como o fato de minha mulher ter azarado meu amigo de exrcito, no teve nada que 
ver comigo. Nem um pouco. Se ela era infeliz porque eu tinha ido embora, tinha outras 
maneiras muito mais nobres de lidar com isso. Se sua me foi infeliz porque seu pai tinha 
casos, havia outras maneiras de ela lidar com isso. O que minha mulher fez no foi minha 
culpa. No sei quanto a voc, Meg, mas eu no pretendo pagar pelos erros dos outros o 
resto da minha vida. 

- Eu tambm no. 

Steve apertou a mo dela e de alguma forma ela se sentiu aquele gesto no fundo do corao. 

- Ento no pague. Ele a puxou em direo a ele, passou a mo livre pelo pescoo dela. - 
Uma coisa que eu sei com certeza  que voc no pode controlar o que as outras pessoas 
vo dizer ou fazer. 

Um sorriso brotou dos seus lbios e Meg disse: - Voc parece o Mick. Ele pensa que eu no 
consigo romper com o passado porque vivo dentro dele. Ela descansou o rosto na palma da 
mo aberta dele. 

- Talvez voc precise de algo na sua vida que tire a sua cabea desse passado. Quando se 
casou com o pai de Travis, no permitiu que esse assunto a aborrecesse tanto quanto 
aborrecia atualmente. 

- Talvez voc precise de algum... 

- Eu tenho o Travis... 

- Eu quis dizer algum alm do seu filho... - Ele abaixou o rosto e falou prximo aos seus 
lbios. - Voc  uma mulher maravilhosa, Meg. Precisa deixar um homem entrar na sua 
vida... 

Ela abriu a boca para falar, mas no pde lembrar o que ia dizer. H muito tempo um 
homem no lhe dizia que era maravilhosa. E muito tempo desde que beijou algum alm do 
filho. Ela aproximou os lbios de Steve e ele a beijou. Um beijo quente, gentil, que pareceu 
durar para sempre e regado pela intensa luz do sol que invadia a cozinha. Depois do beijo 
Steve envolveu-lhe o rosto com as duas mos enormes e disse: 

- Eu queria fazer isso h muito tempo. 

Meg lambeu o lbio inferior e sorriu. Ele a fez se sentir maravilhosa e desejada. A fez se 
sentir como mais que uma garonete, uma me e uma mulher que acabara de completar 
quarenta anos. 

- Quantos anos voc tem, Steve? 

- Trinta e quatro. 

- Eu sou seis anos mais velha que voc. 

- Isso  um problema? 

Meg negou, balanando a cabea: 

- Para mim, no, mas pode ser um problema para voc. 

- Idade no  um problema. - Ele passou as mos pelas costas dela, a puxou contra seu 
peito: - Agora eu s preciso pensar num de jeito de falar para o Mick que quero namorar a 
irm dele. 

Meg sorriu e seus braos envolveram o pescoo dele. Ela sabia que havia muitas coisas que 
Mick guardava para si. Mais recentemente seu relacionamento com Maddie Jones. 

- Deixe que ele descubra sozinho... 

 


Captulo 17 

 

Maddie estava prostrada na cama. No tinha energia para se levantar. Estava extenuada e 
vazia, exceto por um peso que a tristeza lhe trazia ao estmago. Lamentava no ter revelado 
seu segredo ao Mick mais cedo. Realmente, se tivesse lhe contado quem era na primeira 
noite que estivera no Mort's, ele jamais teria aparecido na sua porta com armadilhas para 
camundongos e brinquedinhos para a gata. Jamais a teria tocado e beijado, e jamais teria se 
apaixonado por ele. 

Bola de Neve pulou sobre a cama e fez uma trilha atravs do acolchoado na direo do 
rosto de Maddie. 

- O que voc est fazendo? - perguntou  gatinha com a voz rouca, resultado da emoo que 
a consumiu durante a noite toda. - Voc sabe que no gosto de plo de gato. Isto quebra 
completamente as regras. 

Bola de Neve engatinhou por debaixo das cobertas e seu plo macio lhe fez ccegas quando 
tirou a cabea para fora das cobertas junto ao queixo de Maddie. 

- Miau. 

- Voc est certa, quem se importa com as regras? - Ela afagou o plo da gata e seus olhos 
se encheram de gua. Chorou tanto na noite anterior, que estava surpresa ainda ter alguma 
gua no corpo, deveria sim estar completamente desidratada e enrugada como uma uva-
passa. 

Maddie ficou de barriga para cima e olhou para as sombras espalhadas no teto. Ela podia 
ter vivido toda a vida muito feliz se nunca tivesse se apaixonado. Teria sido feliz se nunca 
conhecesse a investida daquela alta de dopamina, ou a angstia da dor no corao, o 
desespero de ter amado algum e depois perdido. Lord Tennyson estava errado. No era 
melhor ter amado e perdido que nunca ter amado. Maddie teria preferido muito mais nunca 
ter amado que amar Mick para depois perd-lo. 

Eu no estou magoado, ele disse. Estou com nojo. Ela podia ter agentado a clera e at o 
dio que viu nos olhos dele. Mas nojo? Isso a machucou profundamente. O homem que 
amava, o homem que havia tocado seu corao e tambm seu corpo, sentia nojo dela. Saber 
como ele se sentia a fez querer se encolher como num novelo, cobrir a cabea e s sair dali 
quando no doesse mais. Em torno do meio-dia Maddie comeou a sentir um pouco de dor 
nas costas. 

Pegou a gata e o acolchoado da cama e foram, ela e Bola de Neve, se prostrar no sof da 
sala. O dia todo e noite adentro ficaram as duas ali assistindo televiso, se bem que sem 
prestar muita ateno. Assistiram at mesmo Kate & Leopold uma leve e agradvel 
comdia romntica, filme que Maddie sempre odiou j nunca entendeu porque uma mulher 
sensata pularia de uma ponte por um homem. 

Dessa vez sua antipatia pelo filme no a fez deixar de chorar at esgotar sua caixa de lenos 
de papel. Depois da comdia romntica assistiram o Reino dos Suricatos, e uma 
reapresentao de um reality show sobre design de moda. Enquanto no estava chorando 
por causa de Leopold, dos pobres suricatos, ou das abominveis roupas apresentadas por 
um dos concorrentes do reality show, Maddie estava pensando em Mick. No que ele disse, 
na expresso do seu rosto quando disse aquilo, e no que ele contou com relao ao seu pai 
deixar sua me para ficar com Alice. Alice estivera certa sobre os sentimentos de Loch. 
Quem diria...? Essa possibilidade mal passara pela cabea de Maddie, mas quando passou, 
dada a histria de Alice com os homens, especialmente os casados, e dada a histria de 
Loch com as mulheres, Maddie rejeitou completamente essa possibilidade. 


Essa informao esclarecia a motivao de Rose para o que ela fez. Foi um caso clssico de 
perda do controle e de sentimento de perda de si prpria. A tpica situao - se eu no posso 
ter voc, ningum pode, que  encontrada por toda a histria e que j foi exaustivamente 
analisada e estudada. 

Estava to simples e claro na frente dela o tempo todo. E saber a verdade tornava mais fcil 
escrever o livro, Embora no nvel pessoal realmente no mudava nada. A me ainda havia 
feito uma escolha ruim, que acabou na prpria morte. Trs pessoas morreram e trs crianas 
acabaram devastadas. O motivo realmente no alterava nada. 

Em torno da meia-noite Maddie sentiu sono e adormeceu. Na manh seguinte acordou 
sentindo-se to mal quanto no dia anterior. Maddie nunca fora lastimosa ou chorona. Muito 
provavelmente porque aprendeu numa idade muito precoce que se lastimar, chorar e sentir 
pena de si mesma no a levava a lugar algum. Embora se sentisse ainda como que tendo 
sofrido um atropelamento emocional, tomou um banho de chuveiro e se enfiou no 
escritrio. 

Ficar prostrada pela casa, se sentindo mal, no permitiria que ela realizasse seu trabalho. O 
livro tinha que ser escrito e ela era a nica pessoa que podia fazer isso. 

A linha do tempo estava presa na parede. Estava tudo pronto. Maddie sentou-se e comeou 
a escrever: 

s trs horas da manh de nove de julho, Alice fones vestiu a sua blusa branca e sua 
saia preta e borrifou nos pulsos o seu perfume preferido. Era o primeiro dia do seu novo 
trabalho no Hennessy's, e ela queria causar boa impresso. O Hennessy's foi construdo 
em 1925, durante a Lei Seca e a famlia havia prosperado vendendo lcool de cereais nos 
fundos... 

Em torno do meio-dia, Maddie levantou-se para arrumar alguma coisa para o almoo, 
alimentar Bola de Neve e pegar um refrigerante diet na geladeira. Escreveu at a meia-
noite, quando caiu na cama. Acordou na manh seguinte com Bola de Neve sob as cobertas 
e enrascada no seu queixo. 

- Este  um hbito ruim disse  gata. Bola de Neve ronronou, com uma firme animao 
amorosa, e Maddie no conseguiu espantar a gatinha para fora da cama. 

Durante nas vrias semanas que se seguiram, Bola-de-Neve desenvolveu outros hbitos 
igualmente ruins. Ela insistia em ficar no colo de Maddie enquanto esta escrevia, e em 
andar sobre a escrivaninha, brincar com clipes de papel, canetas e blocos coloridos 
daqueles que se grudam nas coisas. 

Maddie se manteve ocupada escrevendo dez horas por dia e fazendo intervalos ocasionais 
no terrao dos fundos para sentir um pouco do sol no seu rosto, e depois voltar a trabalhar, 
at cair na cama exausta. Durante os momentos em que no estava pensando em trabalho, 
sua mente sempre se voltava para Mick. Pensava no que ele estaria fazendo, quem estaria 
vendo. Ele disse que no pensaria nela, e ela acreditava mesmo nisso. Se no pensar no 
passado tinha sido fcil para ele, seria ainda mais fcil no pensar nela. 

Nessas ocasies em que sua mente no estava preenchida com trabalho, ela se lembrava de 
suas conversas, do almoo em Redfish, das noites que ele havia passado na sua cama. 

Em alguns momentos desejou odiar Mick, ou mesmo ter averso por ele. Seria to mais 
fcil se conseguisse. Tentou se lembrar de todas as coisas baixas e detestveis que ele disse 
na noite que ela revelou seu segredo. Era muito provvel que o amaria para o resto da vida. 

No aniversrio da morte da me, ela perguntou-se se Mick estava sozinho, lembrando 
daquela noite que havia mudado a vida de ambos, e se ele se sentia to s e triste quanto 
ela. Quando o relgio chegou em um minuto aps meia-noite, seu corao afundou quando 


percebeu que esteve se segurando num diminuto fio de esperana de que aparecesse na 
varanda. Ele no apareceu, e ela foi forada a aceitar novamente que Mick no a amava. 

No ltimo dia de agosto, vestiu seu short cqui e uma camiseta preta, e levou Bola de Neve 
 consulta com o veterinrio. Teve de deixar a gatinha nas enormes mos do dr. Tannasee, 
o que foi mais traumtico do que Maddie imaginara. Mas teve de ignorar a pequena nsia 
de pnico enquanto saa da sala de exame sem aquela bola de plo branco de olhos 
desconjuntados, dentes salientes e completamente violadora de regras. Foi ento que se viu 
forada a encarar definitivamente o fato, antes inconcebvel, de que passova a gostar de 
gatos. 

Quando retomou para casa, o lugar lhe pareceu intoleravelmente silencioso e vazio. Ela se 
forou a trabalhar por algumas horas antes de sair novamente para o terrao para um 
intervalo embaixo do sol fresco. Sentou-se numa das espreguiadeiras e inclinou o rosto na 
direo do sol. Na casa ao lado, os Allegrezza tambm estavam no terrao, rindo, falando e 
cozinhando alguma coisa. 

- Maddie, venha para c! Venha conhecer as gmeas! - Lisa chamou. Maddie levantou-se e 
rapidamente listou as pessoas presentes, mas no localizou nenhum Hennessy. Seus 
chinelos pretos batiam nas solas dos seus ps enquanto caminhava a pequena distncia at a 
casa dos vizinhos. 

Enrolados como se fossem burritos e deitados no mesmo carrinho de beb protegidos por 
um grande pinheiro, Isabel e Lilly Allegrezza dormiam, alheios ao estardalhao que 
acontecia ao redor. As meninas tinham cabelos escuros e lustrosos como o pai, e os 
rostinhos mais delicados que Maddie j havia visto. 

- No parecem bonequinhas de porcelana? - perguntou Lisa. 

Maddie aquiesceu. 

- Elas so to pequenininhas... 

- Pois , esto pesando agora um pouco mais de dois quilos e meio  disse Delaney, - 
nasceram prematuras, mas esto com a sade perfeita. Se houvesse a mnima preocupao, 
Nick as manteria em casa em uma bolha  prova de germes. - Ela olhou para o marido do 
outro lado que estava pilotando a churrasqueira junto com Louie. Abaixou a voz e 
continuou: - Ele comprou toda as engenhocas que se possa imaginar... de acordo com o 
Livro do beb ele est montando um ninho... 

Lisa riu. 

- Quem iria pensar que ele seria um provedor de ninhada? 

- Voc est falando sobre mim? - Nick perguntou  esposa. 

Delaney olhou para o lado da churrasqueira e sorriu: 

- S dizendo o quanto eu te amo. 

- Claro... 

- Quando voc vai voltar ao trabalho? - Lisa perguntou  cunhada. 

- Estou pensando em abrir novamente o salo no prximo ms. 

Maddie olhou para Delaney e para os cabelos louros, macios e bem cortado sobre os 
ombros. 

- Voc tem um salo de beleza? 

- Isso! Eu tenho um salo na rua Main. - Delaney olhou para os cabelos de Maddie e disse: 
- Se precisar de um corte antes do prximo ms, me diga, que eu trago as minhas tesouras. 
Seja l o que voc faa, no v ao salo da Helen. Ela vai fritar os seus cabelos e fazer com 
que voc parea com um figurante daqueles terrveis vdeos de rock dos anos oitenta. Se 
voc quiser seu cabelo bem cortado, me procure. 


Isso explicava porque metade da cidade tinham aqueles medonhos cabelos fritos. 

A porta dos fundos da casa se abriu e Pete e Travis saram, cada um com uma bisnaga de 
hot dog na mo. Eles esperaram pacientemente enquanto Louie punha uma salsicha em 
cada bisnaga e Nick providenciava um jato de ketchup. Ter visto Travis a lembrou de 
Mick. Pensou onde ele estaria, e se seria possvel ele aparecer a qualquer momento. Se 
aparecesse, ser que viria sozinho ou acompanhado de uma daquelas mulheres que 
esperavam mais do que ele podia lhes dar? Ele disse que a amava, mas ela no acreditou. 
Como tudo o que aprendeu ao longo da vida de maneira muito dolorosa, o amor no ia 
embora simplesmente porque no se queria mais pensar nele. 

- E a, Travis, como vai? - perguntou quando o menino caminhou em sua direo. 

- Estou bem. E a sua gata? 

- Hoje ela est no veterinrio, por isso a minha casa est to silenciosa. 

- Ah... - Ele olhou para Maddie e apertou os olhos para evitar a ofuscante luz do sol. - Eu 
vou ganhar um cachorro! 

-  mesmo? - Maddie lembrou-se do que Meg havia dito sobre dar um animal de estimao 
para o Travis. - Quando? 

- Algum dia... - Ele deu uma mordida no sanduche e continuou: - Eu fui pescar com o meu 
tio Mick no barco dele. - Voc precisava ver, arrasamos. - Ele engoliu e depois acrescentou: 
- Ns passamos aqui na frente e vimos voc. Mas no acenamos. 

Claro que no... Poucos instantes depois Maddie despediu-se e voltou para casa. Mas como 
a casa ainda estava silenciosa demais, resolveu ir at a mercearia para montar seu prprio 
ninho. J era tempo de Bola-de-Neve ter sua prpria caixinha de transporte, e Maddie 
queria procurar tambm uma cama melhor para a gatinha. Obviamente a caixa de papelo 
onde supostamente ela deveria dormir no era a melhor cama... 

O que Maddie no planejou foi cair justamente no meio da comemorao do Dia dos 
Fundadores da Cidade. Lembrava-se vagamente de ter visto algo sobre a festa em algum 
lugar, mas havia esquecido completamente. O trajeto para a mercearia, que normalmente 
levava dez minutos, levou desta vez meia hora. O estacionamento estava abarrotado com os 
carros por causa da feira de decorao e artes, que acontecia no parque do outro lado da 
rua. 

Maddie teve que ficar circulando pelo estacionamento at encontrar uma vaga. 
Normalmente isso no a teria incomodado, mas imaginou que levaria provavelmente outra 
meia hora para chegar em casa. 

Uma vez dentro da mercearia, encontrou a cama de gato ideal, mas nenhum transporte. 
Colocou dentro do carrinho junto com um brinquedinho que havia separado, e um DVD 
para gatos com cenas de pssaros, peixes e camundongos. Maddie estava um pouco 
embaraada por se ver ali comprando um DVD para gatos, mas imaginou que Bola de Neve 
ficaria afastada dos mveis se estivesse hipnotizada assistindo um peixe. 

E j que estava na mercearia, resolveu tambm fazer algumas compras para a casa. Papel 
higinico, sabo em p e sua indulgncia mais secreta, uma daquelas revistas 
sensacionalistas que s vezes lhe traziam inspirao. Ela adorava as histrias de gafanhotos 
de vinte e trs quilos e mulheres que tinham bebs cujo pai era o P Grande, mas as suas 
favoritas eram sempre as aparies de Elvis. Ela colocou a revista em preto e branco dentro 
do carrinho, terminou as compras e seguiu em direo  caixa registradora. 

Carleen Dawson estava trabalhando na registradora de nmero cinco quando Maddie 
colocou seus produtos sobre o balco. 


- Ouvi dizer que voc  filha de Alice. Ou isso  apenas um rumor como aquele de que 
Brad Pitt vinha para a cidade? 

- No, no  rumor.  verdade. Alice Jones era minha me.  Maddie pegou a bolsa, abriu e 
puxou a carteira. 

- Eu trabalhei com Alice no Hennessy's. 

- , eu sei. - respondeu e se segurou para o que Carleen diria em seguida. 

- Era uma pessoa legal, eu gostava dela. 

A surpresa fez brotar um sorriso nos lbios de Maddie. 

- Obrigada. 

Carleen empacotou suas compras e colocou tudo, exceto a cama de gato que pelo tamanho 
no caberia na sacola. 

- Ela no devia ter brincado com homem casado, mas no merecia o que Rose fez. 

Maddie pegou o carto e digitou seu cdigo de segurana. Pagou as compras e saiu da 
mercearia sentindo-se muito melhor do que quando entrou. Ps tudo no porta-malas do 
carro e, j que estava ali, decidiu dar uma olhada na feira de decorao e artes. Ps seus 
culos escuros pretos, atravessou a rua e entrou no parque. Nunca estivera numa dessas 
feiras, principalmente porque nunca havia decorado sua casa realmente. 

Maddie parou no estande de hot dog no palito, e se permitiu devorar um hot dog empanado 
e com mostarda extra. Enquanto comia, viu Meg e Travis com um homem alto e careca que 
usava uma camiseta onde se lia UM PARDAL  MEU CO-PIRATA. Percebeu logo que 
Mick no estava com eles. Esperou que eles passassem por ela antes de seguir para uma 
barraca da Sociedade para o Bem-Estar dos Animais, onde havia coleiras, roupas e 
alimentadores de animais. Maddie encontrou um transporte em forma de sacola de boliche, 
que era vermelho com coraes pretos aplicados, e revestido de pelo preto, e vinha com 
uma pulseira que combinava para deleite dos mais mimadinhos. Encomendou uma casa 
para gatinho de trs andares que seria entregue na semana seguinte. A caixa transportadora 
estava disponvel, ento Maddie levou com ela, assim poderia us-la para trazer Bola de 
Neve para casa no dia seguinte. 

Quando deixou a barraca, Maddie jogou fora a salsicha e ajeitou o transporte nos ombros. 
Assim que virou  direita na barraca de cermica, praticamente deu com a cara no peito de 
Mick Hennessy. Olhou para cima passando pela camiseta azul que cobria o peito largo, o 
pescoo maravilhoso que tanto havia beijado, pelo trao de teimosia no seu queixo e pela 
presso zangada na sua boca, chegando finalmente aos olhos cobertos pelos culos escuros. 
O corao de Maddie bateu mais rpido e mais forte, apertou-se e ela sentia aquela 
violncia se espalhar por todo o seu corpo. Apesar disso, conseguiu dizer um muito 
agradvel: 

- Ol, Mick. 

Ele fechou a cara. 

- Maddie... 

O olhar dela deslizou-lhe pela face, alimentando memrias dele tocando-a nos lugares mais 
ntimos. E finalmente teve a imagem dos cabelos negros lhe tocando as sobrancelhas, e deu 
um machucado no rosto. 

- O que aconteceu com seu rosto? 

Ele balanou a cabea: 

- No importa. 

Darla, a lanadora de calcinhas, estava ao lado dele e perguntou: 

- E ento, voc vai me apresentar  sua amiga? 


At aquele momento, Maddie no havia se dado conta de que eles estavam juntos. Os 
cabelos de Darla estavam fritos como sempre, e ela usava uma de suas camisetas- regata 
cintilantes e jeans to apertados que pareciam machucar. 

- Darla, esta  Maddie Dupree, mas seu nome verdadeiro  Maddie Jones. 

- A escritora? 

- Isso mesmo. - Maddie disse e ajustou o transporte de gatos no ombro. 

O que Mick estava fazendo com Darla? Certamente ele podia conseguir coisa melhor. 

- J.W me disse que voc estava tentando exumar os corpos dos Hennessys e da sua me. 

- Meu Deus, Darla! - Mick exclamou irritado. 

Maddie olhou para Mick, depois voltou a olhar para Darla: 

- No  verdade. Eu jamais faria algo desse tipo. 

Mick puxou alguns dlares para fora do bolso da frente da cala e o entregou a Darla, 

- Por que voc no vai  barraca de cerveja? Eu te encontro l em um minuto. 

Darla pegou o dinheiro e avisou: 

- Ok, vou pedir duas. 

- Certo. 

Logo que Darla se foi Mick perguntou: 

- Quanto tempo mais voc vai ficar na cidade? 

Maddie encolheu os ombros enquanto olhava o grande traseiro de Darla sumir na multido. 

- No sei dizer. - Olhou novamente para o rosto do homem que fazia com que seu corao 
dilacerado lhe subisse pela garganta. - Por favor, me diga que voc no est saindo com a 
Darla. 

- Cime? 

No, na verdade ela estava irritada. Irritada porque ele no a amava. Irritada porque ela 
sempre o amaria. Irritada porque uma parte dela queria se jogar nos braos dele ali mesmo 
como uma jovem colegial desesperada e implorar que ele a amasse. 

- Voc deve estar brincando comigo... Com cime daquela mulherzinha vulgar e idiota? Se 
quiser me deixar com cime, comece a sair com algum com pelo menos metade do 
crebro dela, e um mnimo de classe. 

Mick comprimiu o olhar. 

- Pelo menos ela no fica andando por a fingindo ser algum que no . 

Sim, estava. Estava andando por a fingindo vestir tamanho quarenta, mas Maddie preferiu 
no apontar isso num parque lotado, afinal ela tinha alguma classe. 

E para vencer o barulho que os circundava, ele falou um pouco mais alto: 

- Nem tudo o que sai da boca dela  mentira. 

- Como voc sabe, se nunca fica por perto o tempo suficiente para conhecer algum? 

- Voc pensa que me conhece to bem... 

- Eu te conheo. Provavelmente, melhor que qualquer outra mulher, e eu me atreveria a 
apostar que eu sou a nica mulher que voc conheceu realmente. Vagarosamente ele 
balanou a cabea. 

- Eu no te conheo. 

Ela olhou nos culos espelhados dele e disse: 

- Sim, voc conhece, Mick. 

- No  porque eu sei qual  a sua posio preferida na cama, que podemos dizer que eu te 
conheo. 

Ele queria reduzir o que havia existido entre eles em sexo apenas. Pode ter comeado 
assim, mas se tornou em muito mais que isso. Pelo menos para ela. Maddie deu um passo e 


tomou a frente daquela situao. Eles ficaram to perto um do outro que ela pde sentir o 
calor da pele dele atravessar as camisetas de ambos. To perto que teve certeza de que ele 
podia sentir o corao pulsar violentamente quando se aproximou do ouvido dele e disse: 

- Voc me conhece muito alm de saber se eu gosto de ficar por cima ou por baixo. Mais 
que o cheiro da minha pele ou o gosto da minha boca na sua. - Fechou os olhos e 
acrescentou: 

- Voc me conhece, sim. S no consegue lidar com o fato de eu ser Maddie Jones, Sem 
dizer mais nada ela se virou e o deixou ali parado. No podia dizer que seu primeiro 
encontro com ele tinha sido bom, mas pelo menos ele ficaria pensando nela depois que 
fosse embora. 

Em vez de sair do parque e voltar para casa para evitar ver Mick novamente, Maddie se 
forou a ficar mais algum tempo. Esteve deprimida por vrias semanas, mas agora estava 
melhor, mais forte que o seu prprio corao desconsolado. Ela parou num estande de 
revistas e livros, depois numa barraca que vendia de jias a relgios e comprou uma sineta, 
cujo som ficaria bonito no terrao dos fundos. 

Colocou a sineta no transporte da gata e comeou a caminhar em direo  sada do 
estacionamento. Mas enquanto saa, sentiu que seu olhar foi puxado tal qual um clipe de 
papel  atrado por um m, para a barraca de cerveja e para o homem que estava em p na 
frente da barraca. Mas naquele momento Mick no estava com Darla. Na frente dele estava 
Tanya King, seu corpo pequeno e suas roupas pequenas. A cabea dele estava ligeiramente 
inclinada para frente como se estivesse ouvindo cada palavra. A mo de Tanya repousava 
no peito dele, e podia-se notar um sorriso nos cantos da boca dele, causado por alguma 
coisa que ela disse. 

Ele no parecia estar pensando em Maddie de jeito nenhum, e de repente a fora que sentia 
h poucos minutos sumiu. 

 

Escondido atrs das lentes de seus culos escuros, Mick viu quando Maddie atravessou a 
rua para o estacionamento. Seu olhar deslizou das costas para o traseiro dela. A lembrana 
das pernas em torno da cintura dele, e das mos dele no traseiro dela no lhe saa da cabea, 
quisesse ele ou no. E ele no queria. Dificilmente um dia passava sem que alguma coisa 
no o lembrasse de Maddie. A caminhonete, o barco, o bar. Ele no podia entrar no Mort's 
sem se lembrar da noite em que ela chegou na porta dos fundos usando o casaco vermelho e 
uma das gravatas dele pendurada no pescoo e caindo entre os seios nus. Preferia pensar 
que foi apenas sexo, mas ela estava certa quanto a isso, foi mais que o cheiro da pele dela e 
que o gosto dela na boca dele. Pensou nela vrias vezes ao acaso. Pensou em onde estaria, 
se foi a Boise para o casamento da amiga, outras vezes se lembrou da risada dela, do som 
da sua voz e boca mordaz que dava respostas rpidas. 

Voc deve estar brincando comigo... Com cime de uma mulherzinha vulgar e idiota? Se 
quiser me deixar com cime, comece a sair com algum com pelo menos metade do 
crebro dela, e um mnimo de classe, Maddie dissera, como se houvesse uma chance 
sequer de ele sair com Dada uma nica vez que fosse. Ele no transava desde a ltima noite 
que esteve com Maddie, no sentiu vontade. 

Voc me conhece muito alm de saber se eu gosto de ficar por cima ou por baixo. Mais 
que o cheiro da minha pele ou o gosto da minha boca na sua. Ao v-la e sentir o cheiro 
da sua pele, a nsia de senti-la novamente contra o seu peito foi irresistvel, e numa frao 
descuidada de segundo, ele de fato levantou as mos para pux-la para mais perto. Graas a 
Deus, parou antes de toc-la. 


S no consegue lidar com o fato de eu ser Maddie Jones. Quanto a isso ela estava certa. 
Era uma mentirosa, usou o prprio corpo para conseguir que ele falasse sobre o passado, e 
ele acabou se apaixonado por ela. 

Darla no era a nica idiota. 

Maddie desapareceu do outro lado da rua e o olhar de Mick voltou -se novamente para 
Tanya. Ela estava falando sobre... alguma coisa. 

- Meu novo treinador  brutal, mas ele consegue resultados. 

Ah,  mesmo, Tanya estava falando sobre seus exerccios. Sem dvida, ela tinha um corpo 
muito bonito. Pena que a mo no peito dele no estivesse surtindo nenhum efeito sobre a 
parte baixa de seu corpo. Precisava de distrao. Seus esforos para esquecer Maddie, tir-
la da cabea, claramente no estavam funcionando. 

Talvez Tanya fosse exatamente o que ele precisava. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Captulo 18 

 

Na noite anterior ao casamento de Clare, as quatro amigas se reuniram na casa de Maddie 
em Boise. Elas se sentaram na sala de estar em frente a uma grande lareira feita com pedra 
de rio. A casa em Boise era mobiliada em tons marrom e bege. Pouco tempo atrs Maddie 
abriu uma garrafa de champanhe e as quatro mulheres levantaram suas taas e brindaram  
felicidade futura de Clare com seu noivo Sebastian Vaughan. 

Pouco mais de um ano atrs, todas as quatro eram solteiras. Agora Lucy estava casada e 
Clare prestes a se casar. Maddie se apaixonou e se machucou e Adele continuava 
acreditando que foi amaldioada com encontros ruins, portanto, era a nica das quatro cuja 
vida no havia mudado drasticamente. 

Passou-se uma semana desde que viu Mick no estacionamento com Tanya, e a imagem 
ainda a deixava aflita. Embora Maddie ainda no tivesse confidenciado s amigas sobre 
seus sentimentos por Mick, no pretendia contar a elas nesta noite, pois era a noite de 
Clare, e no uma festinha para Maddie. 

- Minha me convidou metade de Boise para o casamento. Ela esteve na... - Clare parou e 
se inclinou para deixar o livro atrs da cadeira de Maddie. - Tem um gato na sua casa. 

Maddie se virou e olhou para Bola de Neve, flagrantemente desrespeitando as regras, 
subindo nas cortinas de cetim. Maddie bateu palmas e se levantou. 

- Bola de Neve. A gata olhou para Maddie e se jogou no cho. 

- Voc conhece esse gato? - Adele perguntou. 

- Conheo... eu meio que adotei ela. 

- Meio que adotou? 

Lucy inclinou-se para frente e exclamou: 

- Voc odeia gatos! 

- Eu sei... 

Clare cobriu os lbios com dois dedos. 

- Voc deu o nome de Bola de Neve para a sua gata... Que meigo! 

- Isso no parece com voc... 

Adele inclinou a cabea para um lado e olhou preocupada. - Voc est bem? Voc some 
por alguns meses e volta com um gato. O que mais voc tem feito em Truly que no 
ficamos sabendo? 

Maddie levantou o copo e acabou de tomar o champanhe. 

- Nada. 

Desconfiada, Lucy levantou as sobrancelhas. 

- E o livro, como est? 

- Est indo razoavelmente bem - respondeu sinceramente. - J estou com metade dele 
escrito. A prxima metade seria a parte mais spera, em que teria de escrever sobre a noite 
em que a me morreu. 

- Como est Mick Hennessy? - Adele perguntou. 

Maddie levantou e se inclinou sobre a mesa de centro. 

- No sei. Ela ps mais champanhe no prprio copo. - Ele no fala comigo. 

- Finalmente voc contou a ele quem voc  de verdade? 

Maddie aquiesceu e preencheu os copos das amigas. 

- Pois , contei para ele, e ele no gostou muito... 

- Pelo menos voc no dormiu com ele. 

Maddie olhou para o outro lado e tomou um gole do seu copo. 


- Oh, meu Deus! - Clare disse preocupada. - Voc saiu da abstinncia com Mick Hennessy? 

Maddie encolheu os ombros e se sentou. 

- No consegui evitar... 

Adele aprovou com a cabea: 

- Ele  irresistvel. 

- Um monte de homens so irresistveis. - Lucy tomou um gole enquanto olhava para 
Maddie. Suas sobrancelhas levantaram-lhe a testa. - Voc est apaixonada por ele, no ? 

- No importa, ele me odeia. 

Clare a mais bondosa das quatro, disse: 

- Tenho certeza de que isso no  verdade. Ningum odeia voc. 

Aquilo era to ruidosamente mentiroso, que Maddie no pde evitar um sorriso, enquanto 
Lucy tossia no copo de champanhe. 

E Adele se sentava para trs para rir e depois disse: 

- Maddie Jones arrumou uma gata e se apaixonou. Ok, gente, agora  oficial: o inferno 
congelou. 

 

No dia seguinte ao casamento de Clare, Maddie empacotou a gata e voltou para Truly. O 
casamento foi maravilhoso, claro. E na recepo, Maddie havia danado e desfrutado a 
festa a noite toda. Vrios homens com quem danou eram interessantes e solteiros, e ela 
pensava se algum dia em sua vida chegaria a ponto de no mais comparar todo o homem 
que encontrava com Mick Hennessy. 

Levou todo o resto do ms de setembro para escrever e reviver os dias que antecederam a 
morte da me. Inseriu partes de entrevistas e registros dos dirios, incluindo o ltimo: 

Minha filhinha vai fazer seis anos e vai para o primeiro grau. No posso acreditar no 
quanto ela cresceu. Eu gostaria de poder dar mais a ela. Talvez eu possa. Loch disse que 
me ama. Eu j ouvi isso antes. Ele diz que no ama Rose, e que vai contar-lhe que no 
quer mais viver com ela. Eu tambm j ouvi isso antes. Quero acreditar nele. No, eu 
acredito nele!! S espero que ele no esteja mentindo. Sei que ele ama os filhos, porque 
ele fala muito sobre eles. Se preocupa que quando contar  esposa que quer o divrcio, 
seus filhos tenham de testemunhar alguma cena deprimente. Ele tem medo que ela atire 
coisas ou faa algo coisa realmente louca, como botar fogo no carro. Espero que ela no 
machuque Loch e eu disse isso a ele. Ele simplesmente riu e falou que Rose nunca 
machucaria ningum. 

 

A parte mais dura do livro no foi reviver a morte da me momento a momento, como 
Maddie sempre imaginou que seria. Isso foi difcil, com certeza, mas a parte mais difcil foi 
escrever o final e dizer adeus. Escrevendo o livro, Maddie percebeu que nunca disse adeus 
 me. Nunca teve qualquer tipo de encerramento. Agora, tendo feito isso sentiu-se como se 
uma parte da prpria vida tivesse acabado. 

Era meados de outubro quando terminou o livro, ela estava fsica e emocionalmente 
extenuada. Caiu na cama e dormiu por quase vinte horas, e quando acordou sentiu-se como 
se um espinho lhe tivesse sido tirado do seu peito. Um espinho que ela sequer soubera que 
estava cravado ali. E soube que estava livre do passado, sem nem mesmo saber que 
precisava se libertar dele. Maddie alimentou Bola de Neve, depois foi para o chuveiro. A 
gata ainda tinha que dormir na cama que Maddie lhe comprou. Ela gostou do vdeo, mas 
no gostou nem um pouco do transporte. Maddie desistiu de quaisquer regras. Bola de 
Neve gostava de passar a maior parte do tempo deitada no peitoril da janela ou no seu colo. 


Maddie lavou os cabelos e esfregou o corpo com esfoliante de melancia e pensou o que iria 
fazer com sua vida a partir de ento, o que lhe parecia uma pergunta um tanto bizarra 
quando parava para pensar nisso. At terminar o livro, no tinha se dado conta de quanto a 
sua vida estivera enrolada no passado. Isso ditou parte do futuro dela sem mesmo que ela 
soubesse disso. 

Uma das idias que lhe ocorreu foi a de tirar umas frias em algum lugar quente. O que 
significava empacotar somente a roupa de banho e um par de chinelos, e ir para alguma 
praia bonita. Quem sabe Adele tambm desejasse uma interrupo no seu ciclo de 
encontros amaldioados. 

Enquanto Maddie se enxugava pensou em Mick. Ela tinha trinta e quatro anos, e ele foi seu 
primeiro amor de verdade. Sempre o amaria embora ele nunca tivesse conseguido am-la. 
Mas talvez houvesse algo que ela pudesse fazer por ele.  isso, ela daria a ele o mesmo 
presente que deu a si mesma. 

Mick levantou o olhar da garrafa que estava em sua mo para olhar uma mulher que entrou 
pela porta da frente. Colocou a garrafa sobre o balco e a assistiu enquanto passava entre as 
mesas. O Mort's estava lento, mesmo para uma segunda-feira  noite. 

Seus cabelos estavam enrolados sobre os ombros como da primeira vez que a viu. Ela usava 
um suter preto grande que escondia as curvas do seu corpo, e carregava uma caixa sob um 
dos braos. Ele no a via desde o Dia dos Fundadores da Cidade, quando ela lhe disse que 
ele no conseguia lidar com a verdade sobre ela. E estava certa. Ele no conseguia. Mas 
isso no significava que ele no tivesse sentido falta dela a cada dia que passou. Tentar 
esquec-la no funcionou. Nada funcionou. 

Com Trace Adkins como trilha musical ditada pela jukebox, ela disse: 

- Ol, Mick. A voz dela se derramou por cima dele como um conhaque quente. 

- Maddie. 

- Posso falar com voc em algum lugar mais reservado? 

Mick ficou pensando que ela teria vindo para dizer adeus e lhe perguntar como se sentia a 
respeito. Ele consentiu com a cabea e ambos foram em direo ao escritrio. O ombro de 
Maddie tocou no dele, agregando sofrimento  confuso quente que se espalhava pelo seu 
corpo, e o lembrando dolorosamente que ele queria Maddie Jones, Estava faminto, queria 
pular sobre ela e devor-la. E quando Maddie fechou a porta sua nsia aumentou. Mick foi 
para trs da escrivaninha, to longe dela quanto era possvel. 

- Talvez voc devesse deixar o... 

- Por favor, deixe-me falar - ela o interrompeu levantando uma das mos. 

- S tenho uma coisa para dizer, depois eu saio. - Ela engoliu seco e olhou diretamente nos 
olhos dele. - A primeira vez que me lembro de sentir medo, eu tinha cinco anos. No estou 
falando do medo na festa de Halloween, nem do bicho-papo. Estou falando de um medo 
que me fez sentir dor no estmago. O medo que senti quando um dos delegados do xerife 
me acordou para contar que minha tia-av estava vindo me buscar e que minha me estava 
morta. Eu no entendi o que estava acontecendo. No entendi porque minha me tinha ido 
embora, mas sabia que ela nunca mais voltaria. Chorei tanto que vomitei em todo o banco 
de trs do carro da minha tia-av Martha. 

Ele tambm se lembrava daquela noite. Lembrou-se do carro de polcia e de Meg soluando 
ao lado dele. Para qu lembrar disso tudo? 

- Quando eu te encontrei - Maddie continuou, - no esperava gostar de voc, mas gostei. 
Certamente eu no esperava gostar tanto de voc a ponto de ir para cama com voc, mas eu 
fui. No esperava me apaixonar por voc, mas me apaixonei. Desde o incio, eu sabia que 


devia contar a voc quem eu era. Eu sabia que podia ter lhe contado em centenas de 
momentos diferentes. Sabia que era a coisa certa a fazer, mas tambm sabia que te perderia 
se contasse. Eu sabia que quando eu contasse voc iria embora e nunca mais voltaria. E foi 
isso o que aconteceu. 

Ela colocou a caixa de papelo sobre a mesa: 

- Eu quero que voc fique com isso.  o livro que me trouxe de volta a esta cidade. Eu 
quero que voc o leia, por favor. - E olhando para a caixa falou: 

- Dentro desta caixa h um disquete com o livro. E eu o apaguei do meu computador, 
portanto esta  a nica cpia. Quero que faa o que voc quiser com ambos. Jogue fora, 
passe por cima com sua caminhonete ou faa uma fogueira. A escolha  toda sua. 

Ela olhou de volta para ele. Seus olhos castanhos estavam fixos e calmos. 

- Espero que algum dia voc possa me perdoar. No porque eu sinta que preciso ser 
perdoada, eu no preciso. Mas porque aprendi uma coisa nos ltimos meses. No  porque 
voc se recusa a reconhecer uma coisa, a olhar para ela ou a pensar sobre ela, que ela no 
est l, no afeta voc e as escolhas que voc faz na vida. 

Sentindo a boca seca, umedeceu os lbios. 

- Eu perdo a sua me. No porque a Bblia me manda perdoar. Acho que no sou to boa 
crist, porque simplesmente no sou magnnima. Eu a perdo porque, tentando perdo-la, 
fico livre de toda a raiva e de toda a amargura do passado, e  isso que eu quero para voc 
tambm. Pensei sobre o que fiz desde que me mudei para Truly, e sinto muito t-lo 
magoado, Mick. Mas no me arrependo de t-lo conhecido e de ter me apaixonado por 
voc. Amar voc destruiu meu corao e me causou muita dor, mas me fez uma pessoa 
melhor. Eu te amo, Mick, e espero que algum dia voc encontre algum que possa amar. 
Voc merece mais na vida do que vrias mulheres em srie com quem voc no se importa 
de verdade, e que tambm no se importam tanto com voc. Amar voc me ensinou isso. 
Me ensinou como  sentir amor por um homem. E espero que algum dia eu possa encontrar 
algum que vai me amar do jeito que voc no pde. Por que eu mereo mais que uma srie 
de homens que no se importam comigo. - Depois de dizer isso, seu olhar se voltou para os 
olhos dele: - Eu vim aqui esta noite para lhe dar o livro e para dizer adeus. 

- Voc est indo embora? - Ele ficou admirado pela maneira como se sentiu ao ouvir quele 
adeus. 

- Estou, tenho que ir. 

A partida dela era a melhor parte. No importava que ele sentisse como se ela tivesse 
atingindo seu peito e tirado seu corao para fora de novo. 

- Quando? 

Maddie deu de ombros e caminhou em direo  porta. 

- No sei. Logo. - Ela olhou para trs uma ltima vez. 

- Adeus, Mick. Espero que voc tenha uma boa vida. - Depois foi embora, e ficou ali 
abandonado, sentindo no ar o perfume da pele dela e no peito um enorme vazio. O suter 
vermelho que ela usara naquela noite em que foi ao escritrio dele com um vestido branco 
ainda estava pendurado no gancho que fica atrs da porta. Ele sabia que ainda cheirava a 
morangos. 

Mick se sentou na cadeira e inclinou a cabea para trs. Pensou no velho Reuben Sawyer 
bbado que depois de trs dcadas ainda era incapaz de sair do doloroso estado por ter 
perdido a esposa. Mick no seria to pattico, mas agora ele entendia o velho Reuben de 
uma forma que nunca havia entendido antes de amar Maddie Jones. Mick no tocou em 
uma garrafa sequer para beber. Tinha dois bares e sabia onde esse caminho levava, mas 


entrou em uma ou duas brigas. Poucos dias antes de ver Maddie no parque, chutou os 
irmos Finley para fora do Mort's. Normalmente ele chamava os policiais para lidar com 
esse tipo de idiotas e malucos entorpecidos, mas naquela noite ele mesmo fez o servio. 
Ningum jamais chamara os irmos Finley de espertos, mas eles eram bons de briga, e isso 
levou Mick e o barman a empurr-los do bar para a rua, onde aconteceu uma pancadaria 
para todo mundo ver, o tipo de pancadaria na qual ele no se envolvia desde os tempos de 
escola. 

Mick passou os dedos pelos cabelos e se sentou inclinado para frente. Desde a noite em que 
ele descobrira quem Maddie era realmente, esteve no inferno e no sabia como sair. A vida 
parecia para ele como um dia miservel atrs de outro dia miservel. A principio pensou 
que as coisas melhorariam com o tempo, mas a vida no parecia melhorar, e ele no sabia 
mais o que fazer. Maddie era quem era, e ele era Mick Hennessy, e no importava o quanto 
a amava, a vida real no era feita de filmes para a tev naquele canal para mulheres que a 
Meg gostava de assistir. 

Inclinou-se um pouco mais para frente e puxou a caixa que Maddie deixou. Tirou a tampa e 
olhando para dentro, viu o CD e uma enorme pilha de papel. O ttulo cortava a primeira 
pgina em grandes letras: At que a morte nos separe. 

Maddie disse que esta era a nica cpia. Por que ela faria isso por ele? Para que se meter 
em tantos problemas e gastar tanto tempo fazendo alguma coisa, s para lhe dar quando 
tivesse acabado? 

Ele no queria ler. No queria se deixar levar por uma volta ao passado. No queria ler 
sobre o pai infiel e sobre a me doente, sobre a noite em que ela passou dos limites. No 
queria ver as fotografias, ler os relatrios de polcia. Ele viveu tudo isso uma vez e no 
queria se sentir como que voltando ao passado. 

Mas quando levantou a tampa para fechar novamente a caixa, ele pegou a primeira frase 
com os olhos. 

- Prometo que desta vez ser diferente, Baby.  Alice Jones olhou nos olhos de sua filha 
pequena, depois tornou a olhar para a estrada.  Voc vai adorar Truly.  como um 
pedao do cu. 

Baby no disse nada. J ouvira tudo aquilo antes... 

 

Maddie ligou o DVD de Bola de Neve e a colocou sentada na cama de gato em frente  
televiso. No era nem mesmo dez horas da manh, e ela j estava cansada da energia da 
gata. 

- Se voc no se comportar, eu vou te enfiar no transporte e jog-la dentro do porta-malas 
do carro. 

Miau. 

 

- Estou falando srio. - Bola de Neve estava passando por um tipo de fase de 
comportamento passivo-agressivo. Miou para sair, miou para entrar, mas quando Maddie 
abriu a porta ela correu para o lado oposto. Imaginou que a gata ficaria mais agradecida. 

Maddie apontou para o nariz da gatinha: 

- Estou te avisando, hein? Voc deixou meus nervos  flor da pele hoje. - Levantou-se e 
saiu na ponta dos ps. Bola de Neve no a seguiu, transfixada que estava pelos periquitos 
gorjeando na tela. 

A campainha tocou. Maddie foi para a porta da frente e olhou pelo olho mgico. Na noite 
anterior, quando disse adeus ao Mick, no esperava v-lo novamente. Agora ali estava ele, 


com um olhar um tanto estranho. A parte baixa de seu rosto coberta pela barba por fazer, 
como ficou todas as vezes que eles ficavam fazendo amor at tarde da noite. Ela abriu a 
porta e viu a caixa de papelo na mo dele. Seu corao desfaleceu. Todo aquele trabalho e 
ele no havia lido... 

- Voc vai me convidar para entrar? 

Ela abriu um pouco mais a porta e a fechou atrs dele. Ele vestia uma jaqueta de l preta e, 
por baixo via-se a barba cerrada entrando gola abaixo. Suas bochechas estavam rosadas 
pelo frio da manh. Ele a seguiu para a sala de estar, levando consigo para dentro da casa 
dela o odor do ar de outubro e o seu prprio odor. Ela adorou o cheiro dele, sentia falta 
disso. 

- A sua gata est assistindo televiso? - A voz dele estava um pouco rouca. 

- Est, por enquanto. 

Mick deixou a caixa sobre a mesa de centro. 

- Eu li o seu livro. - falou. 

Ela olhou para o relgio sobre a televiso apenas para ter certeza da hora. Ela havia dado o 
livro que ele lesse e destrusse, porque ela o amava, e ele havia provavelmente passado o 
olho sobre o livro. 

- Foi rpido. 

- Sinto muito. 

- No sinta. Algumas pessoas simplesmente lem rpido. 

Ele sorriu, mas esse sorriso no mexeu com os olhos azuis nem fez aparecer suas covinhas. 

- No. Sinto muito pelo que a minha me fez a sua. Eu no acredito que algum da minha 
famlia j lhe tenha pedido desculpas. Ela piscou e tentou lidar com o atordoamento que se 
seguiu: 

- Bem... voc no precisa se desculpar. Voc no fez nada de errado. 

Mick sorriu sem humor. 

- No retire a minha parte da responsabilidade, Maddie. Eu fiz um monte de coisas erradas. 
- Ele abriu a jaqueta e por baixo usava a mesma camisa plo do Mort's que usara na noite 
passada. O homem devia ter dzias delas! - Errei em acreditar que porque no penso sobre 
o que aconteceu no passado, que no fico chateado ou afetado. Eu estava errado e fui 
estpido. Se eu tivesse superado o passado realmente, no teria importado o fato de voc 
ser quem . Teria me surpreendido, me chocado um pouco talvez, mas por fim, eu no me 
importaria. 

Mas importou. Tanto que ele a cortou da vida. 

- Fiquei acordado a noite toda lendo o seu livro. Inicialmente no queria ler, porque 
imaginei que fosse uma longa lista da roupa suja dos meus pais, incrementada por fotos 
terrveis. Mas eu estava enganado. 

Maddie teve vontade de chegar perto dele e toc-lo, correr as mos pelo peito msculo e 
enterrar o rosto no seu pescoo. 

- Eu tentei ser justa. 

- Voc foi surpreendentemente justa. Se a sua me tivesse atirado na minha, eu no sei se 
teria sido to justo. Senti um tipo de conexo sobrenatural estranha com meus pais. Com 
minha vida quando garoto, e agora entendi que tudo estava muito errado. E que a gente nem 
sempre tem uma segunda chance para fazer a coisa certa. 

Maddie desejou que ele viesse at ela e a tocasse. Pusesse as mos no seu pescoo e 
baixasse o rosto e a beijasse. Em vez disso, ele enfiou os dedos no bolso da frente da cala 
jeans. 


- Quando eu te vi no estacionamento e disse que no te conhecia, aquilo foi uma mentira. 
Eu te conheo. Eu sei que voc  engraada, esperta, que congela quando faz vinte e um 
graus l fora. Eu sei que voc adora cheesecake, mas acaba trocando isso por uma loo 
com aroma de bolo. Sei que tem um problema com pessoas que lhe dizem o que fazer. Sei 
que quer que todo mundo pense que voc  durona, mas na verdade comeou a cuidar desta 
gata dentua e deu a ela um lar. E tudo o que eu sei sobre voc me faz querer voc cada vez 
mais. 

O peito de Maddie comeou a sentir aquele incomodozinho familiar, ela olhou para baixo 
para os prprios ps, e no conseguia acreditar na emoo que comeava a se espalhar 
dentro de seu peito. 

- Desde que me mudei de volta para Truly - ele disse, - eu me sentia como se estivesse num 
lugar incapaz de me mexer, de crescer. Mas, na verdade, eu no estava aqui imvel. Eu 
estava esperando, e acho que estava esperando por voc. 

Maddie sentiu uma dor aguda no fundos dos olhos e mordeu seu lbio inferior. 

- Quando eu estou com voc sinto um tipo de tranqilidade que nunca senti com ningum 
na vida. Eu estou envolvido com voc e voc est envolvida comigo e me parece que isso 
est certo desse jeito. Como se fosse o que realmente devia ter acontecido. Eu te amo, 
Maddie, sinto muito ter levado tanto tempo para te dizer isso de novo. 

Maddie olhou para ele e sorriu. 

- Senti sua falta... 

Mick riu e suas convinhas finalmente apareceram. 

- No sentiu tanto a minha falta quanto senti a sua. - Eu tenho sido um completo idiota. - 
Ele a envolveu nos braos e a levantou do cho.  Nunca acreditei que a morte acontecesse 
por uma razo especfica - ele disse enquanto olhava para o rosto dela. - Mas se nossas 
vidas fossem diferentes, eu no teria me apaixonado por voc. 

Mick baixou a cabea e a beijou. Sua boca estava quente, mida, agradvel. Mais tarde ela 
o pegaria pelas mos e o levaria para o quarto. Mas por enquanto, queria apenas sentir de 
novo o seu beijo. Aquela sensao era como andar no sol depois de um inverno longo e 
frio. Uma deliciosa sensao de alvio que a fez se sentir bem em seu prprio mago. 

Apoiou as costas dela e pressionou sua testa contra a dela. 

- Desde a primeira noite que voc esteve no Mort's, s tenho olhos para voc - ele disse. - 
Voc foi a nica coisa que consegui ver na minha frente, mesmo quando tentei 
desesperadamente pensar em outra coisa. 

- Hmm... Olhar ou tocar? Eu vi voc conversando com Tanya no estacionamento. 

- Apenas olhar... Eu no quero mais ningum. 

Ela ps os braos em torno das costas dele e prendeu uma mo na outra. 

- E quanto a Meg? 

Mick levantou a cabea. 

- O que tem ela? 

- O que voc vai dizer a ela? Ela me odeia! 

- De fato, ela tem estado muito ocupada com meu amigo Steve para pensar em voc. - Mick 
pensou por um momento, depois continuou: - No acho que ela te odeie realmente. Ela 
culpa a sua me por tudo o que aconteceu, mas ela sequer te conhece. 

Maddie riu. 

- Me conhecer no  uma garantia de que ela vai gostar de mim... 

Mick encolheu os ombros. 


- Acho que ela vai superar isso. Ultimamente ela tem repetido muito que quer me ver feliz. 
Quer que eu me case com algum que eu ame. Para ter uma esposa e uma famlia. Eu nunca 
pensei que quisesse filhos, mas depois que vi a maneira como voc criou sua gata... - ele 
interrompeu sua fala e procurou Bola de Neve, que continuava hipnotizada, mas desta vez 
por peixinho dourado. 

- Voc  a certeza que eu tenho. - Ele olhou de volta para Maddie e sorriu. - Me diga se 
alguma parte ou todas as partes do meu plano atrai voc. Se no atrair, vamos ter de fazer 
ajustes. 

- Isso est me soando como um plano de casamento, com vestido branco, cerca de estaca 
pontiaguda em volta da casa e um reprodutor dentro da casa. 

Ele riu exultante. 

- Quem conseguiria imaginar? 

Certamente ela no conseguiria. Nunca pensou que seria a esposa de algum homem ou que 
pensaria em ter uma famlia. Mas claro, ela tambm nunca pensou que se apaixonaria ou 
que teria um gato. A vida dela havia mudado drasticamente desde que havia ido morar 
Truly. Ela havia mudado. 

Maddie pegou a mo de Mick e o levou da sala. Talvez ele estivesse certo. Talvez suas 
vidas sempre estiveram entrelaadas e eles deviam mesmo ficar juntos. Se fosse esse o 
caso, ela passaria feliz o resto da vida envolvida com Mick Hennessy. 

 

***FIM*** 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 


